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Miguel Guedes

A coerência é dos brutos

Olhar para quem olha e comenta o hipotético crime de Ronaldo é exercício cruel e assustador para quem preza um fio de coerência. Entrando a frio, a única constância de opinião sente-se nos grunhos, aqueles que acham que a mulher que entra num quarto é para se deitar ao tapete, ao serviço do refastelado e belo prazer do macho. Esses, executam o seu movimento favorito, não saem de cima. Porque é mesmo assim e é para o que é, desempenho e eficácia, e é para o que algumas servem, e só não são todas porque se safa a mãezinha. Esses são os coerentes, por muito que custe. Umas bestas.

Miguel Guedes

Cuecas, ganga e mocassins

A insubstituível riqueza das redes sociais e da informação ao minuto é um presente, até no tempo verbal. E sem qualquer "delay". Para poucos minutos depois, dista apenas uma questão de segundos. Acção, reacção. A velocidade a que o país dos costumes se vestiu de ultraje pelo uso das calças de ganga e mocassins por António Costa aquando da visita oficial a Angola, explica-se facilmente pelo vício do politicamente correcto e pela urgência da crítica com pressa, sem curar do novelo, atenta às pontas. E assim vamos nas franjas, com mais ou menos nervo, sem os nervos em franja porque desatamos a descarregar em escárnio, gozamos pelo girar do prato e logo partimos para outra. Hoje, tudo é viral para um grupo de pessoas que se lê e ouve entre si, uma espécie de clube público de amigos de corte e costura. Mas não passa disso, somos muitos de nós em circuito fechado. No fim da história, Costa apenas usou calças de ganga e mocassins porque foi apanhado desprevenido. Cerimónia para o que te quero quando os serviços de protocolo não fazem o seu trabalho, antecipando as solenes alas militares. A formalidade foi-se, e foi-se assim, mal informada.

Miguel Guedes

A nada Serena Williams

Use o nome próprio ou de família, há algo que Serena Williams conseguiu com a destreza de um match-point com pinta de ás: fazer da raquete um boomerang. Para si, para o ténis e seus árbitros, para a portugalidade, para a cor das raças e para o peso do género, para as associações de trincheira, para os cartoonistas. Nada sereno. Ao perder vários jogos e após diferentes avisos, a atitude de raiva incontida da jogadora não pode encontrar explicação no eventual machismo ou racismo do árbitro português Carlos Ramos. As regras e sua eventual aplicação discricionária podem debater-se lá dentro ou a bater bolas cá fora. Mas a inflexibilidade do juiz é só uma aparência conveniente quando, ao discutir uma falta, se levantam juízos. Convenhamos que a regra para apanhar racistas e sexistas não se esgota num ponto.

Miguel Guedes

Transporte para a realidade

Quando a falta de vergonha ameaçava ganhar contornos históricos com a anunciada nomeação de Vítor Pataco para a liderança do IPDJ pela mão "socialista-apparatchik" do secretário de Estado João Paulo Rebelo, eis que o início do fim do esplendor da realidade alternativa pode ter começado. Depois do notável exercício de contorcionismo em que a direcção do Benfica se envolveu, negando a existência ou veracidade de toneladas de mails que se cruzam entre si, contradizendo a existência de claques que nunca abdicaram de se apoiar no seu clube durante anos a fio sem cumprir as exigências da Lei, chega o momento em que a Justiça não estende ao clube a última bandeja de salvação: retirar o Benfica da equação para que deixasse cair Paulo Gonçalves, fingindo que não era o assessor jurídico da SAD e o braço-direito de Luís Filipe Vieira (que, de resto, representava incontáveis vezes nas mais altas instâncias do futebol nacional e internacional). A valorização e defesa que o Benfica sempre fez do seu braço-direito não permite a desvalorização do membro. Para o futuro, resta a dúvida: para quantos mais magistrados judiciais pedirá o Benfica a destituição, até que caia na real sem alternativa?

