Sete tipos de luto que ainda são "socialmente marginalizados", segundo a Ordem dos Psicólogos

O luto vai além da perda de alguém querido
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É uma reação natural, mas nem sempre compreendida ou amplamente aceite. Mais: o luto não decorre apenas da perda de alguém que nos é próximo, é muito mais vasto do que isso. Num documento dedicado ao tema, a Ordem dos Psicólogos elenca as perdas que afirma serem ainda bastante desconsideradas pela sociedade. Conheça-as.
"O luto é, quase sempre, um processo doloroso". Quem o diz a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) num documento que acabou de lançar e no qual aborda o tema da perda, da dor, da importância de pedir ajuda em casos mais dramáticos e dos diferentes momentos que atravessa quem passa por este processo.
Mas se o luto está ainda muito associado à perda de um ascendente ou descendente, à viuvez, a verdade é que ele pode ser muito mais vasto do que isso, havendo perdas que a OPP considera ainda não estarem a ser devidamente valorizadas ou mesmo respeitadas.
Nesse sentido, para lá do longo documento dedicado ao tema e que abrange várias faixas etárias (e que pode ler ao detalhe aqui), a entidade profissional toca nas perdas que ainda são, como refere, "marginalizadas" e sobre as quais se espera que as pessoas, apesar de serem confrontadas com estes acontecimentos, "continuem a 'funcionar' com normalidade" lê-se no relatório.
Conheça os tipos de luto ainda pouco valorizados, compreenda-os e ajude-se ou ajude quem está a lidar com desaparecimentos destas naturezas:
Animal de estimação: "Além da dor de os perdermos, também nos podemos sentir perdidos e sobrecarregados de emoções difíceis de gerir", quase como "um membro da família" se tratasse, contextualiza a OPP, que alerta para "momentos vazios por preencher na vida diária, como por exemplo levantar cedo para lhes dar de comer ou ir passear à rua depois do jantar".
Doença ou condição de Saúde: Neste caso, a OPP fala em perdas pessoais cujas faculdades sempre foram tidas como certas. "Uma amputação de um membro, a perda de capacidades como, por exemplo, respirar autonomamente, de caminhar, a perda da possibilidade de realizar as atividades habituais do dia-a-dia ou a perda da possibilidade de concretizar um sonho (por exemplo, no caso de um diagnóstico de infertilidade em alguém que deseja muito ter filhos)". Para a entidade profissional, pode ainda ir mais além e tocar quem acaba de saber que tem uma doença da qual se que vai morrer. "Este tipo de situações pode originar um luto antecipatório", avisa a OPP.
Emprego: Muitas vezes, vinca a entidade profissional, "perder o emprego não significa apenas perder um meio de subsistência, mas também uma rotina diária estabelecida, as relações com colegas de trabalho e um propósito". Tendo em conta o vasto impacto desta realidade, deixar de ter as funções que se tinha "pode também implicar a perda de um sentido de identidade e gerar emoções, pensamentos e comportamentos que, em tudo, correspondem a um processo de luto"
País ou de uma cultura: Apresentado como "luto migratório", a mudança de território - seja por escolha pessoal ou de forma condicionada e forçada - arrisca ser traumática. "Esta experiência pode trazer sentimentos de perda e de saudade, mesmo quando a mudança representa uma oportunidade. É natural que surjam emoções intensas como tristeza, solidão ou desorientação, que correspondem a um processo de luto", diz a OPP.
Amizade: O afastamento de alguém que nos é muito próximo e o fim dessa relação deixam marcas difíceis de gerir. "Pode provocar sentimentos de tristeza, frustração e desamparo, abalando o nosso equilíbrio emocional e desencadeando um processo de luto", explica a entidade profissional. "Invisível e vivida em silêncio", "trata-se de uma perda ambígua: A pessoa ainda está viva, mas já não faz parte da nossa vida. Não há 'direito' a rituais de despedida, não há certezas absolutas de que a relação não possa ser retomada. É um processo que fica em aberto, o que pode aumentar a dor e o sofrimento", lê-se no documento.
Relação amorosa: Tal como no caso anterior, a ambiguidade de sentimentos introduz ainda mais dificuldade no processo de luto. "Para além de implicar lidar com a ausência física e emocional da outra pessoa, pode desencadear um conjunto de perdas como relações de amizade e estabilidade financeira, disrupções na rotina e responsabilidades e afetar, ainda, o sentido de identidade" afirma a OPP, somando "a grande incerteza face ao futuro".
Gestacional e neonatal: Começa a ser cada vez mais falado, há países que já contemplam soluções legais para quem é confrontado com uma perda desta natureza, mas ainda permanece no silêncio e na incompreensão. "A perda de um filho sonhado ou projetado -ainda em gestação ou acabado de nascer - pode trazer muito sofrimento", atesta a OPP. E acrescenta: "Muitas vezes, [estes lutos] são vividos de forma muito solitária (por exemplo, nas situações em que a pessoa não tinha ainda dito a ninguém que estava grávida), com culpa (por exemplo, a pessoa pode sentir que não foi capaz de" salvar" o bebé e rumina sobre o que poderá ter provocado essa perda; sentir que não tem "o direito" de estar em luto; sentir que não é legítimo pedir ajuda para lidar com a sua dor) e sentimentos de frustração, injustiça e vazio." A entidade profissional pede, nestes casos, cuidado redobrado com o que se diz a quem está enlutado por este motivo. "O sofrimento pode ser agravado por reações desadequadas por parte dos outros - que, na tentativa de ajudar, muitas vezes minimizam o impacto deste tipo de luto, através de verbalizações como "ainda és nova" ou "vais ter outros filhos", avisa a ordem profissional.

