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Reportagem

O combate num lar para proteger os idosos com demência

O combate num lar para proteger os idosos com demência

78% de idosos em lares têm problemas cognitivos e 50% são dementes. Lar Pró-Outeiro é exemplo de boas práticas.

Os olhos muito vivos de Lourenço, que tem 91 anos e está ali todo aprumado, não compreendem cabalmente o que se está a passar - e só exalam compaixão. Ele está sentado e impaciente numa sala do Lar Pró-Outeiro, Oliveira de Azeméis, à espera de algo que não vai acontecer. "Mas porque é que não me dão a chave do carro para eu sair? O carro está ali, vejo-o daqui, quero ir à rua. Porque não posso passear?", diz ele muito direto, a implorar piedade.

Lourenço é demente diagnosticado com alzheimer, a forma mais comum entre as oito da demência, assim como a sua mulher, Madalena, 86 anos, com quem vive ali no lar há nove meses. Em Portugal há mais de 200 mil pessoas com demência e a maioria vive em lares; na Europa são quase oito milhões os dementes e no mundo mais de 50 milhões; a OMS estima que este número triplique até ao ano 2050.

"Sinto-me tão bem, que se passa?", torna Lourenço a pedir dó. As funcionárias explicam, tão serenas, é a quarta ou quinta vez: "Anda lá fora um vírus, sr. Lourenço, um vírus mau, mata, não se lembra? Não pode sair daqui" - e para ele, que tem a memória a degenerar, aquilo é um combate, ouve aquilo como se fosse a primeira vez.

Foi das primeiras medidas impostas aos 25 residentes no Pró-Outeiro, lar com Centro de Estimulação para Pessoas com Demência e que se destaca pelas boas práticas: a 13 de março, antes ainda da imposição do Estado de Emergência nacional, cortou todas as atividades exteriores aos idosos, protegendo-os na nova redoma interior. Ao mesmo tempo, proibiu o contacto com familiares (ainda há visitas, mas estas ficam do lado de fora dos vidros mudos) e reorganizou depois turnos para as funcionárias que começaram a dormir, revezadas, na instituição, evitando contágios do exterior. Agora também atuam todas com máscaras, luvas e equipamentos estanques de proteção.

"O balanço é muito bom", diz a diretora técnica e gerontóloga Márcia Silva, "mantemos o espírito deles positivo, sem desânimos, é boa a motivação". O lar de Azeméis, um dos 2520 de Portugal, não tem utentes com Covid-19, a doença do novo coronavírus que matou até ontem mais de 132 mil pessoas no Mundo, 599 delas em Portugal - e destas, um terço ocorreu em lares, diz a Direção-Geral de Saúde.

Os 25 utentes da IPSS Pró-Outeiro já almoçaram, um em cada mesa, afastamentos de mais de três metros, foi um arroz à valenciana silente, alguns subiram depois, sempre auxiliados, para a sesta nos seus quartos. São agora 3 da tarde, metade deles relaxam nos sofás coloridos da sala social, dois fazem puzzles com cores orientados pela psicomotricista Frederica Valente, numa parede ressaem fotos deles todos a sorrir, há duas televisões acesas a que ninguém liga, e ecoa alto música sarapintada, "O pai da criança", Tonicha, a "Malhão, malhão". E nisto agita-se Isaura Silva, 78 anos, três AVC, alzheimer profundo: ela entreviu do lado de lá do vidro, narizes colados a sorrir, a sua irmã Adelaide e a filha Conceição.

"Não abraço a minha mãe fez ontem um mês", conta Conceição, "não podemos entrar, eu sei, já chorei muito, agora já estou bem", diz ela enquanto a irmã esbraceja para o vidro, cabeça abanada, olhos dilatados, "então Isaurinha, está tão linda". Isaura sorri um sorriso lento, ele esvaece, a cabeça descai-se, esquecida, ela cola o olhar no chão. "É uma doença tão difícil.... Vemos a pessoa desaparecer para dentro dela, tem dias que não nos conhece, é muito complicado", diz Conceição a marejar. "Às vezes ela atira-nos um beijinho, hoje não", desanima-se Adelaide que promete à irmã amanhã voltar.

"78% dos idosos em lares têm defeitos cognitivos e mais de 50% são dementes", revela o psiquiatra Caldas de Almeida, que dirigiu em 2015 um estudo nos 512 lares da União das Misericórdias Portuguesas. O estudo alarma: "Os dados estão atuais, ou melhor, agravaram-se, hoje há 2,2 milhões de idosos em Portugal e essa população está a aumentar".

Alcina Peres dá o exemplo: tem 95 anos, é a mais velha ali, a sua demência é um vai e vem consciencial, hoje o espírito está todo presente, ela sorri. E conta a sua novidade ocupacional: "Agora escrevo cartas à minha neta. E ela responde-me também".

É uma nova rotina, entre outra a que já se habituou: ver o filho Manuel e a família numa videochamada - às vezes chora enquanto simultaneamente sorri, tenta abraçar sempre o telemóvel, conta a psicomotricista Frederica, que ajuda Alcina com as suas cartas. "Ainda não perdi as faculdades", diz briosa a velhinha vivaz, "é triste já não poder andar, mas tenho fé e esperança, se não tivesse, diga lá, chegava à idade que cheguei?".

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