Miguel Guedes

Geringonça é para quem pode

Na campanha para as eleições autárquicas de 2017, Santana Lopes assegurava, a alto e bom som, o quanto estava na moda bater no PSD. Menos de um ano depois, prefere fragmentá-lo em pedaços, batendo bolas por fora depois de malhar contra o muro interno, mas sem arrastar (ainda) alguns dos seus principais batedores. Enquanto a recolha de assinaturas para a constituição da "Aliança" decorre a bom ritmo, não há nomes sonantes do PSD que prefiram correr na pista individual de Santana, fora do trilho de sempre. Talvez porque seja unânime a percepção de que a "Aliança" é tão-só a concretização do projecto pessoal de um homem viciado em eleições, incapaz de abdicar do teste de aceitação popular que o seu partido já não lhe proporcionará. No momento em que Rui Rio é a última esperança do PSD para purgar o partido da lógica dos interesses que a deriva neoliberal de Pedro Passos Coelho petrificou, convém a muitos adversários internos de Rio que alguém navegue à vista, impedindo aquilo que mesmo uma vitória do PS nas próximas legislativas não impedirá face à aproximação de Rui Rio a António Costa: o regresso do PSD aos arredores da sua matriz social-democrata para ressuscitar, mais cedo do que tarde, o bloco central.

Miguel Guedes

Rescisões com justa causa

"Wake up", gritavam a pulmões de oxigénio os Arcade Fire no seu disco de antecâmara hiperbárica, "Funeral". Eram metros a fundo. A partir desse momento, milhares como eu a respirar em golpadas de ar sôfrego, juvenil mas sem borbulhas, a certeza de que até aguentávamos perder muito se pudéssemos lutar para ganhar de volta tudo a que temos direito. Impossíveis, nenhuns. E nenhuma bíblia néon nos retirou da chama. Éramos do grupo daqueles que tinham visto e não só ouvido falar. Deambulámos pelos subúrbios. Éramos do bando do concerto de 2005 em Paredes de Coura. Não era um simples apontamento de vida. Fomos a versão em grupo de Jon Landau a assegurar que tínhamos visto o futuro do "rock and roll", um futuro sem patrão, desta vez. E jurávamos a pés juntos que seria assim para sempre. Tínhamos boas razões para acreditar. "Something filled up/ My heart with nothing". À sombra de um concerto irrepreensível e com corações a explodir junto às grades, foi sob o signo de uma desinteressante bola de espelhos, anónima e funcional, que assinei - 13 anos depois - a minha rescisão com justa causa com os Arcade Fire. A redenção chegou, pouco antes, numa monstruosa sessão espírita dos Big Thief. Adrianne Lenker, a espetar facas no coração, respiração subtil e com a rudeza de um abre-latas. O poder sibilante das sílabas e a descarga emocional. Vemo-nos daqui a 13 anos?

Miguel Guedes

Sozinhos em casa

A retórica dos fogos ganhou este ano um novo apontamento vigoroso, o supremo valor da propriedade face à protecção da vida humana. É inquestionável que a defesa das casas, bens e haveres é obrigação de todos e, naturalmente, incumbência maior de todas as forças no terreno. Não se pode, de resto, ignorar ou diminuir o conhecimento de pessoas, anónimas, que saberão acrescentar algo mais ao plano estrutural de combate aos fogos e à organização dos meios no terreno. Se tempo houvesse. Terá havido excessos. Mas independentemente do desastre de Pedrógão e da falta de confiança dos cidadãos na capacidade do Estado, é espantoso ver tantas pessoas a valorizar mais a vida humana em feto (contra a interrupção voluntária da gravidez) ou a vida desumana em sofrimento atroz (contra a eutanásia), do que a vida de quem teima, por natural desespero, em ficar sozinha em casa a defender a sua propriedade para, possivelmente, nela morrer. A falta de confiança neste Estado não o extingue pelo fogo.