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Miguel Guedes

A agenda tem agenda

Razões ponderáveis para a defesa da dignidade no trabalho estão em discussão e debate alargado, em sede de especialidade parlamentar, sem que se evite o habitual bloqueio central pelos interesses. O ilusionismo está no nome ("Agenda para o trabalho digno") e não há magia que saque um coelho da cartola, número após número. É de irrelevância que falamos, quando se discute uma dignidade no trabalho que se compagina com a admissão da renúncia, pelo trabalhador, aos direitos que dizem respeito aos seus créditos sobre salários/subsídios ou trabalho suplementar no fim do contrato, a manutenção da caducidade da contratação colectiva ou a presunção de aceitação do despedimento com o recebimento de indemnização. É perante velhos truques que estamos. Nem coelho da cartola, nem golpe de magia, apenas o golpe de asa de abutre.

Miguel Guedes

Palco a Francisco

A parcimónia veste muitos sinais e materializa-se em diversas formas. Uma delas, na dimensão do exemplo. Se é verdade que poucos acordarão a pensar na assincronia entre a pobreza no Mundo e a riqueza do Vaticano, já muitos não adormecerão sem um segundo pensamento sobre as notícias que dão conta do preço (mais de 5 milhões de euros) de um palco-altar para a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, onde o Papa Francisco celebrará a missa final. Um transtorno para os crentes, um absurdo para o Estado laico, um negócio como os outros para empreendedores, mas um disparate económico para todos. Não está em causa quanto custa, nem se o que custa vai para além do essencial. O que está em causa no custo do palco ultrapassa em muito o acessório: funda-se no absurdo.

Miguel Guedes

Reentrar com o pé direito

A vitória frente ao Vitória revelou uma outra face do FC Porto desta época nos jogos fora de casa. Mais impositivo e controlador, sentiu-se um "tónus" diferente em relação à pasmaceira exibida frente ao Casa Pia, no Jamor. O regresso de Pepe foi acompanhado pela titularidade de Eustáquio, que traz mais capacidade de construção e chegada à área contrária do que Grujic (embora o sérvio tenha provado que pode ser opção). Nas laterais, com Wendell e João Mário afastados das dúvidas que adensaram no início da temporada, o destaque cai no pé direito do português que, depois de um tempo para pensar e ver de fora, regressa mais consistente do ponto de vista defensivo, com as habituais assistências e um grande golo.

Miguel Guedes

Como comprometer um jogo

É incompreensível a estranha apatia que se abateu sobre o F. C. Porto no Jamor. Para uma equipa que se tinha recolocado, há oito dias, no frémito da luta, a primeira parte frente ao Casa Pia foi um manual de instruções sobre como comprometer um jogo. Com respeito excessivo pelo adversário e pelo andar da carruagem, o F. C. Porto olhava para o relógio como um amigo que só obrigava a cumprir serviços mínimos. Quando a expulsão de Lucas Soares acontece, perto do intervalo, o jogo fica amestrado para apenas uma zona de impacto, a grande área do Casa Pia. Pode dizer-se que se usou da paciência, que nunca se subverteram os princípios e que houve a típica falta de sorte dos empates a zero. Certo é que o F. C. Porto nunca demonstrou confiança e alegria para colocar mais vertigem no jogo ou, pelo menos, velocidade bastante. Criou apenas uma mão cheia de oportunidades quando estava obrigado a mais. Desfez-se, depois, pela perda de dois pontos e pelo esvaziamento de um "élan" de retoma.

Miguel Guedes

Pela saúde da escola pública

No momento em que a escola pública é alvo dos maiores ataques, pela ganância e cobiça de quem desvaloriza o seu valor fundador como semente de democracia, igualdade e progresso, é impossível não estabelecer paralelismos com os ataques ao SNS e à dificuldade que tem havido em racionalizar e garantir a progressão na carreira dos seus profissionais, em número e qualidade, valores maiores e garante de uma resposta capaz, de confiança e certezas. É a saúde da educação pública que está em causa, numa luta que promete fazer parar o país antes que ele se perca em actividades extracurriculares à História fora de aulas. Nunca a escola pública correu tantos perigos, nunca teve tantos algozes capacitados, ao virar da esquina do Parlamento, para a enfraquecer e destruir.

Miguel Guedes

Regressar para dobrar

Regressar com uma goleada, após uma longa e inusitada paragem, é um passaporte de confiança para a manutenção dos processos adquiridos. Se a Taça da Liga teve o condão de manter os índices competitivos acima dos mínimos, não há prova de algodão igual ao regresso do campeonato. Regressar com uma goleada a um Dragão pleno e cheio, a rebentar pelas costuras, foi uma prenda colectiva a distribuir por cada um. Dobra-se o ano e renovam-se as ilusões, nomeadamente aquela que assegura tudo ser possível.

Miguel Guedes

O ciclo reprodutivo da pobreza

As mais recentes estatísticas avançadas pela Direcção-Geral do Ensino Superior revelam um problema grave que se intuía pela percepção, mas que ganha agora visibilidade e confirmação em números preocupantes. Entre os cerca de 50 mil estudantes que este ano entraram no concurso de acesso, poucos são os que se enquadram no 1.º escalão do abono de família (medida que procura dar uma resposta imediata às famílias mais carenciadas). No último ano lectivo, apenas 1422 alunos neste patamar de pobreza entraram em universidades e politécnicos, ou seja, menos de 3% do universo de estudantes que ingressaram pela primeira vez no Ensino Superior. O teste diagnóstico ao "elevador social" não passa do rés-do-chão: há um problema grave de exclusão dos mais pobres do Ensino Superior que eterniza o ciclo reprodutivo da pobreza.

