
José Manuel Pureza é tido como um político de sentido crítico e grande humanidade. A Convenção do BE, que acontece no final deste mês, deverá confirmá-lo como novo coordenador.
Quando o Bloco de Esquerda atravessa o seu pior resultado eleitoral em duas décadas, o nome que emerge para o reerguer é o de um homem que nunca levantou a voz. José Manuel Pureza, 66 anos, professor universitário, coimbrinha e católico assumido, prepara-se para suceder a Mariana Mortágua na liderança do partido. Para muitos dentro do BE, é o regresso da serenidade depois de anos de turbulência. Outros preferiam alguém mais jovem e lamentam falta de diálogo nesta escolha estratégica.
Licenciado em Direito e doutorado em Sociologia pela Universidade de Coimbra, Pureza é professor catedrático de Relações Internacionais na Faculdade de Economia e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CÊS), onde fundou o Núcleo de Estudos para a Paz. A sua vida académica foi sempre mais do que um exercício intelectual: "Foi e é alguém muitíssimo comprometido com o ensino", sublinha Daniela Nascimento, sua antiga aluna, hoje amiga e colega de investigação do CES. "Desde sempre, no início de cada ano letivo, insistia para que fôssemos mais do que estudantes, que fôssemos pessoas comprometidas com os valores da liberdade, da cidadania e do pensamento crítico."
A inquietação de José Manuel Pureza veio de casa. Filho único de professores, cresceu num ambiente onde a fé e a política conviviam naturalmente. O pai, assistente universitário; a mãe, professora do secundário; e, entre ambos, uma atmosfera de fé, leitura e debate sobre a atualidade do país e do Mundo. Incutiram-lhe assim, essa vontade de refrescamento em todas as áreas, de mudança, muito marcada pelo Concílio Vaticano II, muito entusiasta do Papa João XXIII. A ideia de que crer é também agir.
Na política, fez caminho com o mesmo método com que escreve e ensina, dizem: rigor, justiça e pensamento crítico. Está no Bloco de Esquerda desde os primeiros dias, foi deputado por Coimbra em três legislaturas, liderou o grupo parlamentar de 2009 a 2011 e chegou a vice-presidente da Assembleia da República (2015-2019). Sempre sem esconder um detalhe raro no partido: era o único deputado católico. "Ele leva a sério o pensamento social católico, especialmente nas questões da paz e da justiça social", recorda António Marujo, jornalista e diretor do jornal católico digital Sete Margens, amigo há já quatro décadas. "Nunca escondeu a fé, mas também nunca a impôs - fundamenta nela algumas das decisões e ideias que defendeu na praça pública sem estar sempre a dizer que vai à missa, como outros fazem. Claro que nem sempre concordamos, mas o diálogo com ele foi sempre muito fácil. É divertido, tem bom humor, é muito respeitador das outras pessoas e tolerante."
Embora tenha estado afastado do foco mediático nos últimos anos, é uma das figuras mais respeitadas dentro do partido e também uma das mais moderadas. Agora, a mesma serenidade que o tornou respeitado no Parlamento é a aposta para a liderança. A moção A, corrente maioritária, escolheu-o como primeiro candidato à Mesa Nacional e à Comissão Política - lugares que, por tradição, definem o coordenador do BE. É visto internamente como "um perfil agregador", capaz de reconstruir pontes num partido desgastado pelas derrotas e pela crispação.
O próprio saberá o peso do desafio. O partido que em 2019 teve 19 deputados conta hoje com apenas um. E o país que o rodeia é outro - mais cético, mais dividido, a avaliar pelos últimos resultados eleitorais, menos disposto a ouvir a esquerda. Mas há quem veja nele a figura certa para esse tempo. Marisa Matias, que o conhece desde o Fórum Manifesto, descreve-o como "muito próximo do melhor que se pode ser". "Em qualquer função - investigador, ativista, dirigente..." E mais uma vez ouvem-se as mesmas características: é uma pessoa que tem empatia, que pratica efetivamente a solidariedade."
Atributos que atravessam também a vida pessoal. Manuel Pureza, o filho, conhecido produtor cinematográfico, diretor e roteirista, diz que o pai é a primeira pessoa a quem liga depois de um dia de trabalho "tenha sido um dia bom ou mau". "Não é só um bom ouvinte, é também um bom 'processador'. Consegue, na conversa, ajudar-me a arrumar as ideias. Foi sempre assim, desde que sou miúdo." Pureza filho garante que poucas vezes o viu o pai zangado a sério: "Ele transforma tudo em diálogo. É moderado, equilibrado, justo. Uma das maiores lições que me deu foi o sentido de justiça." E acrescenta num aviso que começa a ser transmitido com gargalhadas, que diz serem idênticas às do pai: "há uma coisa que nunca lhe vão conseguir tirar, o sentido de humor."
O humor é facto, uma das marcas que mais lhe aportam. Quem o conhece garante que é impossível vê-lo sem a sonora e contagiante gargalhada. Algo que partilha com quem o rodeia, mais concretamente com os dois filhos, Manuel e Rita, e com os quatro netos.
Fora da política, José Manuel Pureza é também um dos promotores da DIALOP, plataforma de diálogo entre cristãos e marxistas apoiada pelo Papa Francisco - uma síntese improvável que espelha a sua própria vida: a de um crente que acredita que a fé pode ser revolucionária.
"Levar a sério o Evangelho", disse uma vez, "é levá-lo para o campo da justiça e da paz." Talvez tenha sido essa leitura que o trouxe até aqui. Entre a fé e a esquerda, José Manuel Pureza representa a tentativa de reconciliar o Bloco com o país. Na cidade onde tudo começou, Coimbra, prepara-se para dar o passo que o tornará, salvo surpresa, o novo coordenador do BE.
A XIX Convenção Nacional do Bloco de Esquerda está marcada para os dias 29 e 30 de novembro. É lá que se confirmará se o académico ecuménico e o cristão progressistas pode, afinal, ser o homem da reconstrução.
José Manuel Pureza
Cargo Candidato à coordenação do Bloco de Esquerda
Nascimento 18/12/1958 (66 anos)
Nacionalidade Portuguesa (Coimbra)
