
Rita Chantre
O objeto em que o escritor aponta toda a sua vida.
"Um caderno pode ser a escolha óbvia. Mas é a minha escolha óbvia - embora, na verdade, quase não o veja como objeto: este caderno de páginas brancas acompanha-me como extensão do meu espírito. Não tenho grande cerimónias comigo mesmo, aí aponto reuniões, rabisco, examino a minha consciência, registo nomes, faço planos, anoto observações como "confusão populista". E escrevo romances e crónicas.
Há uns anos, deixei de escrever a primeira versão no computador, que é um vórtice de desatenção. A página em branco, o caderno aberto, o silêncio silêncio ou o silêncio música, tornaram-se um compromisso mais sério e eficaz. De resto, foi também regressar à infância, altura em que escrevia sempre à mão. Infelizmente, eram poemas, e agora tenho vergonha de abrir os antigos cadernos. Escolhi a marca Moleskine porque me foi aconselhada pelo Hemingway e pelo Bruce Chatwin. Se eles conseguiam usá-los na Guerra Civil Espanhola e na Patagónia, eu não faria por menos: de certeza que serviam para escrever entre a casa e o escritório. Sempre que estreio um, registo a data na folha de rosto ao lado dos meus contactos e da indicação sobre a recompensa (muito). Ao terminá-lo, aponto a data de fecho na última página. Entre uma data e a outra, fica a minha vida.
De resto, soube entretanto que fui enganado pelo Hemingway e pelo Chatwin, que afinal não usavam cadernos dessa marca, que só foi criada em 1997. Mas nenhum escritor que se preze deixaria que o bom marketing estragasse uma bela história - sobretudo quando os cadernos não só são maleáveis, como aguentam todos os meus rascunhos sem queixumes. Sobretudo quando os cadernos acolhem o meu espírito de páginas abertas e sem corar."
Afonso Reis Cabral
35 anos
"O último avô" é o mais recente livro de Afonso Reis Cabral. Quinta-feira, 29 de janeiro, conversa sobre a obra, já na quarta edição, na Biblioteca Municipal de Faro, às 18h. Com "O meu irmão" venceu o Prémio Leya em 2014, com "Pão de açúcar" foi distinguido com o Prémio Literário José Saramago em 2019.
