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Pedro Ivo Carvalho

Não imitemos os macacos

Não veja o mal, não fale do mal, não ouça o mal. Faça como os três macacos sábios. Tape os olhos, cerre os lábios e cubra os ouvidos. Enfie a cabeça num buraco fundo e, até outubro, descubra as vantagens de viver num país em que os atores políticos cumprem escrupulosamente a lei e comunicam com o povo numa língua chamada silêncio. É mais ou menos esta a mensagem associada à "fatwa" da Comissão Nacional de Eleições (CNE) relativa às normas que regulam a propaganda eleitoral na pré-campanha e que atinge, de forma indiscriminada, todo o político que mexa. Uma interpretação tão extensiva da lei que tolhe qualquer tentativa de ação pública. Seja ou não de base propagandística. Pior: que é arbitrária ao ponto de não distinguir a natureza dos atos eleitorais, que mistura publicidade institucional com gestão corrente. Que trata eleitores e eleitos com uma arrogância e um paternalismo próprios de uma democracia do Terceiro Mundo.

Pedro Ivo Carvalho

Lavar a roupa, passar a ferro

É impossível não concordarmos quando nos garantem que as mulheres são o futuro. E são-no não por mero imperativo estatístico (são mais, logo terão maior expressão demográfica e peso social), mas sobretudo porque no passado foram infelizmente menos do que deveriam. E por menos não se entenda em menor quantidade. Menos porque sistematicamente subestimadas no seu legítimo fervor de emancipação e igualdade. O empoderamento feminino, tantas e tantas vezes reduzido com desdém a uma moda primavera-verão nas redes sociais, tem a urgência que agora um estudo inédito da Fundação Francisco Manuel dos Santos coloca a nu.

Pedro Ivo Carvalho

O paciente inglês

Mais de dois anos volvidos do referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia é relativamente seguro concluir que os ingleses geriram o processo com a ponderação de um esquizofrénico e a dedicação de um obsessivo-compulsivo. A tal ponto que, em vésperas de o divórcio se tornar efetivo, ensaiaram uma derradeira tentativa de delegar em Bruxelas o peso da responsabilidade do monumental falhanço britânico. O que, convenhamos, é de uma perversão e cinismo assinaláveis, porque assenta na lógica de que se a intransigência europeia se mantém inalterável (como deve ser) se torna admissível vender ao eleitorado que o caos que se seguirá a uma saída sem acordo poderá ser imputado aos 27 parceiros. Tese que só assiste os ignaros. Que parte do não é que não perceberam? Recuemos. Em 2016, Londres disse ao Mundo o que queria: sair da União Europeia. Depois, avisou o Mundo que estava com dúvidas (na verdade, foi percebendo de forma dolorosa a trapalhada em que se tinha metido). Num ato desesperado, o Mundo viu então a primeira-ministra Theresa May tentar, sem efeito, que o Parlamento aprovasse o acordo que alcançara com Bruxelas. Correu-lhe mal. Mas May tem mais vidas do que um gato e, uma vez chumbado o plano inicial, convenceu uma maioria parlamentar a votar um plano diferente do que tinha acertado, na esperança de que Bruxelas aceite uma solução que ela sabe que vai ser rejeitada. É como tentar enganar a sombra.

Pedro Ivo Carvalho

#silêncio

Já que não há bom senso. Já que não há respeito institucional. Já que não há vergonha em falar com o coração na boca. Já que não há limites. Já que não há fronteiras. Já que não há bons nem maus, e apenas os nossos contra o Mundo. Já que não há dias entediantes bafejados pela retemperadora normalidade. Já que não se cultiva o hábito da pausa higiénica de dez segundos em que respiramos fundo antes de dizermos um disparate. Já que neste Portugal bipolar em que os movimentos de insurreição social parecem cardumes atordoados onde as palavras assumem a função do combustível numa fogueira alta. Já que o pasto nutritivo das redes sociais cega multidões, sobretudo no futebol e na política. Já que não sobram, pelo menos à vista desarmada, bastiões públicos de integridade e sobriedade. Já que a vontade que nos impele é de desligarmos a ficha. Já que o futuro vai ser garantidamente pior. Já que o saco encheu, será que podemos finalmente pedir um pouco de silêncio? A ninguém em particular. A todos em geral.