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Pedro Ivo Carvalho

Um sapo em forma de avião

Por mais que nos agitem a bandeira do patriotismo e do interesse estratégico, o Estado só entrará verdadeiramente na aventura da nacionalização da TAP se não tiver outro remédio. Porque aos números da empresa, que já eram historicamente negros antes da pandemia, se somaram 395 milhões de euros de prejuízo no primeiro trimestre do ano (apesar de um janeiro e fevereiro razoáveis) e porque se espera que no segundo trimestre o descalabro seja ainda maior. De resto, o mais provável é que a transportadora aérea acabe 2020 com prejuízos que se aproximem ou suplantem os 1200 milhões de euros estimados para um salvamento musculado. Em suma: seja qual for a arquitetura do negócio, o Estado prepara-se para engolir um sapo em forma de avião a jato por ter sobre a cabeça uma espada afiada manejada por uma mão escorregadia. E porque nenhum privado está disposto a correr o risco num contexto económico de tão grande incerteza. À TAP, como a outras companhias aéreas obrigadas a ficar em terra durante meses, só resta o amparo público para sobreviver e evitar que a sua falência arraste largos milhares de almas para o abismo.

Pedro Ivo Carvalho

O Estado que vamos herdar

O retrato publicado há dias neste jornal sobre o número de portugueses que dependem do Estado para viver é ao mesmo tempo assustador e reconfortante. Assustador porque, se a cifra já era expressiva antes da pandemia (cerca de 5,6 milhões de pessoas), evoluímos entretanto para patamares invulgares: sete milhões de cidadãos contam agora com algum apoio público para se manterem à tona. Mesmo considerando que possa haver duplicação de prestações sociais, falamos de dois terços da população. É esmagador. Mas estes números acabam também por nos trazer algum conforto, na medida em que, apesar da nossa pequenez geográfica e fragilidade económica (a que devemos somar a teia burocrática que agrilhoa tantos serviços públicos), ainda fomos capazes desta proeza. Na gigante Espanha, estima-se que durante a pandemia "só" 40% dos cidadãos estejam a ser apoiados.