
Adrian Thaws, o Tricky, parece-me de outro planeta, um lagarto, um leopardo, um alimento de sangue e ossos à boca de um pesadelo e, no entanto, apetece levar para casa. O Tricky tem ar de quem devora, mas eu acredito que é pela ameaça interior de ser devorado. Desde que apareceu com "Maxinquaye", acompanho perplexo, assustado, maravilhado.
Há dias, li a sua autobiografia e estou assombrado. Ando de fantasmas para todo o lado porque o que conta não me larga, está como vozes na minha cabeça. Há um disco novo, uma maldita digressão que não passa por Portugal, e estou a curtir tudo outra vez sem entender como o rapaz de Knowles West não virou já rei da Inglaterra para espanar do tédio uma cultura que se rendeu à mesmice. O que Adrian representa é outra coisa. Outra humanidade, no som, na fúria, na aceitação de que tudo é matéria-prima para a arte e não há já vida sem arte.
Lembro sempre do concerto no Porto em que passou mais de duas horas num transe intenso. Foi de tal modo que, no dia seguinte, cancelou a data de Lisboa. Ficara sem voz. No Porto, para quem ali esteve, não faltou nada. Nesse tempo, Adrian subia ao palco como quem se apresentava para sacrifício. A sua vida não era garantida no fim. Havia uma aposta absoluta que criava um fascínio mas também deitava um medo entre as pessoas. Afinal, parece ser um pouco o que fazem os lutadores. Sobem ao ringue com a hipótese de sucumbirem de uma vez, para sempre. Todas as batalhas podem ser a última. E havia uma batalha tremenda num concerto do Tricky. Acredito que ainda seja assim.
No livro, é insuportável que nos conte sobre sua memória mais antiga e a memória recente mais inesquecível. A vida balizada pelo mais triste e violento. Como se ele escapasse por um triz, só porque talvez seja de outro planeta, um lagarto, um leopardo. Não é só evidente que afinou a música popular contemporânea, como definiu em duas penadas a identidade dos Massive Attack, o que importa na sua voz é que está cruamente usada pela verdade. Não tem condições para a mentira.
"Marta", o disco que saiu recentemente, confirma como o rapaz complicado não quer senão ser a grata e genial sombra de uma mulher. Um habitante da maravilha que a mulher cria. Marta Zlakowska é, há anos, o planeta para onde Adrian se mudou. E, lá, acredito que seja outro animal, quase, quase feliz.
