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Pedro Ivo Carvalho

Ser português não é crime, mas é pecado

Primeiro, rejubilámos. Depois, enfartámo-nos. E agora regurgitamos. A comoção nacional em torno do altar-palco e do volumoso orçamento da Jornada Mundial da Juventude é apenas mais um gomo na sumarenta história de falhanços, distrações e irresponsabilidades de um país que faz tudo às três pancadas, que não planeia, não antecipa, de um país que, no fundo, é demasiado pequeno para depositarmos nele uma fé sem reservas. Seria apenas ingénuo pensarmos que não haveria custos elevadíssimos associados a um evento que vai reunir, em Lisboa, todo o mundo católico. E seria apenas tonto acreditarmos que, malgrado a frugalidade do Papa Francisco, o Vaticano aceitaria colocá-lo num palco (físico e metafórico) que não fosse condizente com a condição de um chefe de Estado que também é um líder espiritual e religioso. Em particular nesta fase, de profunda renovação interna da Igreja Católica e de intensa procura por um sentido junto das jovens gerações desencantadas.

Pedro Ivo Carvalho

Normalizar ao pontapé

A bem-sucedida operação de marketing global em que se transformou o Mundial de Futebol no Catar parece ser apenas a confirmação de uma estratégia de normalização cultural das monarquias absolutistas árabes, que estão a usar o mais popular desporto do planeta como arma de sedução. Os ingleses deram-lhe o pomposo nome de "sportswashing". Ou seja, lavar a imagem do regime à conta do desporto. As acusações de corrupção, gastos faraónicos e flagrante desrespeito pelos direitos humanos e laborais marcaram a prova, mas não a definirão no futuro. Nos livros de História ficarão fundamentalmente as imagens de Messi a levantar o troféu ao lado do emir do Catar, envergando um traje árabe. De resto, a badalada mudança de Cristiano Ronaldo para o futebol da Arábia Saudita por valores obscenos é mais um capítulo desse bem urdido expediente que mascara a realidade com golos. Agora, ao que parece, soam as campainhas por Messi, a quem estarão a ser prometidos ainda mais camiões de dinheiro para aterrar num futebol a que, na verdade, ninguém liga nenhuma.

Pedro Ivo Carvalho

O Brasil não pode distrair-se

Ainda é cedo para tirarmos lições definitivas sobre o ataque primitivo ao coração da democracia brasileira, mas podemos, com algum grau de fiabilidade, acolher uma certeza: a insurreição dos movimentos antidemocráticos, respaldada no sectarismo bolsonarista, não irá esmorecer. Mesmo que o grito de alerta resultante deste assalto aos Três Poderes possa, de alguma forma, unir a nação em torno dos valores fundamentais ou, pelo menos, em torno da rejeição de práticas extremistas. Mesmo que a condenação, em uníssono, dos principais representantes do Estado brasileiro tenha sido acompanhada pelo repúdio do Mundo civilizado. A cultura de purga que alimentou aquele "punhado de imbecis criminosos", como apropriadamente lhes chamou, em editorial, o jornal "A Folha de S. Paulo", não se compadece com previsões académicas tradicionais.

Pedro Ivo Carvalho

Não gozem connosco

Maria diz nada saber sobre as contas arrestadas de Carla. Mas Carla terá informado Maria. Sobre o quê exatamente? Maria não esclarece. Carla só aguentou um dia em funções governativas. Fernando diz nada ter sabido sobre a indemnização de 500 mil euros paga a Alexandra. Porém, assim que descobriu, convidou-a a demitir-se do Governo. Pedro, esse, saiu sem ninguém lhe pedir, apesar de também desconhecer a existência desse cheque chorudo. Mas Hugo, secretário de Estado de Pedro, foi informado. Só que não contou a Pedro. Esse, o que se demitiu. Miguel foi para adjunto de António, envolto em várias suspeitas, e caiu empurrado pelos factos ao fim de dois meses. António lançou-lhe boias de salvação enquanto pôde. Mas não evitou o naufrágio.

