Com água acima da cintura, Lurdes volta a sofrer com cheias em Montemor-o-Velho

Foto: Miguel A. Lopes/Lusa
Com água acima da cintura, Lurdes Moio ficou sem acesso às traseiras da sua casa em Montemor-o-Velho (Coimbra), porque a subida do nível da água do Rio Mondego fez desaparecer o jardim e inundou o primeiro piso da vivenda.
"Conseguimos tirar algumas coisas, outras ficaram lá, porque nunca pensámos que fosse tão intenso", afirma Lurdes Moio, que mora numa das vivendas da Quinta do Taipal, em Montemor-o-Velho, inundadas devido à subida da água do Rio Mondego.
Ao final da tarde de hoje, a água atingia já parte da cozinha da vivenda, onde ainda era possível ver o puxador do forno e a bancada com loiça. É da janela exterior que João Oliveira, filho de Lurdes Moio, mostra à reportagem da agência Lusa até onde chegou a água.
"Os campos estão cheios, é impossível" minimizar o impacto da subida do nível da água do Rio Mondego, conta o jovem João Oliveira.

Visivelmente emocionada, Lurdes Moio conta que já vive nesta vivenda há 33 anos e recorda as cheias de 2001, "quando rebentou o dique", tendo a água chegado às janelas do meio da casa, com três pisos.
"Esta [cheia] mesmo assim está mais suave. Vamos ver o dia de amanhã [quinta-feira], mas em 2021 chegou ao segundo piso", reforça.
Apesar de "nunca" pensar que o Rio Mondego fosse transbordar nos últimos dias, a moradora foi-se precavendo desde domingo.
"Primeiro, tirámos as galinhas do sítio delas para ali, onde fizemos um sítio. Entretanto, no domingo, isto já estava a começar a ficar um caos", conta.
O jardim ficou completamente submerso, onde se vê a parte superior de uma piscina e da zona de capoeira e de armazenamento de lenha. "A lenha ficou lá toda. Não tivemos hipótese de tirar lenha nenhuma para as lareiras".
Lurdes Moio adianta que foi na segunda-feira que a água "começou a subir muito": "Eu não tenho ido trabalhar, porque estamos com pavor disto continuar a subir".
"E vamos esperar por melhores dias, o que não se perspetiva, não é? Pelo que dizem. [...] O que é que aqui se pode fazer? Não se pode fazer nada. Há técnicos que falam de coisas mal feitas. Eu não vou falar nada disso, porque eu não faço a mínima ideia. Eu só sei na situação em que estou", expressa, realçando que a Junta de Freguesia de Montemor-o-Velho e Gatões e os serviços de Proteção Civil têm sido "incansáveis".
Do Castelo de Montemor-o-Velho, onde ainda há uma árvore de grande porte arrancada pela raiz após a tempestade Kristin, vê-se hoje os solos agrícolas quase totalmente submersos, bem como as vivendas da Quinta do Taipal.
De visita a Lurdes Moio, para lhe entregar uma declaração de justificação de falta ao trabalho, o presidente da Junta de Freguesia de Monte Morvelho e Gatões, Bruno Rodrigues, refere que, "efetivamente, as pessoas têm de estar em casa a prevenir" a subida da água do Rio Mondego, porque "a água vai subindo gradualmente".

A urbanização e vivendas da Quinta do Taipal, Poço da Cal e Casal Novo do Rio são as zonas mais críticas nesta freguesia de Montemor-o-Velho, "que historicamente estão vulneráveis a este tipo de cheia", afirma Bruno Rodrigues, acrescentando que a cheia registada nestes últimos dias tem sido controlada, o que não aconteceu em 2001, ano em que "não foi possível controlar", com o rebentamento de dique.
"O que estamos a verificar aqui é que, gradualmente, a água vai subindo. As pessoas foram alertadas também desde há oito dias para este tipo de situação que viria a ocorrer", adianta, referindo que a população se tem precavido, inclusive após a autarquia aconselhar a que passem todos os bens para patamares superiores e fiquem em casa de prevenção.
Sobre casas afetadas por inundações, Bruno Rodrigues sinaliza três vivendas da Quinta do Taipal e a urbanização vizinha, com água nas garagens.
"As pessoas estão alertadas, estão atentas, estão vigilantes. Nós passamos no local regularmente, tanto lá como aqui, para perceber a evolução da cheia, a evolução das águas, para que depois possamos, se existir alguma emergência, atuar de forma mais eficaz", realça o presidente da Junta, acrescentando que ainda não houve necessidade de realojar moradores.
A reportagem da agência Lusa viajou pela A14 - Autoestrada do Baixo Mondego, que liga Coimbra com a Figueira da Foz, onde o trânsito está cortado para Montemor-o-Velho, mas as portagens já sinalizam a isenção do custo de circulação nestas vias rápidas, medida temporária do Governo aplicada às zonas afetadas pela depressão Kristin.
Prevê-se o agravamento das condições meteorológicas nos próximos dias, com chuva intensa, levando ao risco de inundações e cheias, sobretudo nas zonas do Baixo Mondego.
