Covid-19

Indústria e densidade explicam mortes no Norte

Indústria e densidade explicam mortes no Norte

Com pouco mais de um terço dos habitantes do país e uma população menos envelhecida do que o Centro e o Alentejo, a Região Norte sozinha tem mais mortes e infetados com Covid-19 do que a soma do resto do país.

As principais razões são a industrialização, a densidade populacional e a estrutura familiar e etária, avançam os diretores das faculdades de Medicina do Porto, Altamiro da Costa Pereira, e do Minho, Nuno Sousa.

Explicações como a escolaridade ou a pobreza, avançadas pela TVI, não fazem sentido e não há "evidência de assimetria regional na realização de testes", diz Nuno Sousa. A lógica é: quantos mais testes feitos, maior o número de casos detetados.

Também a explicação da diretora-geral da Saúde não colhe, diz Costa Pereira. A uma pergunta do JN, Graça Freitas justificou a desproporção com o facto de, no início da pandemia, o Norte ter importado muitos casos (sobretudo empresários que viajaram em trabalho até ao norte da Itália), que originaram cadeias de transmissão descontroladas. "No início, a justificação fazia sentido, mas há semanas que deixou de fazer", afirma Costa Pereira, doutorado em Saúde Pública e coordenador do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde.

"Foi e é criminoso"

Uma das principais causas é o peso que o emprego no setor da indústria tem no Norte. Quase metade do emprego industrial está no Norte, mais do que no Centro (24%) e muito acima de Lisboa (17%) ou nas restantes regiões do país. "Uma indústria não pode funcionar em teletrabalho", diz Nuno Sousa. Ao contrário dos serviços, que empregam a larga maioria dos trabalhadores de Lisboa (muitos em organismos públicos, em teletrabalho) ou no Algarve (onde domina o turismo, um dos setores que mais usou o lay-off).

É precisamente nos concelhos mais industrializados que há mais casos de infeções e Costa Pereira é duro nas críticas à Direção-Geral da Saúde, que não adequou as suas recomendações às especificidades de cada região. "A DGS não aconselhou atempadamente os locais de trabalho em espaço fechado a proteger as pessoas com máscara. Foi e é criminoso!". O uso de proteção por quem não pode estar em teletrabalho "é óbvio", declara Nuno Sousa.

Acresce o contacto próximo com Espanha, que fez disparar as infeções em locais como Bragança.

Viver em proximidade

Em segundo lugar, os dois responsáveis por escolas de medicina somam o facto de as pessoas viverem próximas umas das outras. Ao contrário do Alentejo, homogéneo na sua baixa densidade populacional, ou da Área Metropolitana de Lisboa (com grandes concentrações populacionais), o Norte não é todo igual.

Na região vivem 168 pessoas por quilómetro quadrado. Uma média que mascara disparidades regionais: em Trás-os-Montes, há menos de 20 pessoas por km2, mas no Porto vivem mais de cinco mil e nos concelhos vizinhos há entre mil e duas mil pessoas. "A proximidade dificulta o isolamento social", recorda Nuno Sousa, que invoca ainda o envelhecimento em certas zonas da região.

Ontem soube-se que um terço das mortes ocorreu em lares. No Norte, é nos concelhos com maior taxa de cobertura por estruturas residenciais para idosos que a Covid-19 fez mais vítimas mortais.

Como justificação para a desproporção de infeções e mortes no Norte, Costa Pereira acrescenta a estrutura familiar, menos atomizada no global da Região Norte do que nas grandes cidades, incluindo a Área Metropolitana de Lisboa. "Ainda se encontram casas onde vivem três gerações". Este contacto entre as gerações tem a desvantagem de expor os mais velhos ao vírus.

2 de março

Detetados os primeiros casos positivos de infeção pelo novo coronavírus em Portugal: um médico cardiologista do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, com 60 anos, que tinha estado de férias em Itália, e que foi internado no Santo António; e um de 33 anos, residente na zona do Grande Porto, trabalhador da construção civil, que tinha estado em Espanha. Esteve no São João.

Surto em Felgueiras

Um empresário de 50 anos, dono uma fábrica de calçado em Felgueiras, que esteve em negócios na feira de Milão entre 19 e 21 de fevereiro, é tido como o foco de um surto que se espalhou pelos concelhos de Felgueiras e Lousada. A 9 de março, foram tomadas medidas de contenção extraordinárias.

59% das infeções confirmadas estão a Norte. Como diz Costa Pereira, a norte do Douro as probabilidades de apanhar o vírus são 2,5 vezes superiores à do resto do país.

57% das mortes cuja causa oficial foi a Covid-19 ocorreram na região Norte, que tem um terço da população do país.

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