Pedro Ivo Carvalho

O espartilho da pobreza

Não seria honesto, nem sequer justo para largos milhares de famílias, afirmar que o apoio de 240 euros atribuído pelo Governo a mais de um milhão de agregados carenciados é um mero ato de propaganda política. Apreciemos ou não a estratégia de gestão orçamental de António Costa, trata-se de uma quantia que, infelizmente, faz a diferença na vida de muita gente. Ainda que não tire ninguém da pobreza. As ajudas públicas fazem sentido porque há demasiados cidadãos a precisar delas. Basta atentarmos na evolução dos rendimentos para percebermos que a fronteira entre as classes baixas e a média é cada vez menos visível, o que se traduz necessariamente num definhamento da qualidade de vida e, em particular, do poder de compra. De resto, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística mostram que Portugal continua a ficar para trás na maratona do crescimento e da competitividade, ocupando uma nada honrosa 16.a posição entre os 19 países da Zona Euro. Atrás de nós só mesmo a Letónia, a Eslováquia e a Grécia.

Pedro Ivo Carvalho

Eutanásia. Será desta?

Duas amplas maiorias parlamentares não bastaram para que o projeto da despenalização da morte medicamente assistida, vulgarmente designada por eutanásia, virasse letra de lei. O Tribunal Constitucional (TC) chumbou, o presidente da República chumbou e o processo legislativo voltou à estaca zero, forçado pela necessidade de se aprimorar o texto final, conferindo-lhe uma densidade tal que o tornasse jurídica e constitucionalmente inatacável. Mas não foi isso que sucedeu. Depois de, em junho, PS, BE, PAN e Iniciativa Liberal terem acordado uma redação final, a verdade é que ainda houve necessidade de solidificar conceitos. Foi estabelecida uma baliza temporal entre o pedido do doente e a consumação do ato médico (cerca de dois meses) e ficou determinado que o paciente fosse acompanhado por um psicólogo.

Pedro Ivo Carvalho

United Colors of Portugal

A constatação não espantará ninguém, em particular aqueles que vivem nos grandes aglomerados urbanos: há estrangeiros a servir à mesa, na advocacia, a abrir negócios locais, a dar aulas, a conduzir TVDE, na construção civil, ao balcão das farmácias, a tratar doentes nas urgências hospitalares e na caixa do supermercado. A profunda alteração demográfica que tem ocorrido em Portugal nos últimos anos acontece, curiosamente, em sentido contrário à ascensão de um pensamento político radicalizado que ostraciza tudo o que vem de fora. E por isso a realidade do acolhimento entre nós traduz um comportamento social que mostra resistência a nacionalismos bacocos. Os estrangeiros têm hoje praticamente presença em todas as áreas vitais da economia.

Pedro Ivo Carvalho

Hipocrisia de Estado

Não é de espantar uma certa comoção nacional em torno da ida do presidente da República ao Catar, para assistir a um jogo da seleção nacional de futebol. Sobretudo porque Portugal não é exceção na imensa nuvem de adormecimento em que, durante dez anos, estiveram estacionadas as consciências coletivas. O Ocidente parece ter acordado só agora para as dificuldades daquela monarquia absoluta em lidar com a liberdade de expressão, os direitos laborais, a emancipação das mulheres e a simples existência de homossexuais. Boicotar a ida do presidente da República ao Catar por razões políticas é, por isso, de uma enorme hipocrisia, ainda que a ligeireza inicial das suas declarações, numa flash interview à la treinador de futebol, em que sugeria de algum modo a prevalência da dimensão desportiva à dos direitos humanos, possa explicar reações tão vocais. Mas como a memória é curta, convém lembrar que ninguém se exaltou quando, no Mundial de 2018, o mesmo presidente esteve reunido com Vladimir Putin na Rússia. Não consta que Moscovo também morra de amores pela liberdade de expressão e pelos direitos dos homossexuais.

