Suécia

Afinal, quem matou Olof Palme?

Afinal, quem matou Olof Palme?

A Suécia apresenta esta quarta-feira os resultados da investigação ao assassínio do primeiro-ministro social democrata, 34 anos e muitas teorias depois.

Terá Olof Palme sido morto porque assumiu publicamente o apoio ao Congresso Nacional Africano (ANC) de Nelson Mandela? Terá sido morto porque tentou travar o tráfico de armas e petróleo ligado ao regime segregacionista do apartheid sul-africano? Terá o primeiro-ministro sueco sido morto pelos serviços secretos de Pretória? Ou terá sido morto por um sueco despeitado com a sua social democracia? É a pergunta de um milhão de euros a que o mundo espera ter resposta esta quarta-feira, dia marcado para os investigadores suecos apresentarem as conclusões a que chegaram depois de receber documentos dos serviços de informações sul-africanos.

Porque, 34 anos depois, o que o mundo sabe é que Olof Palme foi ao cinema com a mulher, Lisbeth, o filho, Marten, e a namorada deste, no frio serão de 28 de fevereiro de 1986 em Estocolmo. E que decidiu - mais uma vez - dispensar a segurança e deslocar-se de metro e a pé pela Sveavagen, a avenida mais movimentada do país. No regresso, acabou abatido pelas costas, à queima-roupa, por alguém que se esgueirou na noite. Eram 23.21 horas.

Aos 59 anos, Olof Palme era primeiro-ministro desde 1982, num segundo mandato, depois de já ter liderado a Suécia entre 1969 (altura em que assumiu a liderança do Partido Operário Social Democrata) e 1976. E ficou conhecido pelo desenvolvimento do estado social lançado pelo antecessor. Defensor dos sindicatos, da igualdade de género, do investimento na educação e na saúde universal, tem no currículo o fim dos poderes políticos da monarquia, a mediação na guerra entre o Irão e o Iraque e as críticas às intervenções dos EUA no Vietname (era igual ao nazismo, dizia) e da antiga União Soviética na ex-Checoslováquia, bem como ao segregacionismo na África do Sul, que combatia apoiando o ANC, ou ao franquismo ("assassinos", dizia ele) em Espanha.

A morte do primeiro-ministro sueco tem sido objeto das mais variadas teorias e de iniciativas de investigação avulsas, depois da displicência da Polícia na noite do crime - que nem a bala conseguiu recuperar (sê-lo-ia dias depois, por um transeunte). Uma delas parece ter sido o clique para alguma luz. O diplomata sueco Goran Björkdahl seguiu, por conta própria, a pista sul-africana e chegou ao major general Chris Thirion. Chefe dos serviços secretos militares no ocaso do apartheid, nos anos 1990, deu-lhe conta, "com pena de o dizer", das suas suspeitas quanto ao papel de Pretória na morte de Olof Palme. Outro general daqueles serviços entregou mesmo a Björkdahl os nomes dos autores do assassínio e o pedido de imunidade em troca das declarações deles.

Antes de Björkdahl, o jornalista Stieg Larsson seguira essa pista, mas morreu sem conclusões. A sua investigação seria retomada pelo escritor e diplomata Jan Stocklassa, que escreveria sobre Larsson e a tese sul-africana, sem avançar provas no sentido da sua justeza.

Ambos entregaram as investigações à Polícia sueca e esperam, como o resto do mundo, por novidades esta quarta-feira.

Que podem muito bem ir no sentido da tese do ativista de direita radical, bem mais fácil de justificar, até diplomaticamente. Até porque há um suspeito que encaixa no caso: o "Skandia man", ou "o homem dos seguros" (Skandia é uma seguradora), Stig Engström, pista investigada desde 2018. Além de trabalhar num escritório da seguradora perto do local do assassínio, é alto como o atirador, como descrito por duas dezenas de testemunhas (entre os quais o próprio), mentiu sobre o seu paradeiro naquela noite e, ouro sobre azul, teria treino de tiro e acesso a uma arma que pode corresponder à do crime, uma Magnum .357. E serve melhor o propósito de resolver um folhetim demasiado antigo do que Christer Pettersson - que já cumprira pena por um homicídio aleatório - condenado a prisão perpétua pela morte de Palme em 1989 e libertado três meses depois por manifesta falta de sustentação na condenação. Até porque o "Skandia man" suicidou-se em 2000.

"Fico nervoso de pensar que possam fazer o que já fizeram: ir pela solução mais fácil, o homicida isolado", admite Stocklassa, citado no jornal britânico "The Guardian". E Engström é o melhor dos bodes expiatórios...

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