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Mariana Mortágua

A derradeira liberdade

Pensar a morte implica conceber deixar de existir. É difícil, não temos ideia do que significa inexistir e o vazio é sempre assustador. Mas boa parte do que torna a ideia da nossa própria morte tão angustiante não é a abstração do nada. É a antecipação do momento, em vida, em que tomaremos consciência de que a morte é certa. E o medo maior é que esse momento seja longo, doloroso ou degradante. Que o nada chegue antes de nos irmos, que o corpo nos sobreviva, muito para além da vontade e, portanto, da dignidade.

Mariana Mortágua

As vistas curtas do Partido Socialista

Mais um janeiro que termina, mais um brilharete de Mário Centeno, transformado em mantra pelo Partido Socialista. Já ninguém se lembra do objetivo aprovado no Parlamento para o défice em 2017, mas o importante é que este tenha ficado abaixo do então previsto. Mais de dois mil milhões de euros (em contabilidade pública). Foi quanto custou ao país a inscrição na liga da elite europeia das Finanças de 2017. Dirá o Governo, não sem razão, que este resultado se deve ao crescimento económico. Mas não explica porque preferiu usar esse crescimento para reduzir o défice além do prometido às instituições europeias, em vez de o investir em saúde, educação ou infraestruturas. Os valores do investimento público deste Executivo são humilhantes e mostram o paradigma de um Governo bloqueado pelo sucesso do seu próprio ministro das Finanças.

Mariana Mortágua

As mulheres da fábrica da Triumph

Desde o dia 5 de janeiro que centenas de trabalhadoras da antiga Triumph, em Sacavém, às portas de Lisboa, guardam dia e noite a fábrica a que deram vida e que agora são forçadas a abandonar. A fábrica pertence-lhes, é muito mais delas que da empresa de fachada (TGI-Gramax) que a comprou há um ano para abrir falência logo a seguir. E, ao contrário do ministro da Economia, que foi na conversa dos grandes investimentos, quem lá trabalha nunca teve dúvidas: a Triumph deslocalizou a produção para um lugar de mão de obra mais barata e encontrou um cangalheiro para se desfazer do que deixou para trás. E para trás ficaram elas, as suas famílias, os anos de trabalho dedicados a fazer o melhor possível da unidade portuguesa de fabrico da multinacional do têxtil.

Mariana Mortágua

O preconceito faz mal à saúde

Há uma substância capaz de fazer face a sintomas associados a várias doenças graves, entre elas o cancro. Os seus benefícios estão comprovados por milhares de estudos certificados. Tem efeitos secundários, mas não mais que muitas drogas legais, como antidepressivos ou analgésicos fortes, que geram profundas dependências. Quem precisa de aceder à canábis para uso terapêutico, ou quem acompanha a situação, conhece a revolta de saber que há um tratamento mais indicado que, por ignorância e preconceito, não está legalmente disponível. Eu já a senti.

Mariana Mortágua

Haja Saúde

Nos EUA há 46 milhões de pessoas que não têm um seguro de saúde. Se adoecerem, a solução será vender o que têm, ou endividar-se, para poderem pagar as astronómicas contas do hospital. Se não conseguirem, ninguém as tratará. Há poucas pessoas em Portugal que tenham a coragem de defender o modelo dos EUA. Mas é para lá que nos levam todas as medidas que, ao longo dos anos, foram enfraquecendo o SNS e transferindo cada vez mais competências para os privados.

Mariana Mortágua

Assaltaram os Correios

Não são apenas as pontuais cartas ao Pai Natal, todo o correio arrisca hoje atrasos ou extravio. A distribuição não é diária, e o serviço piorou a olhos vistos desde que se começou a preparar a privatização dos CTT. Em 2014, o então secretário de Estado do governo PSD/CDS, Sérgio Monteiro, vangloriava-se da operação: "O exemplo que os CTT dão de uma empresa 100% colocada no mercado de capitais é um exemplo que deve inspirar muitos outros grupos empresariais". Os CTT provaram ser uma referência inspiradora para grupos privados. Mas são também um exemplo de má prestação de serviço público e, sobretudo, de um negócio ruinoso para a própria empresa, para o Estado e para o país.

Mariana Mortágua

Segurança Social e recibos verdes

Pagar muito para muito pouca proteção, e de acordo com os rendimentos de há um ano, que podem estar desfasados dos atuais. É esta a atual relação dos recibos verdes com a Segurança Social. O resultado é o inferno que tantos conhecem: descontos pelos mínimos possíveis, um constante abre e fecha de atividade e, ainda assim, dívidas e penhoras que não parecem ter fim. A longo prazo, o que estamos a construir é um exército de pessoas com carreiras contributivas miseráveis, e uma correspondente descapitalização do sistema de Segurança Social.