Pedro Ivo Carvalho

O terreno está minado

A vitória eleitoral de Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras deixou o mundo civilizado um pouco menos tenso, em particular porque isso representou a não eleição de Jair Bolsonaro. Mas à medida que a poeira dessa noite histórica vai assentando, os brasileiros, e de uma forma geral todos os que prezam os regimes democráticos e livres, vão percebendo que a metade do Brasil que saiu derrotada vai esticar o radicalismo ao limite, contribuindo para uma degradação do espaço político similar à que vimos acontecer nos Estados Unidos (EUA) após a derrota de Donald Trump. O afastamento de Bolsonaro do centro do poder não o distancia dos bastidores da influência política. A herança do bolsonarismo será muito mais complexa do que fazem crer estas bolsas reativas que juntaram multidões em protesto e originaram cortes de estrada. Por múltiplas razões, mas sobretudo porque a base eleitoral deste movimento é inorgânica (Bolsonaro não tem um partido) e, no entanto, ele consegue ser extremamente eficaz e vocal quando se quer mobilizar.

Pedro Ivo Carvalho

Só podemos sentir vergonha

Crise energética+inflação+crise alimentar+crise social é igual a uma tempestade perfeita de proporções tão avassaladoras que podem muito bem atirar para uma nota de rodapé da História o pesadelo que enfrentámos com a pandemia. As imagens de latas de atum protegidas com alarme antirroubo nas prateleiras dos supermercados não podem deixar de nos sobressaltar, por aquilo que duplamente representam. Por um lado, o facto de as grandes cadeias de distribuição, que estão a lucrar como nunca com a escalada de preços dos bens essenciais, não terem tido pejo em recorrer a estes expedientes para evitar "prejuízos" - não, não estou a sugerir que deviam permitir furtos para mitigar a fome dos que precisam, mas há formas e formas de controlar danos e não podemos escamotear a responsabilidade social a que estão obrigadas; por outro lado, e mais grave, a tristeza de constatarmos que este excesso de zelo está associado a um aumento de furtos de alimentos por parte de gente desesperada que não tem outro remédio senão o da marginalização. Para elas deixou de ser uma questão de bem saber gerir o orçamento para se transformar numa bem menos prosaica questão de sobrevivência. A pobreza é uma ferida que teima em não sarar.

Pedro Ivo Carvalho

Abriram-se as portas do Inferno

O manto de suspeições que se abateu, nas últimas semanas, sobre altos representantes da Igreja Católica portuguesa no âmbito das denúncias e investigações a crimes sexuais sobre menores praticados ou omitidos por responsáveis clericais tem sido demonstrativo da forma inábil (para sermos simpáticos) como a instituição tem lidado com o problema. Encolheres de ombros, declarações desgarradas ora a negar conhecimento ou envolvimento, pedidos de perdão que servem apenas para aplacar o impacto circunstancial dos relatos de vítimas que vão transpirando para o altar da praça pública... Tudo reações óbvias e esperadas. O mínimo exigido.

Pedro Ivo Carvalho

Carro, inimigo número um?

A mobilidade suave veio para ficar. Gostemos ou não, o futuro das deslocações terá de obedecer a outras regras, conciliando a tecnologia, as energias limpas e a necessidade irreprimível de não perdermos anos de vida no trânsito. Mas esse mantra que enche a boca de gestores urbanos, políticos e demais pensadores das cidades não pode ser implementado de forma autoritária, e muito menos automática, porque a realidade social, cultural e económica portuguesa não é a mesma dos países nórdicos, onde até para realizar serviços fúnebres se recorre à bicicleta.

