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Miguel Guedes

Asfaltar a CP

Há muitos anos que espero ver a CP a apanhar o comboio. Nesse dia que há-de trilhar caminho, picaremos bilhete num país com uma política de transportes que invista na ferrovia como força nuclear da inclusão geográfica das suas gentes, assumindo redes de circulação integradas. Os Comboios de Portugal coram de vergonha perante a degradação e o desinvestimento, a anos-luz da filigrana das redes de transportes urbanos. Com ou sem demissões no Conselho de Administração, continuaremos a ser testemunhas a ver andar a carruagem, viajantes "wagon-lit" sem romantismo, dormentes pela interminável e dolorosa viagem. A perplexidade com que assistimos à degradação da CP e da qualidade do serviço que presta aos seus clientes atingiu máximos históricos neste verão de 2018. Mas não é indignação de primeira viagem. A deterioração, sentida há uma década de ferrugem, é visível a olho nu. Há limites. Mesmo para os indefectíveis de um "Trabant" a rolar em estradas albanesas.

Miguel Guedes

A salivar por Robles

Ricardo Robles demorou pouco mais de 48 horas a fazer o que tinha que ser feito e demitiu-se. Apesar de não ter cometido nenhuma ilegalidade, as contradições entre o discurso e a prática eram demasiado evidentes, obviamente insanáveis com a agenda política do BE e com o seu próprio discurso político pessoal. Boa parte da Direita portuguesa, não habituada a tamanha vertigem de moralidade nas decisões, deve ter duvidado do fuso horário de Lisboa. O desvario persecutório e revanchista do CDS e de parte do PSD foi ao rubro pelo passo em falso do vereador Robles.

Miguel Guedes

Olha uma última vez para o lugar que estás a deixar

O acto de saída é um momento como nenhum outro. Não significa a despedida de algo ou que a sua presença se retire de nós. Estamos muito longe de um qualquer abandono. Na despedida por vontade, somos nós a bater à retirada de algo que, ainda assim, sentimos como hipótese de transportar para sempre. A forma como se olha uma última vez para o lugar que estamos a deixar, não definirá o estado emocional que temos presente pela saída mas determina, certamente, a forma como o vamos carregar no futuro. Ainda que o queiramos esquecer à força, obrigar ao fim que merece, um tudo magoado ou um tanto de partido. Fechar os olhos não chega.

Miguel Guedes

Racismo e um parque pop

A história fúnebre da Europa, perto de se repetir aos nossos olhos. No momento em que alguns comemoram o mal menor na Alemanha que permite - fruto do acordo entre a chanceler alemã e o seu ministro do Interior - sustentar Ângela Merkel no poder, Portugal conta a quem passa a ladainha mentirosa de que não é um país racista. Quando muito, diferenciador. Tão diverso como o que se mostrou ser na agressão bárbara a uma jovem colombiana por um fiscal da STCP na noite de S. João no Porto. O estigma reside nessa diferença de pormenor que permite fechar os olhos a três campos de internamento ao ar livre para refugiados, autorizados por Merkel à força de querer evitar uma crise política interna que podia arrastar a Alemanha para onde rasteja parte da Europa. Eis a barbárie da radicalização que se vive pela ascensão ao poder da extrema-direita. Pela fraqueza das soluções de todo o espectro político, a Europa rende-se à réplica dos piores momentos da história do século XX e vamos todos fingindo que é uma atitude isolada de um fiscal numa viagem. Fragilidade, temor e vergonha.

Miguel Guedes

À consideração da beleza do futebol português

A mudança de chip que a selecção portuguesa insinuava ser capaz de operar ainda não se materializou. Decorrida a fase de qualificação e após uma bem sólida exibição no particular contra a Bélgica, a sensação era a de que tínhamos um meio-campo capaz de desatar o nó, sepultando a monotonia artística que nos coroou campeões da Europa, sem que com esse upgrade perdêssemos consistência defensiva, solidez e espírito operário. Pela qualidade dos nossos jogadores, julgava-se por antecipação que continuaríamos a fazer das nossas fraquezas força mas algo mais: esta equipa podia não ir tão longe como em 2016 mas jogaria diferente, para melhor, e poderia ser bem sucedida. Com outro brilho, nota artística, outra beleza. Apesar do melhor jogo colectivo contra o Irão, a sensação que abala é a de que dificilmente melhoraremos o tanto que precisamos para os jogos a eliminar. Talvez porque ainda hesitemos, achando que somos capazes de mudar o chip em tempo recorde. A beleza não tem idade mas tem o seu tempo. E já a seguir vem o Uruguai, uma equipa sem "eyeliner".

Miguel Guedes

Sobre a decência humana

O muro entre o México e os EUA existe e assume a forma de jaulas para cerca de 2000 crianças. Campos de concentração para crianças que aguardam sozinhas desde Maio, aparentemente entre os 4 e 10 anos, propositadamente separadas dos pais por terrorismo de Estado. E não sabíamos. Ou então não fomos suficientemente alertados pelos avisos semelhantes que todos os dias se colariam aos nossos olhos se realmente quiséssemos ver. Mas o prazo da revolta passa-nos em vertigem até uma tragédia maior que suceda. Temos uma data limite para a indignação e está visto que não abdicamos dela.

Miguel Guedes

A Coreia é a sua praia

A realização da cimeira em Singapura foi a verdadeira cedência de Donald Trump a Kim Jong-un. Foram-se avolumando, nas últimas semanas, sinais de que o presidente norte-americano não estaria pelos ajustes do encontro. Percebe-se agora a relevância e seriedade do plano de fuga: não há nada acordado neste acordo. Brindemos, então, à teoria do copo meio cheio ou meio vazio. Pessimistas dirão que todos os passos foram dados para o lado e a caminho de uma fotografia; optimistas dirão que foi o primeiro de muitos passos em frente com a meta à vista. Tudo em família, ambos tinham a ganhar. Trump ergue-se como o homem da paz e Kim como o homem do seu regime. Mútuo e historicamente legitimados e sem tiros, certificados a papel de boneco.

Miguel Guedes

Miss Mundo Portugal no mapa

A substituição do globo terrestre pelas sucessivas versões da PlayStation não explica tudo. Segundo as provas de aferição de História e Geografia do 2.º Ciclo realizadas por cerca de 90 000 alunos, 45% deles não conseguem localizar Portugal continental a sudoeste no continente europeu. Ou seja, crianças com uma média etária de 11 anos deverão saber com muito mais justeza a combinação vitoriosa (*ver nota) que permite reproduzir o imortal drible de Cruyff no FIFA 18 do que a posição relativa dos continentes no mapa Mundo. Quando a matéria se joga com os PES e não com a cabeça, não há concorrência que seja leal. Os planos curriculares exigem demasiado às crianças do 1.º Ciclo mas não cuidam de acautelar a interpretação da sua posição relativa no Mundo. À força de insistirem nas fracções, alguns nunca viram um Mundo por inteiro.