As ruas são os nossos palácios da sabedoria

As ruas são os nossos palácios da sabedoria

As magníficas crónicas de Roberto Arlt sobre os habitantes de Buenos Aires já têm edição portuguesa. "Águas-fortes portenhas" é uma das grandes apostas da Exclamação para a 'rentrée'.

Quem leu o genial "Sete loucos" - publicado no início do milénio pela Cavalo de Ferro e reeditado em 2015 -, não estranhará decerto a singular verve de Roberto Arlt (1900-1942), escritor argentino cuja devoção pela escrita só encontrava paralelo no entusiasmo suscitado pelo frenesim popular das ruas, símbolo de uma humanidade que recusa qualquer aprisionamento.

Se no seu romance mais marcante Arlt efabulava sobre a vida de um homem errante que conspira contra tudo e todos para instaurar um novo e delirante regime, "Águas-fortes portenhas" propõe-nos outro ângulo, mas não menos estimulante.

Nesta recolha alargada das crónicas que escreveu durante cinco anos para o jornal argentino "El Mundo", cada um dos escritos é dedicado a uma personagem extraída do quotidiano de Buenos Aires. "A partir de cada tipo pode construir-se um mundo. Os que têm escrito na testa o que pensam, como os que são mais tapados do que uma pedra, mostram o seu pequeno segredo... o segredo que os move pela vida como fantoches", sintetiza o autor, convicto de que "a escola mais útil para o conhecimento é a escola da rua".

Pouco mais de três mil carateres bastam para que Roberto Arlt nos trace a essência destes extravagantes seres que, juntos, formavam um autêntico "empório infernal". Homens e mulheres de méritos incertos e falhas mais do que evidentes, para quem os pequenos ardis do quotidiano a que recorrem não são tanto uma tentativa de sobrevivência como uma razão para se manterem vivos.

Nesta galeria infindável de fracassados, tanto cabe o chato, que não larga o seu interlocutor até conseguir extinguir a sua última réstia de paciência; como o teórico, que pensa ter a resposta para todos os problemas do Mundo, mas é incapaz sequer de abandonar a sua própria letargia; mas também o doente profissional, sempre empenhado em encontrar novas formas de prolongar o seu estado de inatividade.

Mais do que a evidente universalidade destas figuras - que continuam a estar amplamente representadas na sociedade atual -, o que impressiona mais nos relatos sempre vivos e loquazes de Arlt é a sua ausência de julgamento moral dos indivíduos. Uma atitude que não espanta em quem, como escreve Rui Manuel Amaral no posfácio, só queria "observar, escutar, sentir e escrever".

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