Pedro Ivo Carvalho

Crianças torturadas e violadas

Aqueles que, nos últimos sete meses, e graças a um admirável contorcionismo intelectual, foram encontrando justificações para a invasão russa da Ucrânia, indiferentes às barbaridades perpetradas pela máquina de guerra de Putin, certamente que ficaram cobertos de vergonha (havendo neles essa réstia de humildade) perante os dados revelados pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Nenhuma guerra é justa, e todas se alimentam do sangue do inimigo, mas a lista de horrores atribuída aos soldados russos (muitos dos quais jovens) é reveladora da ideia de extermínio e erradicação social e cultural que sempre esteve subjacente a um conflito lançado por um autocrata que se tornou ainda mais perigoso agora que está ferido na honra e encurralado na estratégia.

Pedro Ivo Carvalho

Boa sorte, Manuel Pizarro

Ainda é cedo para nos atrevermos a proferir sentenças sobre a herança que Manuel Pizarro, o novo ministro da Saúde que hoje toma posse, vai deixar para a posteridade. Mas a sua escolha revela uma coisa óbvia: ao optar por um peso-pesado do partido, um médico experimentado que conhece muito bem as sensibilidades do setor, António Costa quis dizer ao país que não está disponível para nenhuma revolução numa área fundamental que navega em águas já demasiadamente agitadas. É, como vulgarmente se designa no jargão futebolístico, uma aposta política na continuidade. Pizarro é um profundo conhecedor das debilidades e potencialidades da Saúde (pública e privada), mas será mais ou menos bem sucedido em função do compromisso a que estiver obrigado com o caderno de encargos pré-estabelecido pelo primeiro-ministro no início do mandato. Ou seja, não sendo de antever uma rutura, é de esperar, pelo menos, que a entrada de um novo protagonista num universo tão atreito a conflitos e naturalmente complexo venha acompanhada de alguma frescura programática. Que Manuel Pizarro tenha garantido uma liberdade mínima de movimentos para poder fazer diferente de Marta Temido. Com mais pragmatismo e organização e menos ideologia e preconceito em relação ao setor social e privado. Caso contrário, terá um reinado curto.

Pedro Ivo Carvalho

Procura-se especialista

1. E, de repente, acordamos num país que precisa dos serviços de especialistas em políticas públicas como de pão para a boca. À duvidosa mas bem paga contratação por ajuste direto de Sérgio Figueiredo para o Ministério das Finanças, precisamente para acompanhar as políticas públicas, o Governo junta a de um pequeno exército de consultores e peritos, que vão figurar nas fileiras do Centro de Competências de Planeamento, de Políticas e de Prospetiva da Administração Pública, o PlanAPP. O nome é pomposo e o orçamento também: só em serviços de consultoria, formação e informação, serão gastos quase 12 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência, o famigerado PRR. E não estão incluídas nesta folha salarial as despesas com os pelo menos 65 funcionários já contratados. Garante o Governo que, apesar de centralizada, esta estrutura envidará esforços para canalizar o nível de especialização em benefício de todas as regiões. Mas com tanta gente debruçada sobre estudos, corremos o risco de gastar o dinheiro todo na radiografia e quase nenhum no doente.

Pedro Ivo Carvalho

Apaga a luz e não faças barulho

Para um problema complexo - como o da definição do preço da eletricidade e das suas infindáveis cambiantes - não há uma resposta simples. Razão pela qual seja arriscado vaticinar quem fala verdade no arrufo entre Governo e Endesa. Talvez porque ambos tenham razão. A fatura da luz não deverá aumentar já, pelo menos até ao final do ano para os contratos antigos, mas o mais provável é que, num futuro próximo, o preço suba para consumidores e empresas, quando forem negociados novos contratos. O famigerado mecanismo de compensação criado para proteger Portugal e Espanha da subida do valor do gás natural que é utilizado para a produção de eletricidade tem a virtude de controlar a escalada de preços no imediato, mas é ainda cedo para percebermos de que forma as compensações devidas às centrais a gás vão ter um reflexo nos preços finais a médio prazo. E depois não podemos esquecer-nos do efeito-dominó causado pela seca extrema que atinge a Península Ibérica, o que obrigará certamente os fornecedores a recorrer mais ao gás natural. Donde, a fatura subirá.