
O miúdo que cresceu pobre no Brasil conseguiu inscrever o nome na história do futebol. Só que a acusação de violação, pela qual foi condenado e depois absolvido, é uma mancha que não se apaga. Agora, a notícia de que comprou o São João de Ver voltou a trazê-lo para a ribalta.
Afastado do futebol desde janeiro de 2023, altura em que foi acusado de agressão sexual, Daniel Alves terá agora comprado o Sporting Clube de São João de Ver, o emblema do terceiro escalão do futebol português, com a ajuda de investidores do Brasil. A notícia chegou no início da semana e consta-se que o internacional brasileiro está a ponderar a hipótese de assinar contrato como jogador do clube feirense para poder voltar aos relvados e pôr um ponto final na carreira. A confirmar-se, a despedida terá sempre um sabor amargo para um dos futebolistas mais bem-sucedidos de sempre, cuja história até podia inspirar contos de fadas, não fosse o revés dos últimos anos.
Nascido em Juazeiro, na Bahia, a infância parecia condenada à pobreza. Era garoto quando começou a trabalhar na "roça" com o pai, a plantar tomates, cebolas, melão e alho. Aprendeu inclusive a caçar pombos para ter comida na mesa. E, nas horas vagas, alimentava o fascínio pelo futebol com sacos de plástico ou meias velhas a servirem de bolas improvisadas. Até que um treinador o levou para o Bahia, tinha ele 15 anos, e lhe mudou o rumo da vida. Dani Alves começou aí a dar nas vistas. O empréstimo do Bahia ao Sevilha abriu-lhe as portas da Europa e, desde então, o miúdo brasileiro nunca mais parou.
Descrito como o "Messi dos laterais" - tornou-se, aliás, muito próximo do próprio Messi -, foi no Barcelona que se fez um dos grandes, vencendo por três vezes a Liga dos Campeões. Na época 2013/14, vestiu a camisola 22 em homenagem ao amigo Éric Abidal, afastado dos campos por estar a lutar contra um tumor, a quem ofereceu parte do fígado quando o francês precisava de um transplante. "Ele queria unir-se a mim nesta luta. Disse-lhe que não podia aceitar, mas vou ficar-lhe eternamente grato por este gesto", contou mais tarde o antigo colega de Alves no Barça.
Ao serviço dos blaugrana, em 2014, ainda protagonizou um momento icónico, quando decidiu comer uma banana atirada para o relvado por um espetador num ato racista. As imagens viralizaram, mas o entusiasmo refreou ao saber-se que tinha sido planeado como parte de uma campanha de combate ao racismo (depois de vários arremessos de bananas e insultos noutros jogos da Liga espanhola). Ainda assim, o lema "Somos todos macacos" vingou. No currículo, o brasileiro tem ainda a Juventus, o Paris Saint-Germain ou o São Paulo, além de ter brilhado na seleção brasileira.
Acumulou 43 títulos, inscreveu o nome na história. A propósito dos seus 34 anos, chegou a publicar no seu Instagram uma imagem da casa humilde onde cresceu, numa espécie de memória do que fora e do tanto que conquistara. "É um grande orgulho saber que toda a dedicação e abdicações me levaram a chegar onde eu quero e a poder proporcionar uma vida digna à minha família", escreveu.
Porém, em janeiro de 2023, a acusação de agressão sexual caiu que nem bomba. Uma jovem de 23 anos acusou-o de a ter violado na casa de banho da discoteca Sutton, em Barcelona, na noite de 30 para 31 de dezembro de 2022. As contradições de Alves, que contou três versões diferentes dos acontecimentos - primeiro assegurou que não a conhecia, depois confirmou que estiveram juntos na casa de banho, mas que nada aconteceu, e só por fim assumiu o envolvimento, garantindo que houve consentimento -, pesaram e o jogador foi preso em Espanha.
O Pumas, do México, clube em que jogava à época, rescindiu contrato. No julgamento, em 2024, foi condenado a quatro anos e meio de prisão. Acabaria por sair da cadeia, ao cabo de 14 meses preso, após pagar uma fiança de um milhão de euros. Até que em março deste ano, o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha anulou a sentença e absolveu-o, por considerar que o depoimento da jovem não bastava para provar o crime. Mas o jogador voltará a ser julgado pelo Tribunal Supremo de Espanha, na sequência de um recurso do Ministério Público de Barcelona.
Dani Alves tem dois filhos, Daniel e Victória, fruto do relacionamento com Dinorah Santana, que conhecera quando ainda jogava pelo Bahia, em 2001. Dinorah geriu a carreira do lateral ao longo de uma década, até o casamento chegar ao fim, em 2011. À data da acusação de agressão sexual, estava já casado com a modelo espanhola Joana Sanz, que se mantém ao lado do antigo jogador, apesar de ter assumido ter ponderado o divórcio.
Depois do mediático caso, o ex-futebolista tem mostrado nas redes sociais o que diz ser uma mudança radical de vida. Após deixar a prisão, tornou-se pastor evangélico numa igreja em Girona. Mas o futebol parece ter voltado a entrar no radar. Com a compra do São João de Ver, quer regressar aos campos já na próxima época, para jogar por pelo menos seis meses. Era no Bahia, o clube do berço, que sonhava terminar a carreira, mas não conseguiu cumprir o feito.
O conto de fadas desmoronou-se. E mesmo com a absolvição, esta é uma mancha que não se apaga.
Dani Alves
Cargo: Ex-jogador de futebol
Nascimento: 06/05/1983 (42 anos)
Nacionalidade: Brasil (Juazeiro, Bahia)

