
Há 80 anos, a pequena Anne Frank escreveu no seu Diário: "Coisas terríveis acontecem lá fora: pessoas estão a ser arrastadas das suas casas. Famílias estão a ser separadas. Homens, mulheres e crianças, separados. Crianças voltam da escola para casa e os seus pais desapareceram". Para a Geração Boom, a Segunda Guerra foi uma realidade dos dois lados do Atlântico. Portugal foi poupado, mas albergou refugiados e hospedou espiões, ouviu relatos aterradores e permitiu que milhares de judeus pudessem escapar ao horror nazi.
Os americanos entraram tarde na guerra, mas foi graças a eles que as Forças Aliadas venceram, derrubando um ditador fascista que era um louco a viver numa realidade paralela. A Geração X cresceu a ler Anne Frank e a sair de uma ditadura. Por causa de Salazar, pouco se soube da Guerra Civil Espanhola, apesar da proximidade geográfica. Precisámos de ler Hemingway para nos apercebermos das atrocidades de um conflito brutal e sanguinário. Salazar sabia que era fundamental manter o povo ignorante para fazer vingar a sua ordem moral e política que se confundiam na famosa tríade Deus, Pátria e Família, acima de tudo e de todos. O Antigo Regime acabou por implodir, a Revolução dos Cravos vingou e Portugal mudou. Depois de um período de uma conturbada viragem à esquerda que podia ter-nos levado a outra ditadura, desta vez comunista, o país acertou o passo no caminho de um Estado Democrático.
Passaram 50 anos. As novas gerações em Portugal já cresceram em democracia e em liberdade. Foram poupados à Guerra do Ultramar. Aprenderam história contemporânea nos livros da escola. As imagens dos cadáveres amontoados em carroças apareceram em todos os manuais. O "Diário de Anne Frank" foi passando de geração em geração. Cadeias televisivas fizeram centenas de documentários, a indústria cinematográfica é profícua em filmes sobre o tema. A literatura ainda hoje produz romances sobre a Segunda Guerra e as suas atrocidades.
E, no entanto, parece que o Mundo se esqueceu.
Como é que em menos de 100 anos o Ocidente esquece uma lição que julgávamos inesquecível, a ponto de o Mundo demorar a reconhecer no presidente americano um déspota louco e descontrolado, afinal tão parecido com Hitler? A mente de Trump é tão perversa e perturbada que quer começar uma guerra por não lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Paz. O presidente da potência que foi, desde a fundação da NATO, o parceiro e aliado mais forte da Europa, está fora de si, também ele vive numa realidade paralela. Por causa da sua loucura, maldade e demência que não é mais do que um alucinante transtorno narcísico, a paz mundial está comprometida. E como chegou lá? Cultivando a desinformação, a mentira, o ressentimento e o ódio.
A Europa não levou a sério este monstro. Por cá, todo o cuidado é pouco perante quem atua da mesma forma, criando fake news, semeando o ódio e a descrença nas instituições, sem se coibir de usar o mesmo slogan de Salazar. Não podemos decidir pelo Mundo, mas podemos escolher o que queremos para Portugal.
