Juan Carlos "é um homem muito decidido, que não vê os riscos, vai diretamente sem ter medo de nada nem de ninguém"

Escritora Laurence Debray
Ph. Matsas/Stock
Laurence Debray traz as memórias e a "Reconciliação" do rei emérito de Espanha Juan Carlos I a Portugal. Em entrevista, a confidente e autorada polémica autobiografia fala de "um homem! que "não é nostálgico nem amargo", "muito decidido, que não vê os riscos, que vai diretamente ao objetivo sem ter medo de nada nem de ninguém, com muita autoridade, mas que não fica agarrado ao poder". Escritora revela momentos emotivos, o silêncio da Casa Real e os objetivos por trás da obra.
Escritora, biógrafa e estudiosa na transição democrática de Espanha após Franco, coube a Laurence Debray, por escolha do rei emérito de Espanha Juan Carlos, coassinar a autobiografia do monarca no exílio, nos Emirados Árabes Unidos e para onde foi viver após ser protagnista de escândalos íntimos e financeiros.
Se num primeiro trabalho sobre ele, a autora o considerou um "animal político muito maquiavélico", hoje a escritora e biógrafa, de 49 anos, que acaba de lançar a autobiografia do rei, Reconciliação (editora Planeta), tem entendimento muito diferente. do monarca que governou o país vizinho entre 1975-2014. "Na verdade, descobri um homem muito decidido, que não vê os riscos, que vai diretamente ao objetivo sem ter medo de nada nem de ninguém, com muita autoridade, mas que não fica agarrado ao poder", afirma.
Em entrevista, Laurence Debray dá contas das primeiras reações a um livro que tem gerado polémica e que procura trazer o ponto de vista do antigo rei de Espanha, pai de Felipe VI. Menos audíveis são as resostas da Casa Real, por enquanto. "As duas infantas Cristina e Elena apoiaram-me muito, mas com a Zarzuela não tenho contacto", aponta a escritora.
Defende que a obra não pretende exatamente trazer Juan Carlos de regresso ao país que chefiou e fez transitar para a democracia após a ditadura franquista. Contudo, talvez o desejo de regresso esteja latente: "Parece-me normal que um homem nessa idade, que teve um papel tão importante na história de Espanha, e apesar dos últimos erros na sua vida pessoal, possa regressar a casa e estar rodeado de toda a família e amigos", afirma a biógrafa. Debray lembra que o monarca emérito "nasceu fora de um palácio, no exílio, que vai morrer fora de um palácio e talvez no exílio".
O livro foi já publicado há algumas semanas em França e Espanha. Como Juan Carlos tem olhado para as reações?
O Rei ficou muito contente com a forma como o livro foi recebido em França, que foi muito positiva. Depois, em Espanha, foram vendas históricas, com sete edições num mês, pouco mais de um mês. Agora espera que em Portugal, que é uma pátria, como uma segunda pátria para ele e para a sua família, também tenha muito sucesso. Estão a preparar outras versões em árabe, em inglês, ou seja, ele está muito contente.
Quais as reações que mais o surpreenderam a Juan Carlos e a si?
O que mais me surpreendeu foi que, em Espanha, por exemplo, se critique o livro sem o ter lido. Foi isso que li um pouco na imprensa espanhola no início, algo que, como francesa, foi muito difícil de entender.
Um dos objetivos de Juan Carlos é poder regressar a Espanha. Com esta obra, Reconciliação, esse objetivo ficou mais longe ou mais perto?
Claro que ele gostaria de regressar a Espanha. O livro não tinha exatamente esse objetivo, mas ele espera que um dia possa voltar à normalidade. Parece-me normal que um homem nessa idade, que teve um papel tão importante na história de Espanha, e apesar dos últimos erros na sua vida pessoal, possa regressar a casa e estar rodeado de toda a família e amigos.
