Afeganistão

Rahimi serviu Portugal como tradutor e agora só pede ajuda para a família

Rahimi serviu Portugal como tradutor e agora só pede ajuda para a família

Khaliq Rahimi, um intérprete afegão que esteve ao serviço do Exército português durante vários anos, escreveu a um antigo militar dos Comandos para obter ajuda no resgate da família que vive "com medo" em Cabul e Kandahar, no Afeganistão.

A mensagem caiu na caixa de entrada do Messenger de Wilson Ferreira já de noite. "Olá. Como estás? Ainda trabalhas no Exército?", indagou Rahimi. "Não, saí em janeiro de 2012. Precisas de alguma coisa? ", respondeu Wilson. "Eu ouvi nas notícias que Portugal ia mandar o Exército para Cabul", escreveu o tradutor afegão, antes de ser novamente esclarecido pelo ex-comando: "Portugal só vai mandar quatro militares para apoiar a retirada [de cidadãos afegãos] ".

O grito de desespero que veio a seguir deixou o antigo militar do Exército português ainda mais comovido: "A minha família está em perigo. Agora, em Kandahar, eles [talibãs] estão a revistar as casas daqueles que trabalharam para a NATO. Eles precisam mesmo de ajuda", apelou, angustiado, Rahimi.

A família, segundo conta, vive "cheia de medo" desde que os talibãs entraram naquela província (a segunda mais populosa do país), onde moram os pais e dois irmãos, e em Cabul, onde reside um irmão mais velho com a mulher e os quatro filhos.

Por ter integrado a ISAF (sigla em inglês para Força Internacional de Assistência à Segurança, da NATO) e "devido às constantes ameaças", Khaliq fugiu há mais tempo para a Índia, onde vive atualmente refugiado. Mas a família continua no Afeganistão. "Dá-me algum contacto do Exército [português]. A minha família está em perigo", pediu novamente Rahimi a Wilson.

O intérprete afegão, que em dezembro completa 31 anos, esteve ao serviço do contingente português entre 2005 e 2008 e, após essas datas, continuou a trabalhar com o Exército nacional "prestando serviços logísticos e de aquisição". Não é de estranhar, por isso, que Rahimi tenha visto na missão portuguesa, que aterrou em Cabul na quarta-feira, a única esperança para retirar a família do país.

Por alarme e com receio de retaliações, escreveu nesse mesmo dia a Wilson, tentando informar-se e socorrendo-se dos anos em que serviu Portugal para obter apoio. Surpreendido com o pedido do tradutor, com quem ia mantendo algum contacto através das redes sociais, Wilson encarregou-se de tentar fazer a ponte com o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), mesmo estando afastado da vida militar há quase dez anos e a viver atualmente no Reino Unido. Sabendo que seria "uma corrida contra o tempo", tentou mesmo assim ajudá-lo, mas sem grandes notícias. "Não me sentia de consciência tranquila se não fizesse algo", conta, ainda assim.

PUB

Rahimi tem nos últimos dias enviado correspondência variada para os meios eletrónicos do MNE a solicitar ajuda. São, sobretudo, anexos de fotografias com o Exército português bem como certificados de apreciação ou louvores que atestam que esteve ao serviço de Portugal, além da óbvia identificação dos familiares para quem pede auxílio urgente.

Numa dessas fotos, tirada em 2005, surge ladeado pelos militares do Exército português em Cabul, altura da primeira missão dos Comandos no Afeganistão, quando Portugal perdeu o primeiro-sargento João Paulo Roma Pereira, casado e pai de uma filha menor, numa explosão que atingiu a viatura em que seguia com outros portugueses, que também ficaram feridos.

Mas é num outro e-mail que o intérprete afegão se mostra severamente preocupado com eventuais represálias: "Ontem, um comandante dos talibãs entrou na casa do meu pai à minha procura. Ele disse-lhes que eu já não morava mais lá. Eles insistiram [com ele] para me localizar e para eu me entregar", escreveu Rahimi.

A resposta ao pedido de ajuda chegou esta sexta-feira através da Direção-Geral de Política Externa, tutelada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros: "Tendo em conta que o processo de evacuação de cidadãos afegãos de Cabul se insere num esforço de cooperação internacional em que Portugal tem estado ativamente empenhado, lamentamos informar que, à luz dos desenvolvimentos recentes, a situação no terreno será reavaliada em devido tempo, a fim de serem avaliadas outras medidas que possam ser tomadas".

"Estes tradutores deram o corpo ao manifesto"

Wilson e Rahimi conheceram-se durante as três missões (de seis meses cada uma) que o português fez no Afeganistão. "Eles [intérpretes] estiveram nos mesmos sítios que nós, a dar o corpo ao manifesto, e sofreram emboscadas como nós. É certo que foram pagos, mas são humanos. Se Portugal vai receber refugiados era justo que lhes dessem prioridade ou às suas famílias", conta ao JN.

O caso de Rahimi é complexo. A prioridade da missão urgente portuguesa, que termina esta sexta-feira, foi a retirada de intérpretes ou cidadãos afegãos que colaboraram com a NATO ou com a União Europeia e ele, felizmente, já está longe. Foi obrigado a deixar a família para trás, família que estará longe do aeroporto de Cabul, único teatro da atuação dos militares portugueses destacados.

"Era muito difícil o irmão dele chegar ao aeroporto porque há muitos "check-points" que impedem que os afegãos cheguem lá", admite Wilson.

Khaliq Rahimi, o "intérprete de alto nível" que devia ser "tomado como exemplo"

Numa carta de recomendação, assinada à data pelo tenente-coronel Pedro Miguel Alves Gonçalves Soares (hoje Comandante da Brigada de Reação Rápida), certifica-se que Khaliq Rahimi "fez um trabalho notável para o contingente português, como intérprete", de 1 de setembro de 2005 a 31 de julho de 2006.

"Pontual e disciplinado, ele pautou a sua conduta por ideais de lealdade e honestidade", lê-se na missiva, que refere que o trabalho e o comprometimento de Rahimi com as suas funções "devem ser tomados como exemplo": "Este intérprete de alto nível tem servido bem este contingente português assim como o Afeganistão".

Num outro diploma, datado de 27 de fevereiro de 2007, o na altura comandante Paulo José de Sousa Teles Serra Pedro reconhece a "excelente contribuição" de Khaliq para a missão de 2 de agosto de 2006 a 27 de fevereiro de 2007.

Palavras idênticas encontram-se também num certificado de apreciação, rubricado pelo comandante David Teixeira Correia, referente a uma missão que decorreu entre agosto de 2007 e fevereiro de 2008: "A sua atuação e dedicação, aplicadas em benefício desta força, são dignas de especial consideração".

O JN contactou os ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional na quinta-feira para obter informações sobre o pedido de ajuda de Khaliq Rahimi, mas não obteve resposta.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG