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Pedro Ivo Carvalho

#foradacaixa

Tiremos da equação a ideologia, a estratégia (ou a ausência de uma), o passado do partido (o longínquo e o recente) e atentemos nisto: não deve haver líder político que tenha colecionado tantos inimigos íntimos em tão pouco tempo como Rui Rio. Quem está a mais? Ele ou o partido? Rio parece fazer gáudio dessa capacidade (inata?) de irritar aqueles que era suposto agrupar no regaço. Mas Rio é assim, trôpego na genuinidade, estridente nas obsessões, a eito nos modos. Só quem não se lembra dele enquanto autarca do Porto pode ficar de queixo em banda. Nos Aliados, foi crescendo, renovando o poder, até ao patamar do absoluto. Mesmo após uma guerra inaudita contra um dragão musculado chamado F. C. Porto. Rio, o agora assumido benfiquista, não quis ser como os demais. Não quer. Daí a dúvida: ao provocar tanta acidez interna, não estará também a aumentar o capital externo junto dos que já não creem em nada e suspiram por alguém fora da caixa? Embora, como é sabido, Rio tenha nascido e crescido na caixa. A verdade é que ninguém sabe para onde corre este Rio. Saberá ele?

Pedro Ivo Carvalho

Feminismo à la carte

É uma sucessão de eventos ofegante. Final do Open dos Estados Unidos: um treinador agita os braços na bancada, dando instruções ilegais à sua atleta; essa atleta, a tenista Serena Williams, é penalizada. Enfurecida, chama ladrão ao árbitro, parte a raquete e, após o fim do jogo, acusa o juiz, o português Carlos Ramos, de ser sexista e racista. Se tivesse sido com um homem, alegou, ele teria contemporizado. Segue-se um debate mundial sobre os direitos das mulheres e dos negros nos Estados Unidos, traduzido numa escalada de ódio contra um cartunista australiano que entretanto retratou a birra de Serena com escárnio. Resultado: Mark Knight teve de fechar as contas nas redes sociais. Não sem antes constatar o óbvio ululante: "Como é que se desenha um afro-americano sem que ele se pareça com um afro-americano?"

Pedro Ivo Carvalho

#perdido

Perder a carteira é quase tão doloroso como perder a cabeça. Sobretudo porque reside na segunda a explicação para a ausência da primeira. Já me aconteceu uma ou duas vezes ser violentado por essa desagradável azia, embora seja justo reconhecer que apenas guardo para a eternidade a memória daquela tarde outonal em que circulei um par de quilómetros com o telemóvel e a carteira no tejadilho do carro, conseguindo a proeza de manter a completa e absoluta integridade física de ambos. Foi assim uma espécie de "sightseeing" combinado entre os meus rendimentos e as minhas comunicações. Um clássico típico de quem acha que consegue sentar criancinhas no banco de trás, guardar as compras do mês e abrir a mala do automóvel só com duas mãos. Ora, desta vez, perdi apenas o cartão multibanco. O coração pára e ficamos da cor do leite sem lactose, porém, acabamos por não sentir uma culpa tão demoníaca a entupir-nos as artérias. Mas temi o pior: descobriram o código. Imaginei um tipo mal-amanhado a derreter o saldo em videojogos, uma adolescente vitaminada a secar os euros em maquilhagem, amigos às gargalhadas à saída de uma loja de desporto, trajados de marcas vistosas. Debacle. Afinal, o cartão fora capturado pela máquina multibanco, após ficar esquecido na ranhura. Zero dramatismo, zero suspense. E um sentimento de culpa de quem expiara ladrões que só habitaram a minha cabeça. A todos eles, as minhas desculpas.

Pedro Ivo Carvalho

#osbraços

Theresa May - que, como toda a gente sabe, é o Arsène Wenger disfarçado de mulher - decidiu ensaiar uns passos de dança numa visita recente a África. É fácil de adivinhar o que se seguiu: um misto de espanto e escárnio globais em face do jeito apalermado como a primeira-ministra britânica baloiçou os braços. Políticos experientes como May já deviam saber que estas tentativas de aculturação resultam sempre num exercício de humilhação dos próprios. Os nativos de Nairóbi - que, como toda a gente sabe, aprendem primeiro a dançar e só depois a gatinhar - limitaram-se a esboçar um sorriso complacente e hospitaleiro, embora, à luz do direito internacional, aqueles gestos mecanizados da líder conservadora fossem suficientes para expulsá-la de solo nigeriano. Mas quem não sabe dançar está solidário com May. Há séculos que os estudiosos buscam uma resposta para esse mistério: onde meter os braços quando gingamos as ancas em público? Há quem se ampare no copo, e use a mão livre para passear os dedos pelo cabelo; há quem desenhe longos círculos no ar e semicerre os olhos, num registo ora místico, ora demente; e há quem cole os braços às pernas, num passo tipicamente conhecido como o pinguim tímido. Theresa May fez de robô atrevido - que, como toda a gente sabe, é uma das várias formas de expressão corporal de lidar com o Brexit.

