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Pedro Ivo Carvalho

Espanha, um país partido e com Vox

Espanha acorda hoje partida ao meio. Esta é a primeira conclusão a tirar do resultado das eleições legislativas mais importantes e participadas da História daquela democracia. A segunda, mais previsível, é a de que se confirmou não só a vitória do socialista Pedro Sánchez, como a necessidade que terá de promover uma coligação para governar, no âmbito da qual os independentistas poderão ser novamente a chave para um entendimento, gorada que ficou a possibilidade aritmética de um acordo natural com o Podemos ser suficiente para alcançar a maioria absoluta. E a terceira conclusão, que pairava como um fantasma sobre grande parte da nação, é a de que a extrema-direita, protagonizada pelo Vox, não capitalizou eleitoralmente ao ponto de influir na esfera do poder, mas irrompe no Parlamento com uma força tremenda, ao ter sido capaz de eleger 24 deputados. A balança só não pendeu de forma mais notória para o partido de Santiago Abascal porque a forte mobilização do eleitorado favoreceu a Esquerda nos territórios que, há quatro anos, foram da Direita.

Pedro Ivo Carvalho

Europa, I love you

Se a Europa fosse uma autoestrada, nós seríamos um condutor em contramão de pé atado ao acelerador. Quanto mais a Europa entra nas nossas vidas, maior é a nossa propensão para fugirmos dela. É como rodopiar sem sair do sítio: os portugueses parecem ter as vistas políticas limitadas ao retângulo e os partidos fazem tudo para alimentar essa lógica circular, nivelando por baixo as expectativas que reservam para si próprios. Porque, na verdade, todos têm mais a perder do que a ganhar. As europeias estão condenadas a ser um tubo de ensaio para as legislativas. Um meio caminho andado para um lugar qualquer. E este ano, infelizmente, vamos continuar fiéis à tradição. Basta uma curta viagem pelo território para nos apercebermos de como o desinteresse generalizado se traduziu numa enorme vacuidade dos slogans, em particular de PS, PSD e CDS, que ora ensaiam trôpegas declarações de amor ao ideário europeu, ora tentam colar de forma subtil Bruxelas a São Bento. Ainda que a história, e as mais recentes sondagens, demonstrem que a natureza das eleições é distinta e por isso errónea essa deriva.

Pedro Ivo Carvalho

Patrões que valem por 52

Pode um patrão valer por 52 trabalhadores? Não. A nenhum homem ou mulher pode ser dado esse poder. Independentemente da sua condição social ou profissional. Mas sendo essa uma impossibilidade filosófica, é um facto que os CEO das principais empresas cotadas na Bolsa portuguesa obtiveram no ano passado um rendimento médio 52 vezes superior ao de cada funcionário. Fosso salarial que, ano após ano, se vai repetindo e que traduz a natural vocação dos grandes grupos económicos em privilegiar os acionistas em detrimento dos empregados. A lógica é a de sempre: a obtenção de resultados redunda no pagamento de prémios chorudos aos gestores e de dividendos aos donos. São as regras do mercado. Mas a dimensão das empresas e dos empresários não se mede apenas na riqueza e nos postos de trabalho gerados, mas também, e cada vez mais, na forma como coletivizam os lucros. E por coletivizar entenda-se democratizar, universalizar, recompensar. No fundo, gerir com justiça. A The Navigator Company, cujo CEO Diogo da Silveira terminou o ano de 2018 a ganhar 23 vezes mais do que os trabalhadores, deu, pese embora esta discrepância salarial, um exemplo que merece nota. Os acionistas aprovaram a distribuição de 23 milhões de euros em prémios aos 3200 trabalhadores (cerca de 7200 euros por cabeça). Ora, isto só foi possível porque o grupo registou a melhor performance da sua história (225 milhões de euros de lucro, uma subida de 8%), embora isso em Portugal não seja condição obrigatória para nenhum tipo de altruísmo. Aliás, ninguém estranharia que o quinhão agora reservado aos funcionários tivesse ido parar ao bolso dos acionistas. Mas não: ao melhor resultado de sempre, a The Navigator Company decidiu atribuir o prémio mais elevado de sempre aos trabalhadores. Certamente que nem todas as empresas podem dar-se a este luxo (devíamos chamar-lhe normalidade), mas fica provado que a busca de resultados e a sujeição às regras do capitalismo não são um bicho-papão. E que é possível conciliar a derradeira missão de uma empresa (o lucro) com a responsabilidade social perante aqueles que, em diferentes patamares de responsabilidade, alimentam o êxito. É assim que se mede o valor dos patrões.

Pedro Ivo Carvalho

Com tanto fumo não haverá fogo?

1 de fevereiro de 2019: "Estado pagou quatro vezes mais refeições aos bombeiros nos fogos de julho"; 22 de fevereiro de 2019: "Ministério Público investiga manifestação de bombeiros"; 27 de fevereiro de 2019: "Escola de Bombeiros com contas sob suspeita"; 16 de março de 2019: "Fundo da Liga dos Bombeiros investigado pela Justiça". Podemos olhar para esta sucessão de notícias com a candura dos gentios e concluir que se trata de uma de duas coisas: ou uma tremenda coincidência, ou uma campanha negra para denegrir a Liga dos Bombeiros. Se formos Jaime Marta Soares, o mais provável é que nos guiemos por um destes raciocínios.

Pedro Ivo Carvalho

Não imitemos os macacos

Não veja o mal, não fale do mal, não ouça o mal. Faça como os três macacos sábios. Tape os olhos, cerre os lábios e cubra os ouvidos. Enfie a cabeça num buraco fundo e, até outubro, descubra as vantagens de viver num país em que os atores políticos cumprem escrupulosamente a lei e comunicam com o povo numa língua chamada silêncio. É mais ou menos esta a mensagem associada à "fatwa" da Comissão Nacional de Eleições (CNE) relativa às normas que regulam a propaganda eleitoral na pré-campanha e que atinge, de forma indiscriminada, todo o político que mexa. Uma interpretação tão extensiva da lei que tolhe qualquer tentativa de ação pública. Seja ou não de base propagandística. Pior: que é arbitrária ao ponto de não distinguir a natureza dos atos eleitorais, que mistura publicidade institucional com gestão corrente. Que trata eleitores e eleitos com uma arrogância e um paternalismo próprios de uma democracia do Terceiro Mundo.