Juan Carlos fala pela primeira vez sobre o disparo que matou o irmão em Cascais

O rei emérito Juan Carlos I, fotografado à saída de um restaurante em O Grove, na Galiza, na passada quinta-feira
Foto: Lavandeira Jr/EPA
No livro de memórias "Réconciliation", Juan Carlos I revisita o passado com um tom de confissão. O rei emérito fala pela primeira vez do acidente em Cascais que matou o irmão Alfonso e mudou para sempre o rumo da família Borbón.
Era Quinta-feira Santa de 1956, o dia que recorda a Última Ceia, quando se ouviu o som seco de um tiro na Villa Giralda, no Estoril. O infante Alfonso, de apenas 14 anos, caía mortalmente ferido. O disparo partira de uma pistola de calibre .22, manuseada pelo irmão mais velho, Juan Carlos, então com 18 anos e de férias da Academia Militar de Zaragoza.
Durante quase sete décadas, o episódio permaneceu envolto em silêncio. Agora, o antigo rei de Espanha fala pela primeira vez sobre o que aconteceu naquela tarde em Cascais, onde a família Borbón vivia exilada desde o final da Guerra Civil espanhola. No livro, publicado em França, o monarca recorda que não tinham ideia de que a arma ainda estava carregada. "Disparou-se um tiro para o ar, o projétil ricocheteou e atingiu o meu irmão em cheio na testa. Morreu nos braços do nosso pai. Houve um antes e um depois", recorda.
O pai, D. Juan de Borbón, conde de Barcelona, era o chefe da Casa Real no exílio e o herdeiro legítimo do trono espanhol, afastado do poder por Franco. Viveu com a família no Estoril durante décadas, num ambiente discreto e distante da política de Madrid.
A versão oficial divulgada na altura pela embaixada espanhola em Lisboa falava apenas de um acidente doméstico ocorrido enquanto os dois irmãos "limpavam uma arma". Nenhum inquérito foi aberto e o caso nunca chegou a ser investigado. Durante anos, a família evitou o tema.
Uma culpa que nunca se apagou
Juan Carlos admite nas memórias que o sentimento de culpa o acompanhou toda a vida: "Não me recuperarei nunca desta tragédia. A sua gravidade acompanhar-me-á para sempre. Penso nisso todos os dias... Sinto a falta dele. Queria poder tê-lo a meu lado e conversar com ele. Perdi um amigo, um confidente. Deixou-me um vazio imenso."
A mãe, Maria das Mercedes, recordaria mais tarde que "a vida parou" naquele dia. Algumas versões indicam que foi ela própria quem retirou a pistola do cofre do marido e a entregou a Juan Carlos, sem imaginar que ainda estivesse carregada. Pouco depois do funeral, o conde de Barcelona, arrasado pela perda do filho mais novo, terá lançado a arma ao mar num gesto de pura dor, e uma tentativa de se libertar para sempre daquele objeto que simbolizava a tragédia.
O corpo de Alfonso foi sepultado a 2 de abril de 1956, em Cascais. As fotografias da época mostram um jovem Juan Carlos abatido, de olhar vazio. A irmã, a infanta Margarita, apanhou flores silvestres no jardim e colocou-as nas mãos do irmão antes do enterro, num gesto simples que muitos recordam até hoje.
Durante décadas, o agora rei emérito manteve silêncio absoluto sobre o assunto. Só em 2016, numa entrevista à jornalista Laurence Debray - que mais tarde o acompanhou na escrita das suas memórias -, deixou escapar uma breve lembrança: "Gostava muito dele. Tenho saudades de poder falar com ele, de discutir com ele."
Quase 70 anos depois, Juan Carlos decide finalmente falar abertamente sobre o episódio. "Ainda me custa falar sobre isso", escreve. "Mas era preciso fazê-lo. Há feridas que só cicatrizam quando são ditas em voz alta", confessa.
A tragédia de Cascais marcou não só a história da família Borbón, mas também a vida pessoal de um rei que, ao longo de décadas, foi símbolo da transição democrática espanhola e, mais tarde, protagonista de polémicas e exílios. Desta vez, o antigo monarca parece procurar apenas aquilo que o título do livro anuncia: reconciliação.

