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Miguel Guedes

PAN (mas para que lado)?

Os debates televisivos entre os líderes dos partidos com assento parlamentar estão a ser um doce aperitivo para a tranquilidade de uma eleição com vencedor antecipado. Resta saber por que números se traduzirá a vitória do PS e, decorrentemente, como estará a saúde da democracia portuguesa nos próximos quatro anos: truncada por uma maioria autocrata ou saudável pela necessidade de convergências. Em todos os debates, nenhum dos partidos se atreveu a plantar minas no terreno ou a estourar foguetório por antecipação. O PS é o maior amigo da contenção e parcimónia, o BE não acelera porque o vento sopra a favor e dá velocidade, o PCP tenta conter danos emergentes que têm raízes fundas, o PSD prefere manter uma pose de Estado sorumbática enquanto assiste à derrocada pela incapacidade de Rui Rio iluminar um golpe de asa, o CDS finge que está tudo bem com aquele sorriso condescendente de família conservadora que prefere um táxi confortável do que um transporte sério para o debate público. Então e o que faz o PAN? Procura sobreviver à informação que nos vai dando sobre a sua inconsistência.

Miguel Guedes

Queenjacking

Quando, há mais de 10 anos, Manuela Ferreira Leite sugeria que se deveria suspender a democracia para fazer todas as reformas necessárias, estava longe de pensar que 23 dias apenas pudessem fazer tanta diferença. "Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia", questionava a então líder do PSD, defendendo a necessidade de reformar a Justiça no contexto político da tomada de posse do Governo de José Sócrates. Vilipendiada por todos os quadrantes políticos e atacada dentro do próprio partido, a ex-ministra das Finanças poderia ser agora o farol de cristal que Boris Johnson precisa erguer para antever o futuro no pós-31 de Outubro. Desejo de clarificação que arde em câmara comum por todos os britânicos. O Reino Unido pergunta-se, por estes dias, como é possível que um dos maiores ataques à democracia representativa possa decorrer à luz do respeito pelas regras e preceitos constitucionais.

Miguel Guedes

Abastecer até às eleições

Não haveria notícia que o Governo mais gostasse de receber do que a manutenção da greve dos motoristas de transportes de matérias perigosas até o mais perto possível das eleições de Outubro. Cada semana conta. Se o PS se aproximar da maioria absoluta, é porque conseguiu colocar a greve em brasas lentas e os motoristas a ferro e fogo, dando-lhes combustível para que se possam manter grevistas por tempo indeterminado, sem que façam mossa ou grande incómodo, sem que tenham relevância ou surtam qualquer efeito. Em todos os cenários, esta greve é uma "win-win situation" para o PS e um absurdo interminável para os grevistas e para o país. Pardal Henriques consegue, ainda sem partido, entregar nas mãos de Costa a coligação que nenhuma "geringonça" alguma vez quis, foi capaz ou sonhou. E António Costa conseguiu, habilmente, impedir que os motoristas possam pôr um fim à greve, saindo dela de cara lavada.

Miguel Guedes

"Deram-lhe o Nobel porquê?"

A pergunta que Trump coloca a Nadia Murad, refugiada yazidi e Prémio Nobel da Paz em 2018, aquando da sua visita à Casa Branca, diz mais sobre a atenção que o presidente norte-americano dedica aos assuntos internacionais humanitários do que sobre a sua inóspita e habitual falta de tacto. Habituado a cuspir palavras, os últimos dias de Trump têm feito salivar os mais abjectos racistas e xenófobos, colocando a opinião pública dos EUA num patamar de extremismo e radicalização que dificilmente deixará de ser transportado como nota maior para as próximas eleições presidenciais em 2020.

Miguel Guedes

O sabonete de Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa veste hoje a pose de um agregador antinaufrágio nem que, para isso, tenha de esconder da Direita todos os seus barcos salva-vidas. O regresso do presidente ao comentário político aconteceu na Fundação Luso-Americana e em inglês, circuito convenientemente fechado para que tudo fosse amplificado como se de um segredo se tratasse. Marcelo vintage. Concebeu uma comunicação ao país, enviou um recado à Direita, preparou a justificação para a sua reeleição e matou saudades da TVI com um pleno das televisões em prime-time. Tudo demasiado grave e exótico para ser verdade.

Miguel Guedes

Fazer a diferença

A primeira escolha para as eleições do próximo domingo passa também por perceber a incomodidade num sofá gasto. Haverá quem prefira sentar-se entre palavras cruzadas numa falsa ideia de bem-estar, permitindo que se elejam os mesmos carrascos para a Europa de sempre, premiando os responsáveis pela Europa que nos trouxe até aqui. A Europa em penitência. Assimétrica, desregulada, autómata e autofágica, a saque pelos piores instintos predadores da especulação e da xenofobia, moeda sem cara nem face, entretanto de muros e muralhas. Sem clima, sem alternativas, sem trabalho, sem segurança, protecção ou futuro. Mesmo assim, ainda um passo atrás do declínio do império americano. Convém estimá-la.

Miguel Guedes

A quem nos quer tratar da saúde

A 26 de Abril, cravos já cansados na sua relativa liberdade, contas de subtrair: são 5 os anos que separam as comemorações dos 40 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) das comemorações dos 45 anos da Revolução de Abril. Agora, as contas são feitas para dividir: são também 5 os anos que nos podem separar do fim do SNS. A nova Lei de Bases da Saúde, a ser debatida e votada ainda nesta legislatura, é a peça fulcral da visão e do que queremos para o país nas próximas décadas. A escolha far-se-á entre dotar a saúde de todos os meios que assegurem condições de tratamentos e cuidados universais e para todos ou, ao invés, esvaziar progressivamente o SNS de meios e recursos, entregando-o aos privados através de parcerias público-privadas (PPP) na gestão dos hospitais.