Pedro Ivo Carvalho

#gentepequena

Pedrógão Grande continua inculcado em nós. Ondulando entre a conspurcação da consciência geral e a catarse solitária de quem perdeu o sentido da existência naquela data ignóbil. As suspeitas já conhecidas sobre a reconstrução das casas calcinadas pelo fogo eram bastantes para nos fazer corar de vergonha, mas a peça jornalística que a TVI mostrou agora é uma estátua multimédia ao espírito rasteiro de alguns. Gente que perdeu uma casa de segunda habitação e alterou a morada fiscal para beneficiar das ajudas públicas e privadas destinadas a reerguer as casas de primeira habitação. Um presidente de câmara que encolhe os ombros de aparente sonsice, uma "vice" que, confrontada com as denúncias, se esconde na burocrata cobardia do "eu encaminhei". Personagens adultas que agem como crianças quando apanhadas com bigodes de chocolate depois de terem ido ao pote dos doces a que não deviam chegar. A patranha é uma corrente subterrânea da desordem. Seria próprio da natureza humana, não fosse tão típica da natureza lusitana. E depois uma frase que é derradeira a definir essa cultura: "Se os outros fizeram, porque não ia eu fazer?" Um safe-se quem puder pavloviano, de quem acha normal sermos reles para não sermos lorpas. Pedrógão não nos ensinou nenhuma lição. Só veio comprovar que não aprendemos nada porque já sabemos tudo. Pedrógão Grande, gente pequena.

Pedro Ivo Carvalho

#unicórnios

É com a mágoa típica do verão que reconheço que a exacerbada procura por unicórnios insufláveis está a ter efeitos nocivos no meio ambiente e na paisagem urbana. A sobrelotação de cavalos imaginários nas piscinas e nos mares desse Portugal etnográfico fez transbordar a manada de borracha para as ruas e jardins do país, onde os pobres coitados são abandonados, quase sempre com falta de ar no corno que lhes adorna a cabeça e com as asas de Pégaso desfeitas, em resultado de um uso inadequado por parte de pessoas que acham que são largas de ancas e não gordas. Prostrados no espaço público e duplamente esvaziados de sentido, se me permitem a metáfora fácil. Nunca pensei que fosse possível ver tantos unicórnios num mês sem ter necessidade de fumar alguma substância ilegal. Provavelmente, a fixação pelo bicho é apenas uma forma natural de compensar o exército de flamingos rosados que deu à costa no ano passado, mas o exagero só pode dar nos excessos que decorrem da abundância. Há unicórnios a mais na água e há unicórnios a mais em terra. E agora, o que nos trará 2019? Um minotauro azul-bebé com pompons nas patas e tatuagens floridas nos braços? Ou será este, em definitivo, o ano dos pinguins sempre em pé que rodam como loucosna zona da rebentação das ondas? Quem responder que as câmaras de ar dos pneus de camião vão regressar em força ganha umas braçadeiras verdes.

Pedro Ivo Carvalho

Não morreu ninguém

Não merece discussão: não ter morrido ninguém nos incêndios de Monchique é uma excelente notícia. Termos um primeiro-ministro que sente necessidade de agitar uma obrigação do Estado como trunfo já não precisava de ser notícia. A atrapalhada gestão mediática que o Governo está a fazer do pesadelo algarvio tem de servir de reflexão futura sobre o que deve ou não ser dito sobre fogos em Portugal de todas as vezes que o assunto escalda a consciência da nação. Sobretudo porque há um antes e um depois de Pedrógão. E ninguém com responsabilidades públicas pode achar que tudo o que afirma não é imediatamente analisado à luz dos acontecimentos do ano passado. No Governo e na Oposição. Mais de 100 portugueses mortos. Não esquecer.