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Miguel Guedes

Confinamento de vilões

Os melhores momentos vivem de um "timing" perfeito. Sem o tempo certo, assomam as oportunidades perdidas, acontecimentos espantosos que se precipitam, incapazes de encontrar a hora, para a infelicidade de aparecerem nas piores alturas. Qualquer reaparecimento público de Cavaco Silva ou de Durão Barroso é um acontecimento equiparável à permanência de crédito malparado: convoca sempre um ajuste de contas com o passado. Esta semana, ambos reapareceram publicamente para gáudio de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa. Os momentos felizes existem.

Miguel Guedes

A riqueza em Rabo de Peixe

O espalhanço populista de Rui Rio na entrevista à TVI deixou bem claro que um candidato a "rei da integridade" pode passar, num ápice e por vontade própria, a "mestre do contorcionismo". Rio decepciona mesmo os seus indefectíveis, aqueles que sempre o abençoaram pela ilusão de verticalidade que proporcionava. "Não quero chegar a primeiro-ministro de qualquer maneira", afirma sem pestanejar. Talvez tenha escolhido a pior maneira para que nunca o possa vir a ser.

Miguel Guedes

Ver o PSD morrer

Nenhum democrata, independentemente do quadrante político, pode olhar com indiferença para o caminho que o PSD, partido basilar da Direita democrática, decidiu trilhar. Mais ainda: ninguém, por mais longe que esteja politicamente do PSD, pode conceber que este partido tenha resolvido romper a cerca sanitária com o fascismo, a xenofobia, o racismo ou a misoginia. Pior ainda: é difícil acreditar que isto - isto que efectivamente está a acontecer - seja verdade. Que pelas mãos de Rui Rio, aquele que dizia querer recentrar o partido ou equacionar um novo bloco central, o PSD entre num processo de autofagia, deixando milhares de sociais-democratas órfãos, gente que jamais aceitará que o oportunismo de uma liderança à deriva corroa os princípios basilares da sua decência, dos pilares fundamentais da democracia e do seu humanismo. Há países europeus onde o centro-direita resiste (há décadas!) a alianças com uma extrema-direita que vale quase 20%. Em Portugal, para o PSD de Rui Rio, bastou um deputado, uns meses e umas sondagens.

Miguel Guedes

Uma questão qualquer

O marxismo cultural é lixado. "Por uma questão qualquer de angariação de fundos", André Ventura (AV) reduz a detenção de Steven Bannon, guru norte-americano da extrema-direita à escala global, a uma perseguição miúda e desprezível. "Por uma questão qualquer", é uma minudência ter sido acusado do desvio de milhões de dólares da iniciativa de recolha de fundos para a construção do muro na fronteira entre os EUA e o México, alimentando as suas redes políticas extremistas, a sua vida pessoal de luxos e a de outros comparsas de crime e castigo.

Miguel Guedes

A corte na lama

Dois anos depois, o PSD volta a abrir os braços a André Ventura (AV). Não deixa de ser curioso que dois líderes sociais-democratas, consecutivamente, sejam os maiores responsáveis pela normalização irresponsável de um projecto político pessoal absolutamente demagógico, maniqueísta, mentiroso e populista, tantas vezes racista, odioso e xenófobo. É perturbador que a única coisa que parece aproximar Passos Coelho de Rui Rio seja esta tendência conjunta para normalizar protofascistas num ápice.