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Tomás

A alma mais aos soluços de todas havia de calhar ao Tomás. Isto é, uma que é tanto de salamalecos quanto de empurrões e gulas. Já tenho visto gente apressada, mas, com a impressão de que hoje é sempre amanhã, nunca, nunca neste grau. É demasiado com a folia de já ser tarde, já devíamos ter ido, já devíamos ter vindo, já nem se aguenta a fome, nunca mais chegamos, nunca mais partimos, quero este livro, quero arroz, quero viajar, já nem posso ficar sentado, ó menina, estou a morrer à sede. A vida do Tomás é um tumulto por dentro, porque julgo que a alma lhe dá turbo nas veias e aquilo vira uma canalização que não cessa de carburar.

Tenho tendência para amigos esquisitos, diferentes de mim, daqueles que não vou jamais entender. Tenho tendência para gostar das pessoas que gostam de mim e adoro que sejam bastante diferentes, cheias de arrebiques de personalidade que me espantam. O Tomás é uma espécie de arraial num homem só. Uma festa onde há baile e gambiarras, onde há dia e noite e montes de ideias para a alegria. É normal que tenhamos ataques de riso, que me enerve, que me desarrume os planos, a educação e, sobretudo, o silêncio.

O Tomás sofre de um problema semelhante ao meu, somos esganifados por uma coisa nova, um livro ou um desenho, um caco de artesanato, uma porcaria qualquer que nos dê a sensação de voltarmos a casa com uma maravilha nunca vista. A grande diferença é que as pessoas oferecem tudo ao Tomás. Eu, que sou de charme nenhum, tenho de pagar cada cêntimo. Não sei se é de ele ainda ter cabelo, se é de vestir como um daqueles bonecos na montra da Bruxelas, o certo é que a minha figura punk acede a tudo passando na caixa registadora.

Por vezes, viajamos juntos. Estou em crer que é especialmente para dar sossego à sua mulher, que ao fim de trinta anos de casamento tem garantida a santidade. Viajar com o Tomás é igual ao fim do liceu, quando íamos visitar o Mosteiro da Batalha. Vamos aos museus e às galerias e andamos numa alegria sem fim, típica de quem vai acabar o ano lectivo e dormir até às onze da manhã. Com o tempo, entendo que a melhor maneira de ser adulto é não perder as ganas. O Tomás é um infinito de ganas. Melhor que andar com aquelas coisas de carregar os telefones. Acredito até que se pousarmos o telefone na palma da sua mão ele atesta a bateria.

Não quero perder amigos assim. Quero mais um ano dos nossos problemas bons.

Valter Hugo Mãe