
Violência depois do namoro acabar aumentou 56,8% em quatro anos, segundo dados das queixas recebidas na APAV
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Os primeiros tempos dos amores têm cada vez mais violência. Número de vítimas de violência depois do namoro acabar é quase o dobro da que é registada ainda durante a relação, e ambos valores não páram de crescer. Em quatro anos, a APAV apoiou quatro mil pessoas durante e depois do romance acabar.
Entre 2022 e 2025, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) assistiu 1343 pessoas em contexto de violência no namoro e 2625 após o romance terminar. Quer num caso, quer no outro, o volume de denúncias tem aumentado: no primeiro caso dispararam 36,5% em quatro anos (com 404 queixas em 2025) e no segundo dispararam para os 56,8% em igual período (totalizando 814 denúncias).
Somadas as denúncias reportadas em contexto de namoro e pós-rutura do mesmo, são mais de quatro mil os reportes que chegaram à entidade. Fica claro, desta forma, que a violência no namoro não só continua a crescer, como dispara depois da separação.
O maior número de vítimas é do sexo feminino, tocando jovens mulheres com idades entre os 25 e 34 anos, seguidas das que têm entre 18 aos 24 e as que estão na faixa etária dos 35 a 44 anos. Os agressores são, na sua larga maioria, do sexo masculino e os distritos com maior volume de queixas são Lisboa, Porto, Braga, Setúbal e Faro
Os dados negros foram avançados nesta manhã de quinta-feira, 12 de fevereiro, pela APAV e para assinalar o dia dos Namorados, que se evoca no sábado, 14 de fevereiro.
"Há uma anulação do espaço individual"
No ano passado, a então presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), Sandra Ribeiro, alertava para esta realidade crescente: a da violência estar a instalar-se nos primeiros amores. Uma preocupação que crescia a par da normalização de práticas agressivas e de controlo do parceiro.
Em janeiro de 2025, a responsável afirmava à Delas.pt/Jornal de Notícias que havia dados que indicavam que "os jovens usavam apps (aplicações no telemóvel) para monitorizarem onde cada um estava, em tempo real", revelava a então responsável. Avançava que a decisão de pedido e de cedência do controlo era "aparentemente voluntária [entre os namorados] - ainda que pudesse ser sempre condicionada - e era extremamente preocupante, ou seja, se namoras comigo, se tens ciúmes, tens de fazer isto porque gostas de mim".
Na ocasião, Sandra Ribeiro antevia uma tendência para a "equiparação entre comportamentos agressivos femininos e masculinos", para a permissão crescente da "invasão da esfera privada" e para a "normalização" de atitudes que "consideravamos violentas, como a perseguição nas redes sociais, a cedência de palavras-passe e também a geolocalização". E acrescentava: "já estive em projetos interessantes de dramatizações com atores e nos quais pomos os alunos a fazerem papéis, sendo eles livres para atuarem como quiserem, e a tendência é a de "se tu não queres que eu saia assim, não saio", "não gosto dessa pessoa, portanto é melhor não ires". Há uma anulação do espaço individual"
Esta sexta-feira, 13 de fevereiro, deverão ser conhecidos os resultados anuais nacionais do Estudo Violência no Namoro em Portugal: vitimação e conceções juvenis, levado a cabo pelo projeto ART'THEMIS+ da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR).Uma análise que conta com a participação de 8080 jovens do terceiro ciclo e do ensino secundário de várias escolas de todos os distritos do país, inclusive as regiões autónomas da Madeira e Açores.

