
Luís Cabral vai assumir o comando do INEM. Uma nomeação que divide opiniões. É elogiado pela experiência nos Açores, mas criticado pelo custo elevado e modelo pouco consensual. À frente terá o desafio de estabilizar a instituição, modernizar o CODU e fortalecer a articulação com bombeiros e meios aéreos.
Na primavera de 2008, com o Rock in Rio ainda instalado no Parque da Bela Vista, em Lisboa, Luís Cabral apressava-se de um lado para o outro, a prestar assistência médica a algumas das 354 mil pessoas que passaram pelo festival ao longo daqueles cinco dias. Eram os seus primeiros passos enquanto médico, ao som de Metallica, Rod Stewart e Bon Jovi. Dificilmente imaginaria que, quase 18 anos depois, acabaria por assumir um cargo frequentemente alvo de críticas e polémicas.
A experiência revelou-se valiosa ao longo da carreira. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, prepara-se para nomeá-lo presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), substituindo o interino Sérgio Janeiro (ver página 8), envolvido na polémica da renovação dos contratos com a empresa de helicópteros. Esta decisão ocorre após um processo conduzido pela Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública e torna Cabral o quarto responsável pela instituição em pouco mais de um ano.
Natural de Ponta Delgada, Luís Cabral é especialista em anestesiologia, com competências em emergência médica e medicina hiperbárica e subaquática. Estreou-se no INEM em 2007 como instrutor de suporte básico de vida e, desde então, tem estado ligado à instituição em várias funções. Antes disso, iniciou o internato em Medicina em 2004 no Hospital do Divino Espírito Santo, na sua ilha natal, e passou quatro anos em Lisboa, entre o Hospital de Santa Maria e trabalhos como freelancer. Entre dezembro de 2005 e janeiro de 2006 foi médico de emergência, em moto, no Rali Dakar, cuja partida teve lugar em Lisboa, junto ao Mosteiro dos Jerónimos.
Ao longo da carreira, combinou medicina e política: foi secretário regional da Saúde dos Açores entre 2012 e 2016 e, mais tarde, integrou a equipa médica que prestava assistência VIP a visitantes de Portugal, no âmbito do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Atualmente, é diretor clínico do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores, onde também atua como médico regulador e formador.
A sua nomeação gerou reações diversas. A Ordem dos Enfermeiros manifestou apoio, destacando a experiência de Cabral na emergência pré-hospitalar e os resultados do modelo implementado nos Açores, como a introdução da Triagem de Manchester no Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e o alargamento da rede de Suporte Imediato de Vida.
Por outro lado, o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar manifestou preocupações, alegando que o modelo adotado nos Açores é "contrário à melhor evidência científica" e custa seis vezes mais do que o utilizado no continente. O sistema açoriano também foi alvo de críticas pelo Tribunal de Contas, que em 2024 concluiu que, apesar de gastos de 5,8 milhões de euros em 2022, a Proteção Civil dos Açores não cumpriu padrões internacionais de resposta nem garantiu meios humanos suficientes, revelando-se frágil, demorada e pouco eficaz. Profissionais de saúde das ordens médicas alertam ainda que o modelo regional precisa de ser ajustado para assegurar sustentabilidade, eficiência e equidade no serviço.
O especialista em saúde pública Francisco Goiana da Silva comentou à SIC Notícias que Luís Cabral "foi selecionado de acordo com um processo transparente, por muito que uns gostem mais e outros menos". Embora reconheça que a nomeação possa gerar contestação, o comentador considera que "isso não é necessariamente mau" e realça que o essencial é ter "alguém que resolva os problemas" de uma instituição "marcada por meses de crise de liderança e de funcionamento".
Entre os desafios imediatos estão a estabilização do INEM, a reorganização do CODU, o pleno funcionamento das aeronaves e o reforço da articulação com os bombeiros. A ministra da Saúde prepara ainda a mudança do nome da instituição para ANEM - Autoridade Nacional de Emergência Médica (ver página 8), num timing sensível em que se aguarda pelo relatório de uma comissão técnica independente e por uma nova lei orgânica.
Luís Cabral assume assim a liderança do INEM num momento crítico, entre elogios pela sua experiência e críticas sobre o modelo que implementou nos Açores, preparando-se para enfrentar a difícil tarefa de transformar a emergência médica em Portugal.
Luís Cabral
Cargo Presidente do INEM
Nascimento 13/10/1979 (46 anos)
Nacionalidade Portugal (Ponta Delgada)

