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Miguel Guedes

A paz, segundo Marcelo

Espanta-me a facilidade com que algumas pessoas ainda se espantam. E esta perplexidade cresce com o espanto que tantos mostram pela vacuidade dos discursos oficiais de Ano Novo. Parece mesmo um milagre a entrar pelo natal da porta dos fundos mas não duvidem: a plácida expectativa de alguns relativamente às alocuções políticas de fim de ano é a prova científica e material de que ainda há seres humanos crentes. Esqueçam as igrejas. É nos sofás adventistas dos últimos dias que gente adulta espera pela reaparição da boa nova no discurso de fim de ano de Marcelo Rebelo de Sousa, simulando serem capazes de nele lerem o horóscopo político para 2020. É inquietante e mágico em simultâneo. Mas tomem boa nota: se é incompreensível em 2019, será absolutamente inaceitável repetir o espanto em 2020. Já seria santa ingenuidade.

Miguel Guedes

Uma banca de emoções

Não têm sido tempos fáceis para o sector da banca. Depois dos escândalos financeiros que levaram à nacionalização do BPN, à falência do BPP, à insolvência/recapitalização/venda do Banif, à intervenção do Estado na CGD e à resolução do BES, a comoção dos depositantes e accionistas não tem parado de crescer ao ritmo das falências, perdas, empréstimos e descapitalizações. Sistema financeiro, Banco de Portugal, regulador, comissões de inquérito, todo um novelo de especulação, falta de rigor, crime, favorecimento e compadrio.

Miguel Guedes

PAN (mas para que lado)?

Os debates televisivos entre os líderes dos partidos com assento parlamentar estão a ser um doce aperitivo para a tranquilidade de uma eleição com vencedor antecipado. Resta saber por que números se traduzirá a vitória do PS e, decorrentemente, como estará a saúde da democracia portuguesa nos próximos quatro anos: truncada por uma maioria autocrata ou saudável pela necessidade de convergências. Em todos os debates, nenhum dos partidos se atreveu a plantar minas no terreno ou a estourar foguetório por antecipação. O PS é o maior amigo da contenção e parcimónia, o BE não acelera porque o vento sopra a favor e dá velocidade, o PCP tenta conter danos emergentes que têm raízes fundas, o PSD prefere manter uma pose de Estado sorumbática enquanto assiste à derrocada pela incapacidade de Rui Rio iluminar um golpe de asa, o CDS finge que está tudo bem com aquele sorriso condescendente de família conservadora que prefere um táxi confortável do que um transporte sério para o debate público. Então e o que faz o PAN? Procura sobreviver à informação que nos vai dando sobre a sua inconsistência.

Miguel Guedes

Queenjacking

Quando, há mais de 10 anos, Manuela Ferreira Leite sugeria que se deveria suspender a democracia para fazer todas as reformas necessárias, estava longe de pensar que 23 dias apenas pudessem fazer tanta diferença. "Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia", questionava a então líder do PSD, defendendo a necessidade de reformar a Justiça no contexto político da tomada de posse do Governo de José Sócrates. Vilipendiada por todos os quadrantes políticos e atacada dentro do próprio partido, a ex-ministra das Finanças poderia ser agora o farol de cristal que Boris Johnson precisa erguer para antever o futuro no pós-31 de Outubro. Desejo de clarificação que arde em câmara comum por todos os britânicos. O Reino Unido pergunta-se, por estes dias, como é possível que um dos maiores ataques à democracia representativa possa decorrer à luz do respeito pelas regras e preceitos constitucionais.

Miguel Guedes

Abastecer até às eleições

Não haveria notícia que o Governo mais gostasse de receber do que a manutenção da greve dos motoristas de transportes de matérias perigosas até o mais perto possível das eleições de Outubro. Cada semana conta. Se o PS se aproximar da maioria absoluta, é porque conseguiu colocar a greve em brasas lentas e os motoristas a ferro e fogo, dando-lhes combustível para que se possam manter grevistas por tempo indeterminado, sem que façam mossa ou grande incómodo, sem que tenham relevância ou surtam qualquer efeito. Em todos os cenários, esta greve é uma "win-win situation" para o PS e um absurdo interminável para os grevistas e para o país. Pardal Henriques consegue, ainda sem partido, entregar nas mãos de Costa a coligação que nenhuma "geringonça" alguma vez quis, foi capaz ou sonhou. E António Costa conseguiu, habilmente, impedir que os motoristas possam pôr um fim à greve, saindo dela de cara lavada.