"Mostraram-nos um dedo do pé": a busca desesperada pelo filho adolescente após tragédia na Suíça

Arthur Brodard tem 16 anos e está desaparecido
Foto: Direitos Reservados
A última mensagem que Laetitia Brodard recebeu do filho, Arthur, chegou poucos minutos depois da passagem de ano, enquanto celebrava com amigos na cidade suíça de Crans-Montana, conhecida pelas suas estâncias de esqui.
A mensagem que apareceu no seu telemóvel às 0.03 horas dizia: "Mãe, Feliz Ano Novo, amo-te". "Respondi: 'Amo-te, meu rapaz'", contou, acrescentando que às 1.28 horas "encontrou um pequeno vídeo que ele tinha enviado aos amigos, todos juntos à mesa, a celebrar".
Poucos minutos depois, foi feita a primeira chamada para os serviços de emergência a dar conta de um incêndio no Le Constellation, cuja cave, que estava repleta de pessoas, foi tomada pelas chamas. O incêndio fez pelo menos 40 mortos e 119 feridos, segundo um balanço atualizado divulgado pelas autoridades na tarde de sexta-feira.
Leia também Jovem golfista é a primeira vítima mortal identificada da tragédia na Suíça. Processo pode levar semanas
"Já passaram 40 horas. Quarenta horas desde que os nossos filhos desapareceram, por isso agora precisamos de saber", continuou a suíça de Lausanne aos jornalistas em frente a um memorial improvisado perto do bar Le Constellation. "Se os nossos rapazes estão mortos, tudo bem, mas não esperem três ou quatro dias para nos dar a notícia. E se o meu Arthur estiver num hospital, sozinho numa UCI, porque não foi registado, porque está entubado e em coma? Como é que vão saber que é Arthur Brodard?".
A mulher partilhou amplamente uma fotografia do filho de 16 anos. Um dos amigos, que estava sentado com ele, conseguiu escapar, mas sofreu queimaduras em 45% do corpo. "Está na UCI em Zurique", referiu, contendo as lágrimas.
Dias para identificar mortos
As autoridades suíças alertaram que poderia demorar dias a identificar todos os que morreram. "Fornecemos o ADN. Foi-nos pedido que fornecêssemos descrições das roupas, mas, como vimos nos vídeos mais recentes, já não há roupas", explicou. "Portanto, só temos o ADN e sabemos que o ADN demora tempo".
Leia também Portuguesa desaparecida na Suíça tem 22 anos e é de Santa Maria da Feira
Esta sexta-feira de manhã, Laetitia Brodard teve uma consulta no "centro de apoio aos pais", uma unidade de emergência criada pelas autoridades. Segundo ela, "são muito cuidadosos com as informações que dão aos pais para não nos darem falsas esperanças, o que é compreensível".
O que foi angustiante, disse, foi ser informada de manhã de que havia quatro pessoas não identificadas vivas, mas depois, numa conferência de imprensa à tarde, "o número tinha mudado: agora eram seis".
"Mostraram-nos um dedo do pé"
No meio da confusão, Laetitia Brodard está a tentar obter informações por conta própria, com a colaboração de outros pais de desaparecidos. Foi ao hospital CHUV em Lausanne porque alguém lhe disse ter visto o seu filho na UCI. Mas era uma pista falsa. "O pai do Arthur esteve em Berna ontem à noite, até às 2 horas, para examinar o polegar. Mostraram-nos um dedo do pé. Recebi uma fotografia do dedo do pé e perguntaram-me: este é o seu filho?".
Leia também "Fui lá todos os dias, quando não fui, ardeu". Jovem entra no bar em chamas à procura do irmão
Porém, Laetitia não culpa as autoridades. "Estão a fazer o que podem, dada esta situação trágica. Mas agora precisamos de saber onde estão os nossos filhos. E se tivermos de o procurar nós próprios, iremos a todos os hospitais onde nos disserem que talvez um dos nossos filhos esteja", insistiu, acrescentando estar preparada para "agarrar-se a qualquer vislumbre de esperança". "Mas não nos deixem assim durante tanto tempo. Se ele estiver na morgue, quero estar ao lado dele, e se ele estiver na UCI, é o meu dever estar ao lado dele. Não é meu dever estar aqui", rematou.