Como foram as reações da Casa Real espanhola? Que reações receberam - Laurence e Juan Carlos - de Felipe VI, da Zarzuela, das netas - especialmente a herdeira ao trono, princesa Sofia, e proncesa Leonor - da própria rainha Sofia?
Não tenho qualquer contacto com a Casa Real antes nem depois da publicação. Com as filhas, as duas infantas Cristina e Elena apoiaram-me muito, mas com a Zarzuela não tenho contacto. E, se houve reações, terão sido comunicadas diretamente ao Rei e não a mim. Penso que é um documento histórico no sentido de que é um testemunho para a História.
Mas em que medida espera que este testemunho pode mudar o que se conhece da historia recente de Espanha?
Nunca se tinha ouvido falar de um rei que escrevesse as suas memórias e nunca se tinha ouvido a sua versão dos factos e das suas vivências. Portanto, é um documento bastante único e também dá a conhecer o homem por trás do rei.
Capa da autobiografia de Juan Carlos I, da Planeta editora (Foto: DR)
Como é que se explica que um rei que se apresenta e descreve como tão humano se veja imerso em situações como as que foram públicas? Que justificações encontra o rei Juan Carlos para as controvérsias em que esteve envolvido?
Ele explica e reconhece no livro que cometeu erros, o que me parece muito importante, coloca-os em perspetiva e explica um pouco as fragilidades do homem por trás do rei.
Como biógrafa, que justificações encontra depois desta obra?
Pessoalmente, acredito que pode apelar à empatia e não à condenação quase inquisitorial que ele recebeu até agora.
Que recordações foram mais emotivas para Juan Carlos?
Claro, falar da morte do seu irmão [Infante Alfonso, de 14 anos, morto em Cascais por uma bala perdida disparada acidentalmente por Juan Carlos] é importante. E também a relação com o seu pai, D. Juan [de Borbón, conde de Barcelona], ele emociona-se sempre muito quando fala dele. Penso que as relações familiares são muito importantes para ele, ainda mais hoje, que vive longe e sozinho. Mas ele encara os bons e os maus momentos da mesma forma, não é uma pessoa nostálgica nem amarga.
Juan Carlos afirmou que escrevia as suas memórias porque "sentia que lhe estavam a roubar a história". Quais os momentos - públicos e privados - que Juan Carlos fez questão de clarificar e porquê?
Procurámos falar do bom e do mau, do público e do privado, e ter uma visão um pouco global do homem, sobretudo das suas fragilidades por trás do rei. Ele queria, acima de tudo, mudar as fake news sobre a sua vida, dar a sua própria versão dos factos, pessoal, das suas vivências, e isso, claro, ninguém lhe pode tirar. É algo muito pessoal, muito único, um testemunho que ninguém pode modificar ou alterar. É a sua vida, que quis partilhar não só com os espanhóis, mas com todos os jovens do mundo interessados em política, história e, sobretudo, na defesa da democracia.
Quais os maiores desafios para si ao escrever este trabalho?
O maior desafio foi conseguir que o livro transmitisse o tom direto, a maneira de se expressar do rei. Quando se lê o livro, tem-se a impressão de ouvir o rei, de estar muito próximo da sua forma de falar, de se expressar e de contar os factos. Creio que esse era o maior desafio e, pelo que alguns leitores me disseram, conseguimos alcançá-lo.
O que mudou na sua forma de ver Juan Carlos depois desta obra?
Quando escrevi o meu primeiro livro, a minha primeira biografia sobre ele, imaginava-o como um animal político muito maquiavélico, mas, na verdade, descobri um homem muito decidido, que não vê os riscos, que vai diretamente ao objetivo sem ter medo de nada nem de ninguém, com muita autoridade, mas que não fica agarrado ao poder. É um rei que, na realidade, nasceu fora de um palácio, no exílio, que vai morrer fora de um palácio e talvez no exílio, e isso dá-lhe uma grande distância em relação aos factos, uma certa distância até emocional.

