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Pedro Ivo Carvalho

Polícia bom, polícia mau

A estabilidade do regime tem dependido, em larga medida, da elasticidade que resulta das tensões e compensações entre o presidente da República e o primeiro-ministro. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa têm demonstrado uma invejável argúcia para se ampararem um no outro. Mesmo quando tropeçam um no outro. O contexto pandémico, que coincidiu com a etapa final do primeiro mandato em Belém, reforçou essa cumplicidade interessada, mas o sentido único da solidariedade institucional pode ter os dias contados. Porque o presidente parece ter mudado no que sempre foi.

Pedro Ivo Carvalho

Eutanásia à prova de bala

Se há coisa que Marcelo Rebelo de Sousa sabe fazer muito bem é sustentar juridicamente as suas posições de princípio. A fundamentação que alicerça o pedido de fiscalização preventiva da morte medicamente assistida que o presidente da República enviou ao Tribunal Constitucional é de uma inteligência argumentativa e objetividade assinaláveis, porque cumpre a missão essencial deste expediente sem se deixar contaminar pelas convicções pessoais (e políticas) do cidadão Marcelo, católico confesso e conhecido opositor desta prática clínica.

Pedro Ivo Carvalho

A liberdade não é isto

Quando somos sujeitos de forma penosa às mesmas rotinas, qualquer alternativa, por mais excêntrica que seja, tem um efeito de regeneração. É libertador mudar quando nos forçam a repetir tudo durante demasiado tempo. Não admira, por isso, que, por esse Mundo fora, comecem a ganhar lastro mediático os movimentos de negacionistas da pandemia, gente que se insurge contra a realidade sem querer perceber nada do que está a acontecer. Gente capaz de juntar factos, mas que prefere camuflá-los numa capa de insurreição.

Pedro Ivo Carvalho

Os imigrantes dão lucro

Figuram entre os argumentos mais falaciosos na narrativa de quem vê nos imigrantes que escolhem Portugal para viver ou trabalhar empecilhos naturais ao desenvolvimento do país: sorvem recursos, "roubam" empregos aos nativos e contribuem de forma insuficiente para a causa comum. Só que, afinal, os imigrantes dão lucro. E não é pouco. De acordo com o mais recente relatório do Observatório das Migrações, em 2019 atingiu-se um valor recorde nas contribuições dos estrangeiros para a Segurança Social: 884 milhões de euros. O saldo é claramente positivo, na medida em que "só" beneficiaram de 111 milhões de euros de apoios do Estado. Mas há outra lição a tirar: os portugueses são dos europeus mais tolerantes para com os forasteiros.

Pedro Ivo Carvalho

O lado B do Chega

Não estava escrito nas estrelas, mas era mais ou menos óbvio que a Direita iria pôr em marcha um plano político de poder simétrico ao da geringonça de Esquerda. A questão era saber com quem, com que urgência e com que filtros civilizacionais. Os Açores transformaram-se no tubo de ensaio para um casamento de conveniência que, por obra e graça do PSD de Rui Rio, conseguiu alcandorar à condição de cola institucional da governação regional um partido que defende a castração química dos pedófilos, a prisão perpétua, o reforço das fronteiras e o fim dos serviços públicos de saúde e educação.

Pedro Ivo Carvalho

Apertem os cintos

Às segundas, quartas e sextas a TAP é um ativo estratégico para o país, às terças, quintas e sábados é uma companhia aérea que só pode sobreviver à boleia do aeroporto de Lisboa. Enquanto o tilintar da fatura se agiganta nos nossos ouvidos (só passaram três meses e já contamos 1700 milhões de euros de potenciais encargos públicos até ao final de 2021), o Governo vai brincando ao polícia bom e ao polícia mau, deixando transparecer uma aflitiva ausência de estratégia. Para o ministro Pedro Nuno Santos, as quatro rotas criadas recentemente no aeroporto do Porto (Amesterdão, Milão, Zurique e Ponta Delgada) são "um prejuízo para a TAP". Mas para o primeiro-ministro "a TAP não pode ser uma companhia de Lisboa, tem de ser uma companhia do país". A verdade, porém, é que a empresa de aviação que estamos a tentar resgatar do coma já deixou de ser um fator de coesão nacional para se transformar ninguém sabe bem em quê.