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Miguel Guedes

Da pedra à lápide

A tragédia de Borba é mais uma página inquietante na relação de confiança que qualquer cidadão assume com o Estado. Estes laços de afinidade colectivos e individuais não podem ser anexados num atilho de servilismo ou, em sentido paralelo, como se o Estado fosse o grande guarda-chuva que nos abriga de todos os climas e males. Mas ainda há mínimos. E o mínimo que se exige do Estado, seja quem for que transitoriamente esteja ao volante, é que não deixe que a sua incúria destrua a ideia de que é segura a terra que pisamos com os pés. Que não é campo minado, que não rebenta, abate ou explode com o tempo ou com a indiferença. O abatimento na antiga EN255 que liga Borba e Vila Viçosa, numa parcela contígua a duas pedreiras, nada deve ao inesperado. A tragédia anunciava-se breve. Já havia quem visse um troço de estrada fina em formato agulha, pendurada por pinças em pouca terra. Nem os avisos serviram de alicerces.

Miguel Guedes

O grande líder moral

O grande líder moral dos EUA - palavras do próprio - proibiu o acesso à Casa Branca a Jim Acosta, correspondente da CNN, depois de o insultar rispidamente do alto do seu púlpito. Horas depois de fortes acusações de dedo em riste, Trump proíbe o acesso à sede da presidência norte-americana ao jornalista, apontando-o como "inimigo do povo". Enquanto canta vitória nas eleições intercalares tendo perdido a Câmara dos Representantes para os Democratas, o grande líder moral acusa a CNN de fazedora de fake news.

Miguel Guedes

Identificar fascistas

Tinha os inimigos identificados ao escrever a frase-panfleto na guitarra. "Esta máquina mata fascistas", o seu instrumento passava a balear a seis cordas em 1941. Após o auge da Grande Depressão nos anos 30, devastadora, Woody Guthrie já romantizara brilhantemente os proscritos do sistema como aqueles heróis épicos e mundanos, maiores do que a vida, migrantes, lutadores-poesia com armas de formiga a construir os seus castelos pelo bem comum. Agora, a guitarra apontava aos nazis. E era fácil identificá-los porque os fascistas nunca se souberam esconder. Cerca de oito décadas depois, o tempo que passa já relativiza o passado recente e o fascismo recrudesce em muitos dos países que o germinaram. A memória só precisa de um pequeno lapso de tempo para se esquecer de tudo. Por muito que não chegue para lhes destruir o carácter, é urgente chamá-los pelo nome. Antes como agora, fascistas são objectos políticos bem identificados. Não podemos ser cúmplices.