Pedro Ivo Carvalho

#asvirgens

A frase caiu como uma bomba: "Agora toda a gente se preocupa, como um bando de virgens ofendidas, - desculpem a expressão, mas eu sou do Alto Minho, uma terra onde não há virgens". A conferência de imprensa da deputada do PSD Emília Cerqueira era sobre palavras-passe comunitárias, mas rapidamente descambou para a ausência, inteiramente por comprovar, do estado floral das mulheres que vivem acima de Braga. De dedo em riste, olhos fogosos e uma expressão facial que, a espaços, chegou a ser intimidante para quem, em casa, assistia àquela dissertação sobre as veleidades da informática, a vianense garantiu ao país que demorou três anos a perceber que, ao entrar no computador de um colega com a palavra-passe deste, estava, na verdade, a assinar o ponto por esse colega. Algo em que, mesmo para as virgens que ainda possam resistir no Alto Minho, é difícil de acreditar. Mas também não se pode exigir aos deputados que saibam tudo. Dominar leis é uma coisa, controlar ambientes de trabalho do Windows é outra. Aposto que a password era "nãohávirgensnoParlamento".

Pedro Ivo Carvalho

Uma startup da decência

Já sei o que vão dizer-me: não comparemos o incomparável. Pois eu não consigo deixar de comparar, porque o país é o mesmo. E as prioridades políticas são o que nos definem como nação. Por isso, vou comparar. De que nos serve projetar Portugal, de forma tão alegremente pomposa, no mundo das novas tecnologias se continuamos a ser incapazes de encontrar uma solução urgente que impeça que crianças com cancro continuem a ser tratadas em contentores provisórios e impróprios? De que nos serve gastar 110 milhões de euros de dinheiros públicos para garantir a Web Summit até 2028 se não temos a capacidade de aplicar o mesmo grau de compromisso na construção de um espaço físico definitivo (que custa um quinto desse valor) para acolher famílias e menores da Região Norte numa nova ala pediátrica do Hospital de S. João?

Pedro Ivo Carvalho

Dizer adeus na margem

No deve-haver dos debates do Orçamento do Estado, há um clássico intemporal. Que reza assim: os partidos do Governo garantem que o documento é à prova de bala, sacia os apetites mais básicos dos cidadãos e promove a justiça social e o crescimento; já a Oposição esconjura-o como se fosse a materialização económica do princípio do fim dos tempos, mesmo que, se estivesse no lugar daqueles que julga, carreasse algum do desdém em benefício de medidas similares. Mas por ser um clássico não o torna menos interessante.

Pedro Ivo Carvalho

Os súbditos do reino

A realpolitik não se compadece com estados de alma. As lágrimas de grande parte dos líderes do Mundo são de crocodilos ancestrais. Conhecemos as suas manhas. Os truques. E, no entanto, os exercícios mediáticos de encenação abundam no teatro de operações diplomáticas. Ora para mitigar os danos junto da opinião pública doméstica, ora para projetar, fora de portas, uma aura maquilhada em linha com os interesses externos. Os quais, invariavelmente, andam de mãos dadas com os interesses económicos. Realpolitik.

Pedro Ivo Carvalho

O Fisco não tem alma

Há duas coisas que os portugueses podem ter como certas: que vão morrer e que, enquanto isso não acontece, terão algum encontro desagradável com o Fisco. A máquina coletora é o mais competente braço armado da Administração Pública. E quando isso acontece num país como Portugal, em que a cobrança de impostos se transformou numa resposta cultural dos governos à ausência de estratégias de longo prazo, há caminho aberto para os chamados expedientes criativos.