Miguel Guedes

O fim da justiça divina

A despenalização da morte medicamente assistida já viveu, sem morrer, três vezes. Com maiores ou menores dúvidas do presidente da República ou rejeições do Tribunal Constitucional, a obstinação terapêutica de alguns quadrantes políticos em querer impor um referendo em matéria de direitos fundamentais tem forçado artificialmente o adiamento da solução que urge e que, agora apurada à filigrana, não pode continuar a ser arma de arremesso político e de esquecimento selectivo.

Miguel Guedes

China: do milagre à doença

A alucinação colectiva que se apodera da análise sobre o que está longe ou sobre o que nos aparece como diferenciado, resultado do choque de culturas, é o refém primogénito dos nossos medos, dúvidas e angústias, reflexo das dúbias intenções e da incompreensão histórica, envolto em premissas e preconceito sobre os desígnios e costumes dos outros. A visão do Ocidente sobre os protestos contra as políticas "covid-zero" na China é um manancial de teorias da conspiração que demonstra a facilidade com que se diaboliza um país de 1,4 biliões de habitantes que conseguiu evitar, a ferro e pulso, números catastróficos na evolução da pandemia. Comparar as 5000 mortes por covid na China com os números nos EUA (1 milhão) e no Brasil (700 mil) não é um bom argumento para quem considera que as políticas de um país que conseguiu retirar mais de 700 milhões de chineses da pobreza extrema nas últimas quatro décadas (cerca de 80% das pessoas que saíram da pobreza extrema no Mundo, nesse período) está, agora, a procurar exterminar os seus cidadãos mais velhos (150 milhões de idosos) para controlo da taxa de natalidade, equilíbrio das contas públicas e bem da economia.

Miguel Guedes

Jogámos quase nada mas, enfim, esqueçamos isto

O pontapé de saída para o Mundial nunca será dado num jogo inaugural, por menos bafienta que a cerimónia de abertura se revele ao Mundo. Muito mais no Catar, onde todo um espectáculo foi sendo traçado a amnésia e a tentativa de hipnose entre civilizações. Bem pode pregar Morgan Freeman mas a voz do divino só se consegue mesmo ouvir ao primeiro "sing-along" do hino, imagem colectiva de apoteose antes do árbitro apitar para o capital início de jogo.

Miguel Guedes

A CRP no bloco operatório do CH

Está já comprometida a cirurgia do processo de revisão constitucional a desenvolver em 2023. O processo ocorre dentro do bloco operatório da extrema-direita, balão de ensaio para convergências, com o bisturi a fazer parte da proposta que, sendo apresentada pelo Chega (CH) em Outubro, acabou abraçada pelos socialistas que não ignoram o desejo de Ventura de que esta seja uma primeira porta de confluências com o PSD de Montenegro. E a prova material do crime está bem estampada à comparação: o projecto de revisão constitucional do PSD está mais próximo do projecto do CH do que, por exemplo, do da IL.

Miguel Guedes

Começar de novo

O processo identitário de um povo assume passados, fruto da História, e deve ser capaz de resistir a alguns presentes, tantas vezes envenenados, evitando a desgraça ao espelho e construindo futuro. O futuro do Brasil é incerto, mas dificilmente será pior do que o passado recente destes últimos quatro anos que provocaram uma espécie de lobotomia evangélica a uma pequena parte, ainda assim, dos 58 milhões de votantes em Jair Bolsonaro. Em causa não está a opção legítima e democrática de votar no futuro ex-presidente não reeleito do Brasil. Em causa, está o negacionismo eleitoral, a loucura indómita pelas "fake news" e o apelo à intervenção militar, nas ruas e nas redes sociais, algo que nem Bolsonaro foi capaz de fazer no pós-eleições, curtas são as rédeas do seu poder. Apesar de ter criado um monstro, Bolsonaro sabe que agora só o pode alimentar com os restos da sua democracia.

Miguel Guedes

Recomeçar sem erros

Começar a semana com o apuramento para a Champions, após uma goleada em Bruges, indiciava uma equipa centrada nos seus objectivos e surpreendentemente apurada à 5.ª jornada, pronta para discutir o 1.º lugar do grupo. Parecia ultrapassada a derrota no Dragão com o Benfica, trauma hipotético com consequências na confiança da equipa. Nenhum portista saiu do clássico convencido da superioridade do adversário ou com a ideia de que as contas haviam sido encerradas. Se a montra de personalidade ficou bem patente na Bélgica, o F. C. Porto resolveu investigar a ruína na competição de regularidade da Liga, objectivo maior, compreensivelmente sem fôlego nem folga física mas, sobretudo, a jogar para o relógio que fazia adivinhar um percalço. Após um golo madrugador, é difícil compreender como a equipa resolveu colocar doses de amaciador no jogo.

Miguel Guedes

Exit no Brexit

O pior pesadelo para os conservadores britânicos teve um rosto por 45 dias e, tendo terminado, não fez acordar o partido numa manhã gloriosa que passe a contar outra história. O oásis não chegou à política do Reino Unido "(What"s the Story), Morning Glory", nem tão-pouco elegeu sucessor que o instale. A demissão de Liz Truss, inevitabilidade num Governo com a primeira-ministra mais irresponsável e impreparada de que há memória, foi o último acto de um percurso meteórico de seis semanas que não só incendiou e reduziu a cinzas a economia britânica, como tratou de dar o dito por não dito sobre quase tudo o que afirmou, prometeu e quis concretizar.