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Pedro Ivo Carvalho

Democracia no litoral

Vagarosamente, o território continua a espreguiçar-se para o litoral. Vão as pessoas, os empregos, a economia, o progresso e as oportunidades. E vai também a democracia. As decisões. O novo mapa eleitoral mostra-nos que, nas eleições legislativas de 6 de outubro, quase metade (40%) dos deputados escolhidos pelos portugueses representarão os círculos de Lisboa e do Porto. O primeiro passa de 47 para 48 mandatos; o segundo ascende aos 40, mais um do que nas legislativas de 2015. Conclusão: nos dois maiores núcleos urbanos está um terço da força do voto.

Pedro Ivo Carvalho

Trump trata o ódio com amor

Não parece possível retratar, em simultâneo, a omnipresença e o vazio na capa de uma revista. Mas a mais recente edição da "New York Magazine" conseguiu-o: "Uma edição inteira com nada sobre Trump" foi o título escolhido, ilustrado com um apetecível e mordiscado gelado. Uma edição inteira a ignorar Trump usando Trump como isco. É retorcido, mas traduz de forma exemplar o quão avassaladora se tornou a presença no espaço público e mediático do milionário convertido em estadista. Podemos não querer ouvir falar dele, mas ele impõe-se, nem que seja pelo ridículo. É, aliás, desta equação que se alimenta o seu projeto de poder. Visibilidade a todo o custo.

Pedro Ivo Carvalho

Mãe de sete

Entre as inúmeras proclamações certeiras da novel presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, há uma que brilha no escuro, porque, sendo prosaica, está na essência da missão luminosa de quem serve de bússola ao Velho Continente. Disse ela quando mostrou ao que vinha: "Fui europeia antes de ter percebido que era alemã". Para muitos, esta será apenas uma frase pompom para exibir ao Mundo no dia em que foi escolhida à justa pelo Parlamento Europeu para ser a senhora Bruxelas. Mas, na realidade, este é o molde que enformou o percurso político desta conservadora, ex-ministra da Defesa, mãe de sete filhos biológicos - e de um oitavo, abraçado no contexto da crise dos refugiados. Um jovem sírio de 19 anos fugido da guerra, que acolheu, como tantas famílias alemãs, e que, hoje, com 23 anos, é, segundo a própria, "uma inspiração para todos". O percurso pessoal da primeira mulher a presidir à Comissão Europeia é, inegavelmente, um poderoso aditivo ao currículo político.

Pedro Ivo Carvalho

Constâncio, o dentro da lei

Vítor Constâncio rejeita ser o culpado. Mas a sua insistência em transformar-se na vítima é difícil de engolir. Compreende-se que o ex-governador do Banco de Portugal não se recorde, com um grau de detalhe que seria patriótico, de todos os episódios daquele verão quente de 2007, em que uma elite montada a cavalo no bem público (não é sempre assim?) gizou um plano para tomar de assalto um banco privado (BCP) na garoupa de um banco do Estado (CGD).

Pedro Ivo Carvalho

Nós, os lesados da corrupção

A estatística devia sossegar-nos. Afinal, a perceção dos portugueses sobre a corrupção está em linha com a média europeia. Estagnamos no índice da Transparência Internacional. Mas depois somos sacudidos pela outra realidade que não a dos números inspirados na lógica sensorial e que nos ecoa nos ouvidos com a cadência de um martelo pneumático. Não há semana que passe sem uma nova história sobre corrupção, um esquema ardiloso, um emaranhado de cumplicidades espúrias. Porque não parece haver tréguas possíveis nessa torrente incessante e circular em que emergem o tráfico de influências, o peculato, a participação económica em negócio e a fraude fiscal. Em todos estes comportamentos desviantes (vamos chamar-lhes assim), há um denominador comum: nós. Os lesados da corrupção. Vítimas involuntárias que assistem a tudo na bancada, lançando os cheques em branco com que os serventuários ocasionais do regime forram o caminho.

Pedro Ivo Carvalho

Se conduzir não deva

O Fisco pode. E pode muito. Assusta. E assusta muito. Cobra. E cobra muito. Só não sabíamos que o Fisco também adora dar espetáculo. E ontem deu muito, ao levar para a beira da estrada a sua deriva persecutória, transformando uma operação stop numa ação musculada de cobrança de dívidas e de penhora de viaturas. Tratando cidadãos potencialmente incumpridores como criminosos que urge encostar à parede ou mandar a pé para casa como castigo público.