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Ana é enfermeira, não usou máscara na rua e foi insultada

Ana é enfermeira, não usou máscara na rua e foi insultada

Desde o início da pandemia, o uso de máscara de proteção individual não foi consensual em Portugal. Esta segunda-feira tornou-se obrigatório nos transportes públicos e em alguns serviços e locais públicos. Ana estava na rua, a caminho do trabalho, quando foi insultada por um desconhecido. A razão? Não tinha máscara.

Foi ao início da tarde de domingo, 3 de maio, numa cidade que não quis tornar pública. Portugal estava há algumas horas fora do regime do estado de emergência, mas o estado de calamidade entrava com o mesmo rigor em funcionamento, ainda que com menos restrições. No dia seguinte, 4 de maio, a máscara de proteção ao novo coronavírus ia tornar-se obrigatória nos transportes públicos. Ana estava a caminho do trabalho. Ia apanhar um dos transportes de todos os dias. O que aconteceu a seguir, na rua, deixou-a incrédula.

"Um senhor, de certa idade, começa a chamar-me de irresponsável, de filha da p*** e a dizer que era por causa de pessoas como eu que o país estava como estava", conta ao JN. Ana não estava a usar máscara na rua. "No momento em que aconteceu nem tive tempo de reagir. Segui a minha vida porque quis fazer de conta que aquilo que ouvi não era a sério", acrescenta.

Mas há um senão irónico nesta história: Ana é enfermeira, usa máscara de proteção várias horas por dia no trabalho. Na rua, não usa máscara porque "não é obrigatório". O homem que a insultou não a reconheceu como profissional de saúde, mas a ofensa do desconhecido não deixou de a surpreender.

O medo e o "achar que o outro é inimigo" são as principais razões que a enfermeira encontra para aquela atitude. "Inicialmente demonizou-se a máscara e agora demoniza-se quem não a usa na rua apesar de não haver qualquer indicação para isso, sem ser a de utilizar nos transportes públicos, por exemplo".

O levantamento de algumas medidas de restrição em Portugal tornou obrigatório o uso de máscara em Portugal, mas nem sempre foi assim. A 22 de março, Graça Freitas, diretora-geral de Saúde, afirmava em conferência de imprensa que o uso de máscara dava uma "falsa sensação de segurança". Nessa altura, também a Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomendava a sua utilização generalizada. A 6 de abril, Tedros Ghebreyesus, diretor da OMS, admitia o alargamento do uso de máscara a países com menos condições de higiene.

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Entretanto, as recomendações alteraram-se com a evolução da pandemia de covid-19 em Portugal e no mundo. Em meados de abril, a ministra da Saúde, Marta Temido, aconselhava o uso de máscaras não cirúrgicas em espaços fechados.

Tal como Ana contou ao JN, a vigilância dos outros tornou-se uma nova realidade durante a pandemia. Além do exemplo da enfermeira portuguesa, um pouco por todo o mundo começam a surgir histórias de quem esteja atento ao comportamento de risco (ou não) dos que o rodeiam. Em Nova Iorque, nos Estados Unidos, já existem informadores que denunciam às autoridades de segurança e de saúde pública quem não cumpre as regras de distanciamento social.

Por cá, a incredulidade de Ana já lhe valeu, para já, uma boa dose de partilhas e comentários na rede social Twitter, onde decidiu contar o que aconteceu. Escusado será dizer que o conteúdo se tornou viral. "Utilizo [o Twitter] para partilhar estes pedaços da minha vida porque conheço basicamente toda a gente que por lá habita no meu perfil. Portanto quando este em específico explodiu...fiquei estupefacta pois não estava nada à espera", afirma.

Profissionais de saúde "assediados" depois de voltar de um turno

Porém, nem em todos os casos, as atitudes hostis de desconhecidos para com médicos e enfermeiros aconteceram sem o total desconhecimento da sua identidade. "Tive colegas que (...) quando foram às compras eram ofendidos por estarem a usar a prioridade, de vizinhos que os assediavam quando voltavam para casa depois de um turno", refere Ana ao JN.

Os casos de discriminação a profissionais de saúde têm sido recorrentes e vão desde a Europa aos Estados Unidos da América. Em Espanha, na cidade de Barcelona, o carro de uma médica ginecologista foi vandalizado, no mês passado. Nas portas laterais do veículo escreveram "rata contagiosa". No mesmo país, há vários casos em que vizinhos deixaram bilhetes nos prédios e pediram aos profissionais de saúde para ficarem hospedados num hotel.

A Aministia Internacional, em Portugal, já tinha deixado o aviso de que a discriminação contra enfermeiros e médicos durante o combate à covid-19 poderia alastrar, caso não se tomasse atenção ao problema. Também numa entrevista, em meados de abril, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, garantiu não ter conhecimento de episódios de discriminação, mas considerou que a testagem à covid-19 de todos os profissionais de saúde ajudaria a dissipar o medo.

Apesar de não trabalhar diretamente com doentes com covid-19, o dia-a-dia de Ana, à semelhança de todos os profissionais de saúde, sofreu uma reviravolta nos últimos meses. "Houve uma altura que chegar ao hospital era uma espécie de roleta russa, porque nunca sabíamos o que ia mudar naquele dia", conta. Na especialidade onde Ana trabalha há utentes à espera do resultado do teste ao novo coronavírus. "Dias melhores avizinham-se", conclui.

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