Ricardo Sá Pinto refugia-se na embaixada portuguesa em Teerão e teme novo conflito

Sá Pinto mantém-se no Irão, onde o futebol não parou, apesar de o clima da tensão já ter provocado milhares de mortos
Foto: Miguel Pereira / Arquivo
Em plena instabilidade no Irão, o treinador português do Esteghlal garante estar em segurança na embaixada de Portugal, mas admite apreensão face ao clima de protestos. Ainda assim, Ricardo Sá Pinto optou por permanecer no país e continuar a liderar a equipa em competição.
O treinador português Ricardo Sá Pinto encontra-se em segurança na embaixada de Portugal em Teerão, depois de um período em que esteve incontactável, no contexto marcado pela instabilidade política e social no Irão. A garantia foi deixada pelo próprio, esta quarta-feira, através de um vídeo divulgado nas redes sociais.
Nas imagens, gravadas cerca das 20.30 hora locais, o técnico descreveu um ambiente aparentemente tranquilo na capital iraniana, apesar do clima de tensão que se vive no país. "Está tudo aparentemente calmo, com pessoas na rua e carros a circular. É claro que estamos apreensivos para perceber o que se está a passar ou poderá ocorrer, mas estamos em segurança e temos planos de emergência bem delineados e preparados", afirmou.
Sá Pinto explicou que se deslocou à embaixada portuguesa por não ter acesso à internet nem rede móvel. "Estou incomunicável", acrescentou, justificando a ausência de contactos nas últimas horas.
O treinador agradeceu ainda o apoio prestado pelo encarregado de negócios de Portugal no Irão, André Oliveira, referindo que se fez acompanhar por elementos da equipa técnica do Esteghlal. A permanência no país surge num momento delicado, em que o receio de um agravamento do conflito volta a estar presente.
"Não gostava de presenciar uma guerra novamente, porque já cá estava logo no início. Depois, acalmou, mas agora está na iminência de [voltar]", disse o antigo internacional português, recordando a experiência anterior no país. Ao longo da carreira, Sá Pinto orientou clubes como Sporting e Sporting de Braga, além de várias equipas no estrangeiro.
Apesar da instabilidade, o futebol no Irão não foi interrompido. Na terça-feira, o Esteghlal venceu fora o Foolad Hormozgan, por 2-0, em encontro da Taça do Irão, garantindo o apuramento para os quartos de final da competição, da qual é detentor.
Para o técnico, a continuidade das provas oficiais pesou na decisão de permanecer. "Senti-me na obrigação de ficar, continuar a dar os treinos à minha equipa e perceber se há condições. Para mim, é difícil abandonar nesta altura. Espero que tudo se possa resolver pelo melhor. É o meu desejo", frisou.
"Houve jogadores que tiveram de sair porque não estavam confortáveis, mas também houve jogadores iranianos que não saíram da cidade porque não podem deixar as famílias", referiu ainda Sá Pinto.
O Esteghlal volta a jogar no sábado, recebendo o Tractor, campeão iraniano, na 16.ª jornada do campeonato. A equipa ocupa o terceiro lugar da tabela, com 25 pontos, a cinco do líder isolado Sepahan.
Ricardo Sá Pinto, de 53 anos, regressou ao clube em junho de 2025, depois de uma primeira passagem em 2022/23, período em que conquistou a Supertaça.
O Irão vive uma nova vaga de protestos desde 28 de dezembro de 2025, iniciada em Teerão e rapidamente alargada a mais de uma centena de cidades. As manifestações surgiram numa sequência da forte inflação e colapso do rial, a moeda iraniana, e da repressão crescente.
Segundo a ONG Iran Human Rights, pelo menos 3.428 manifestantes terão sido mortos desde o início dos protestos, embora as organizações alertem que o número real poderá ser superior, devido à ausência de dados oficiais e ao bloqueio quase total da internet no país. A situação mantém-se volátil, com a comunidade internacional a acompanhar de perto a evolução dos acontecimentos.

