Imagens

Últimas

Pedro Ivo Carvalho

Os meninos à volta da coleira

Será Portugal menos solidário do que Espanha? Do que Itália? Do que o Reino Unido ou a Noruega? Certamente que não. Mas a predisposição dos portugueses para acolherem uma criança ou um jovem desconhecidos não é suficiente quando a realidade esbarra na letargia do Estado. De um Estado que não cumpre a lei a que está obrigado. Quando olhamos para o universo das famílias de acolhimento, esta costumeira fatalidade roça o indigno. Apenas 3% dos menores à guarda pública foram encaminhados para estes agregados. Quando devia ser a maioria. No resto da Europa, os piores números rondam os 50%. Há três anos que o Governo não cumpre a lei que criou.

Pedro Ivo Carvalho

Agora é a valer, Jair

Na tomada de posse como presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro não desapontou ninguém: nem os detratores, que temem pelo braço musculado do governo mais à direita na história do país; nem os apoiantes, que viram no seu discurso de apresentação a encarnação do redentor por que anseiam, essa figura salvífica cuja aura se ilumina pelos ideais conservadores da família e da religião, pelos da justiça pelas próprias mãos e por uma visão ultraliberal da economia.

Pedro Ivo Carvalho

O Estado a que chegamos

O que mais nos deve assustar na sucessão de falhas operacionais no socorro ao fatídico acidente com um helicóptero do INEM não é a aparente leviandade com que as várias entidades desrespeitaram o protocolo e tropeçaram nas pernas umas das outras, mas a constatação de que não nos livramos deste filme de terror. O Estado continua a falhar na sua missão primordial. Em manter os portugueses seguros e em garantir um auxílio eficaz quando eles necessitam. Falhou em Pedrógão, falhou em Tancos, falhou em Borba, falhou em Valongo. Não foram décadas de incidentes. Isto aconteceu apenas no último ano e meio. São circunstâncias especiais a mais em tão pouco tempo. Obriga a reflexão.

Pedro Ivo Carvalho

Só podemos sentir vergonha

Não acontece sempre. Por vezes é só um gemido, mas nas horas sombrias, quando a dor o invade e se torna insuportável, Rodrigo chora. E com ele a mãe Vânia e a irmã Nina. Nessas ocasiões, mudam o menino de oito anos de posição. Para lhe aliviarem as dores causadas por uma luxação na anca. "O meu filho está a sofrer. Não dorme, não descansa". É assim todos os dias. Rodrigo tem uma doença rara e está há sete meses à espera de ser operado no Hospital de S. João. Como a demora era longa (numa primeira fase, havia 400 doentes à sua frente), teve direito a um vale-cirurgia para ser tratado de forma mais expedita noutra unidade. Mas os cinco hospitais sugeridos pelo sistema recusaram operá-lo. Uns devido à ética profissional invocada por médicos que também exerciam funções no Hospital de S. João, outros porque pura e simplesmente não tinham ortopedia pediátrica. Sim, o Serviço Nacional de Saúde encaminhou uma criança para ser operada em hospitais que não podem operar crianças. A explicação é surrealista: o vale emitido não distinguia menores de adultos.

Pedro Ivo Carvalho

Comem a carne e roem os ossos

Um dos contra-argumentos mais irritantes de quem beneficia placidamente da propensão do Estado para criar riqueza em Lisboa é o de que quem ousa afrontar essa fatalidade não tem pensamento estratégico e vive acantonado numa aldeia gaulesa rodeada por muros altos e graníticos. Questionar o provincianismo da capital é, alegam essas luminárias, um ato de teimosia. E de inveja suburbana. Mas a verdade é que, a cada ano que passa, Portugal fica mais pequeno e desigual à custa desse esforço concêntrico. E por vezes são tragédias como as de Sabrosa e de Borba que nos parecem sobressaltar para lá do que produz e do que pensa Lisboa.