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Miguel Guedes

A Coreia é a sua praia

A realização da cimeira em Singapura foi a verdadeira cedência de Donald Trump a Kim Jong-un. Foram-se avolumando, nas últimas semanas, sinais de que o presidente norte-americano não estaria pelos ajustes do encontro. Percebe-se agora a relevância e seriedade do plano de fuga: não há nada acordado neste acordo. Brindemos, então, à teoria do copo meio cheio ou meio vazio. Pessimistas dirão que todos os passos foram dados para o lado e a caminho de uma fotografia; optimistas dirão que foi o primeiro de muitos passos em frente com a meta à vista. Tudo em família, ambos tinham a ganhar. Trump ergue-se como o homem da paz e Kim como o homem do seu regime. Mútuo e historicamente legitimados e sem tiros, certificados a papel de boneco.

Miguel Guedes

Miss Mundo Portugal no mapa

A substituição do globo terrestre pelas sucessivas versões da PlayStation não explica tudo. Segundo as provas de aferição de História e Geografia do 2.º Ciclo realizadas por cerca de 90 000 alunos, 45% deles não conseguem localizar Portugal continental a sudoeste no continente europeu. Ou seja, crianças com uma média etária de 11 anos deverão saber com muito mais justeza a combinação vitoriosa (*ver nota) que permite reproduzir o imortal drible de Cruyff no FIFA 18 do que a posição relativa dos continentes no mapa Mundo. Quando a matéria se joga com os PES e não com a cabeça, não há concorrência que seja leal. Os planos curriculares exigem demasiado às crianças do 1.º Ciclo mas não cuidam de acautelar a interpretação da sua posição relativa no Mundo. À força de insistirem nas fracções, alguns nunca viram um Mundo por inteiro.

Miguel Guedes

Assembleia da Fantasia

Nuno Melo, ironicamente, imaginou-se no Pavilhão da Fantasia da Disney-Paris enquanto assistia ao Congresso do PS mas o jogo do faz-de-conta rapidamente migrou para a Assembleia da República-Lisboa. Por alucinação democrática, por cinco votos de consciência, continuaremos país a viver no reino da Fantasia, fingindo que nada existe, que a realidade não é o que é e que não acontece no dia-a-dia dos hospitais, que a vontade inabalável que resulta do sofrimento atroz é liberdade e escolha individual que não deve ser respeitada.

Miguel Guedes

A liberdade está pela hora da morte

No próximo dia 29 de Maio, o direito à vida discute-se na Assembleia da República à boleia do direito à morte assistida. Quando os quatro projectos de lei do PAN, BE, PS e PEV estiverem em debate, impende sobre os deputados eleitos com a liberdade do voto, o juízo de devolver essa mesma liberdade de escolha à vida de cada um de nós. Um livro de Kant em cada bancada na próxima terça-feira, imperativo categórico: o dever de todos agirmos de acordo com os princípios que consideramos benéficos caso fossem seguidos por todos. Nenhum deputado vai decidir sobre o que de mais íntimo possuímos na hora de escolhermos o fim, querendo. Até agora, essa liberdade de opção não existe, tendo em conta que a eutanásia é punível como crime e com pena de prisão até 3 anos. Vamos assim, grades meias e cerco completo, convocados à morte pelo destino, suicídio ou clandestinidade do fim. O destino pode ser cruel e, por vezes, ninguém o merece. A eutanásia não se impõe mas impõe-se que seja uma escolha.

Miguel Guedes

Quando a herança é um massacre

Continuamos a assistir a um Portugal marialva que não se rende. Encontramo-lo à volta da arena em pose estéril e rija, a toque de corneta a que atribuem significado olímpico, ensaiando salamaleques à conta da história e da tradição dos avós de linhagem. Lamentavelmente, isto não é do povo nem das elites. As touradas são um espectáculo abominável que foi sucessivamente extinto em todos os países do Mundo à excepção dos oito países que restam. Portugal é um deles.

Miguel Guedes

Gente feliz com lágrimas

A festa colectiva que transbordou para as ruas do país foi a fogo do dragão, voadora, um quê de mítica, bem maior do que um título. Mais do que um clube, o sentimento que se lia nos olhos das gentes era o da vitória a ferros, a dos justos. Não há justiça no futebol, garantem os resultadistas; é "algo maior que o poder", assegura Malraux; a justiça tarda em chegar, lamentam os pouco optimistas; não há justiça se ela não se fizer no tempo, garanto-vos. E o tempo deste título, largos dias têm 40 anos, foi um enorme tributo a José Maria Pedroto. Rendição.

Miguel Guedes

Cara de Pinho

A expectativa sobre o silêncio de Manuel Pinho em sede de comissão de inquérito parlamentar é enorme e faz ruído. Com o anunciado voto favorável do PS e PCP e a anuência do CDS, a proposta do BE para a criação desta comissão é mesmo a melhor forma de ninguém fintar a verdade ou de fugir com a renda à seringa. Se é verdade que foi Rui Rio o primeiro a defender a audição parlamentar a Manuel Pinho, é a proposta do BE que - no âmbito mais alargado das rendas do sector energético - permitirá colocar na agenda política muito mais do que um ex-ministro aos soluços. Este pode ser um processo onde o PS entre em catarse e é, indiscutivelmente, uma boa notícia que o PS aceite essa convocatória para o divã.

Miguel Guedes

Sócrates, o criminoso nato

A exposição da debilidade humana é uma revelação de falência da sociedade democrática. Quando sujeito à pressão e ao escrutínio dos interrogatórios da Operação Marquês, José Sócrates comporta-se como qualquer acossado. Gesticula, verborreia, atira-se às grades com distinção animal, defende e ataca, dissimula e voa entre figuras de estilo e acto dramático. Nada de provinciano transmontano assoma ou de fausto parisiense brilha. Não há qualquer justificação ou interesse público em ver um animal político dar luta senão para edificar a convicção no julgamento público da sua culpa. Sabe-se agora que ninguém está a salvo de ver a sua liberdade devassada com videoinquéritos judiciais sem consentimento informado. Não há razão plausível que me convença de que quem defende esta invasão da justiça pelo dente-por-dente não se mova, sobretudo, pela sede canina de soltar o seu olho-por-olho em rasgo individual de carrasco.