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Pedro Ivo Carvalho

Os imigrantes dão lucro

Figuram entre os argumentos mais falaciosos na narrativa de quem vê nos imigrantes que escolhem Portugal para viver ou trabalhar empecilhos naturais ao desenvolvimento do país: sorvem recursos, "roubam" empregos aos nativos e contribuem de forma insuficiente para a causa comum. Só que, afinal, os imigrantes dão lucro. E não é pouco. De acordo com o mais recente relatório do Observatório das Migrações, em 2019 atingiu-se um valor recorde nas contribuições dos estrangeiros para a Segurança Social: 884 milhões de euros. O saldo é claramente positivo, na medida em que "só" beneficiaram de 111 milhões de euros de apoios do Estado. Mas há outra lição a tirar: os portugueses são dos europeus mais tolerantes para com os forasteiros.

Pedro Ivo Carvalho

O lado B do Chega

Não estava escrito nas estrelas, mas era mais ou menos óbvio que a Direita iria pôr em marcha um plano político de poder simétrico ao da geringonça de Esquerda. A questão era saber com quem, com que urgência e com que filtros civilizacionais. Os Açores transformaram-se no tubo de ensaio para um casamento de conveniência que, por obra e graça do PSD de Rui Rio, conseguiu alcandorar à condição de cola institucional da governação regional um partido que defende a castração química dos pedófilos, a prisão perpétua, o reforço das fronteiras e o fim dos serviços públicos de saúde e educação.

Pedro Ivo Carvalho

Apertem os cintos

Às segundas, quartas e sextas a TAP é um ativo estratégico para o país, às terças, quintas e sábados é uma companhia aérea que só pode sobreviver à boleia do aeroporto de Lisboa. Enquanto o tilintar da fatura se agiganta nos nossos ouvidos (só passaram três meses e já contamos 1700 milhões de euros de potenciais encargos públicos até ao final de 2021), o Governo vai brincando ao polícia bom e ao polícia mau, deixando transparecer uma aflitiva ausência de estratégia. Para o ministro Pedro Nuno Santos, as quatro rotas criadas recentemente no aeroporto do Porto (Amesterdão, Milão, Zurique e Ponta Delgada) são "um prejuízo para a TAP". Mas para o primeiro-ministro "a TAP não pode ser uma companhia de Lisboa, tem de ser uma companhia do país". A verdade, porém, é que a empresa de aviação que estamos a tentar resgatar do coma já deixou de ser um fator de coesão nacional para se transformar ninguém sabe bem em quê.

Pedro Ivo Carvalho

Voando sobre um ninho de cacos

Todos estamos recordados da voz grossa do ministro Pedro Nuno Santos quando o assunto foi a nacionalização da TAP. Todos estamos recordados de como este Governo dramatizou, com a habitual eficácia mediática, a necessidade de o Estado injetar 1200 milhões de euros de dinheiros públicos na companhia de bandeira, ancorado na tese de que era demasiado importante para cair porque demasiado pesada na balança das exportações. Mas provavelmente não estamos todos recordados do compromisso assumido pelo mesmo Governo quando se percebeu que a estratégia de sobrevivência da transportadora aérea não passava pelo aeroporto do Porto, paulatinamente relegado para um plano subalterno. "Nós temos uma grande preocupação com a cobertura do território", afirmou, há dias, Pedro Nuno Santos, garantindo que "Porto e Algarve não são estranhos nesta estratégia". Certo? Errado. Porque a pretensa nova estratégia da TAP é, na realidade, uma velha estratégia : na retoma da operação para outubro, a empresa voltou a esquecer-se do segundo maior aeroporto do país, optando conscientemente por entregar esse vazio de mercado aos privados, que lhe chamam um figo. A TAP já tinha passado do segundo para o oitavo lugar da lista das dez maiores companhias a operar no Sá Carneiro, mas os planos que hoje revelamos indiciam que a pegada da empresa a Norte vai ficar ainda mais diluída. Ora, havendo mercado e não havendo interesse, não há respeito pelo dinheiro dos portugueses.

Pedro Ivo Carvalho

A escola não faz milagres

1. No título que encima este texto podíamos trocar escola por fábrica, escritório, supermercado ou por outro lugar do nosso quotidiano. As escolas operam milagres na formação dos indivíduos, mas não esperemos que se transformem em territórios imunes à pandemia por obra e graça divina. Porque isso não existe. E talvez esse seja o maior equívoco do debate público dos últimos dias. O de pensarmos que, por não haver garantias de que tudo vai correr bem no regresso às aulas, o mais provável é que tudo corra mal. Ora, a realidade tem demonstrado com apreciável clareza que a gestão do risco não se coaduna com maniqueísmos. Mário Nogueira tem sido um dos principais instigadores do medo. Mais parece que, para o líder da Fenprof, o retomar da atividade letiva é um filme de terror onde só coabitam, nas mesmas salas contaminadas, professores de risco que não podem dar aulas e o malfadado vírus. A verdade é que as crianças querem regressar, os pais concordam, as escolas prepararam-se da melhor maneira possível, tal como a esmagadora maioria dos professores, e isso é que devemos ressalvar. Não se espere que a comunidade educativa faça milagres se depois o resto do país não cumprir a sua parte. O esforço nunca deixou de ser coletivo. Nas escolas, nas fábricas, nos supermercados. Em casa. Continuamos todos a aprender.

Pedro Ivo Carvalho

Não esquecer os esquecidos

De pouco nos vale o contentamento de termos salvo o Serviço Nacional de Saúde (SNS) de si próprio, a expensas de uma pandemia que tirou o chão a todas as convenções e protocolos, se não tivermos aprendido uma lição fundamental: o país não pode esquecer-se novamente dos doentes que ficaram esquecidos. Dos largos milhares de portugueses não atingidos pela covid mas privados de consultas, tratamentos, cirurgias, internamentos, carentes de um simples aconselhamento médico, em demasiados casos órfãos de uma mísera prova de vida do outro lado do telefone.

Pedro Ivo Carvalho

A grandeza de Iker Casillas

Quando Iker Casillas aterrou no Porto, em 2015, todos sabíamos quem ele era. Aos 34 anos, carregava nas luvas um vastíssimo currículo de títulos e de prestações desportivas ao mais alto nível. Ainda assim, alguma imprensa espanhola caricaturou a escolha do galático. Vinha para se reformar, tinha desistido de ser ambicioso, estava acabado. Iker devolveu as atoardas com trabalho e tornou-se num cidadão do Porto, do Norte, do país que o acolheu de forma calorosa. E continuou a ganhar.