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Pedro Ivo Carvalho

A escola não faz milagres

1. No título que encima este texto podíamos trocar escola por fábrica, escritório, supermercado ou por outro lugar do nosso quotidiano. As escolas operam milagres na formação dos indivíduos, mas não esperemos que se transformem em territórios imunes à pandemia por obra e graça divina. Porque isso não existe. E talvez esse seja o maior equívoco do debate público dos últimos dias. O de pensarmos que, por não haver garantias de que tudo vai correr bem no regresso às aulas, o mais provável é que tudo corra mal. Ora, a realidade tem demonstrado com apreciável clareza que a gestão do risco não se coaduna com maniqueísmos. Mário Nogueira tem sido um dos principais instigadores do medo. Mais parece que, para o líder da Fenprof, o retomar da atividade letiva é um filme de terror onde só coabitam, nas mesmas salas contaminadas, professores de risco que não podem dar aulas e o malfadado vírus. A verdade é que as crianças querem regressar, os pais concordam, as escolas prepararam-se da melhor maneira possível, tal como a esmagadora maioria dos professores, e isso é que devemos ressalvar. Não se espere que a comunidade educativa faça milagres se depois o resto do país não cumprir a sua parte. O esforço nunca deixou de ser coletivo. Nas escolas, nas fábricas, nos supermercados. Em casa. Continuamos todos a aprender.

Pedro Ivo Carvalho

Não esquecer os esquecidos

De pouco nos vale o contentamento de termos salvo o Serviço Nacional de Saúde (SNS) de si próprio, a expensas de uma pandemia que tirou o chão a todas as convenções e protocolos, se não tivermos aprendido uma lição fundamental: o país não pode esquecer-se novamente dos doentes que ficaram esquecidos. Dos largos milhares de portugueses não atingidos pela covid mas privados de consultas, tratamentos, cirurgias, internamentos, carentes de um simples aconselhamento médico, em demasiados casos órfãos de uma mísera prova de vida do outro lado do telefone.

Pedro Ivo Carvalho

A grandeza de Iker Casillas

Quando Iker Casillas aterrou no Porto, em 2015, todos sabíamos quem ele era. Aos 34 anos, carregava nas luvas um vastíssimo currículo de títulos e de prestações desportivas ao mais alto nível. Ainda assim, alguma imprensa espanhola caricaturou a escolha do galático. Vinha para se reformar, tinha desistido de ser ambicioso, estava acabado. Iker devolveu as atoardas com trabalho e tornou-se num cidadão do Porto, do Norte, do país que o acolheu de forma calorosa. E continuou a ganhar.

Pedro Ivo Carvalho

O BES teve um filho bastardo

Em tempos, houve um banco mau abandonado pelo Estado que segurou as elites predadoras do regime. Agora, há um banco bom apoiado pelo Estado que promove negócios sinuosos pagos pelos contribuintes e beneficia investidores que não se sabe quem são. O Novo Banco é um filho bastardo do BES. Apanhou-lhe os vícios despesistas, herdou dele os mais inventivos esquemas de transformação de ativos comuns em fortunas privadas. Só é bom a conseguir ser mau.

Pedro Ivo Carvalho

Um sapo em forma de avião

Por mais que nos agitem a bandeira do patriotismo e do interesse estratégico, o Estado só entrará verdadeiramente na aventura da nacionalização da TAP se não tiver outro remédio. Porque aos números da empresa, que já eram historicamente negros antes da pandemia, se somaram 395 milhões de euros de prejuízo no primeiro trimestre do ano (apesar de um janeiro e fevereiro razoáveis) e porque se espera que no segundo trimestre o descalabro seja ainda maior. De resto, o mais provável é que a transportadora aérea acabe 2020 com prejuízos que se aproximem ou suplantem os 1200 milhões de euros estimados para um salvamento musculado. Em suma: seja qual for a arquitetura do negócio, o Estado prepara-se para engolir um sapo em forma de avião a jato por ter sobre a cabeça uma espada afiada manejada por uma mão escorregadia. E porque nenhum privado está disposto a correr o risco num contexto económico de tão grande incerteza. À TAP, como a outras companhias aéreas obrigadas a ficar em terra durante meses, só resta o amparo público para sobreviver e evitar que a sua falência arraste largos milhares de almas para o abismo.

Pedro Ivo Carvalho

O Estado que vamos herdar

O retrato publicado há dias neste jornal sobre o número de portugueses que dependem do Estado para viver é ao mesmo tempo assustador e reconfortante. Assustador porque, se a cifra já era expressiva antes da pandemia (cerca de 5,6 milhões de pessoas), evoluímos entretanto para patamares invulgares: sete milhões de cidadãos contam agora com algum apoio público para se manterem à tona. Mesmo considerando que possa haver duplicação de prestações sociais, falamos de dois terços da população. É esmagador. Mas estes números acabam também por nos trazer algum conforto, na medida em que, apesar da nossa pequenez geográfica e fragilidade económica (a que devemos somar a teia burocrática que agrilhoa tantos serviços públicos), ainda fomos capazes desta proeza. Na gigante Espanha, estima-se que durante a pandemia "só" 40% dos cidadãos estejam a ser apoiados.