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Pedro Ivo Carvalho

Sem um Pinho de vergonha

Manuel Pinho falou dos filhos e dos enteados que emigraram. Manuel Pinho falou da revolução industrial. Manuel Pinho falou do iPhone. Manuel Pinho falou do nevoeiro de Pequim. Manuel Pinho falou da exploração de gás de xisto nos Estados Unidos. Manuel Pinho falou da vida académica e do desejo em escrever um livro sobre tudo o que aprendeu no fascinante mundo da energia. Manuel Pinho falou, falou, falou. Mas durante três horas não disse nada que ajudasse a iluminar a sua sombria passagem pelo poder. Porque não quis, porque tem algo (muito?) a esconder, porque não lhe molesta a consciência a gravidade das suspeitas públicas que pendem sobre si. E convém recordá-las: o ex-ministro da Economia de José Sócrates, na convicção do Ministério Público (que, ao longo de um ano, ainda não o ouviu!), terá recebido, através de uma offshore, uma avença mensal de mais de 14 mil euros do "saco azul" do GES para, alegadamente, beneficiar o Grupo Espírito Santo e a EDP. Pior: terá beneficiado desse pagamento enquanto era governante.

Pedro Ivo Carvalho

#FÍFIA

A FIFA conseguiu transformar um debate interessante numa anedota. Proibir as televisões de mostrar imagens de "mulheres atraentes" nas bancadas durante os jogos de futebol pode, no limite do absurdo, criar um movimento em contraciclo das "mulheres feias" que, a partir de agora, sejam as únicas contempladas com base no normativo estético. Bom, mas como se definem os critérios de beleza? A FIFA vai distribuir um manual de fisionomia às estações? Com um capítulo dedicado ao dress code, com múltiplas alíneas sobre decotes? E, já agora, porque não obrigar os realizadores a filmar também homens atraentes? Se virem o bom-senso avisem. Ao ter optado por uma proibição simples, e de muito discutível aplicação, a FIFA perdeu uma oportunidade para fomentar uma discussão válida sobre um problema escondido. A verdade é que se recorre exageradamente a planos apertados de adeptas, algumas das quais modelos que buscam promoção pessoal, e que isso resulta num desequilíbrio, atendendo à diversidade de espectadores nas bancadas. Alertar para isto é uma coisa. Proibir é outra. É apanhar a onda dos radicalismos. É ser sexista tentando evitá-lo. A única preocupação da FIFA é mesmo o Mundial do Qatar de 2022, onde, por imperativos religiosos, não há tolerância com a exposição da beleza feminina. Business as usual, portanto. Ou não fossem os petrodólares tão sexy.

Pedro Ivo Carvalho

A revolução foi para o lixo

São os gestos simples, fortalecedores dos conceitos de pertença, que melhores resultados produzem nas comunidades. Em vários domínios, mas sobretudo no ambiental, ao qual estamos amarrados por imperativo de cidadania. Na rua onde moro, era frequente ver sacos plásticos esventrados no passeio, desperdícios acumulados na berma da estrada, enfim, um desleixo sem razão, mas ainda assim entendível face à inexistência de contentores nas proximidades. A relação com o lixo era passiva: acumulava-se tudo na via pública porque alguém haveria de passar para recolher o que já não pertencia a ninguém.

Pedro Ivo Carvalho

Há uma luz que não se apaga

Ocasionalmente, somos sacudidos por histórias cuja dimensão humana nos esmaga, histórias que vazam fronteiras, línguas, religiões, histórias que têm a capacidade inata de agregar o Mundo numa única e transcendente vontade. É nessas histórias coletivas que esgotamos o melhor e o pior da nossa complexidade individual. É nelas que desagua a nossa fragilidade terrena. E nem a distância nos impele a contemporizar. Há dias que vivemos de peito apertado, na esperança de que a luz se apodere dos confins de uma gruta na Tailândia. Vibramos com os golos aparatosos do Mundial, mas a equipa de futebol pela qual torcemos é formada por 12 rapazes tailandeses. E por um treinador que passou fome para alimentá-los e que não se perdoa por tê-los levado naquela aventura. O caminho da salvação é tortuoso. Boa parte das crianças, entre os 11 e os 16 anos, não sabe nadar. Nenhuma fez mergulho. A abnegação dos salvadores, neste caso, não chega. "O Mundo precisa de saber que os milagres existem", reconhecia, ontem, um dos mineiros resgatados, há uns anos, das entranhas rochosas do Chile. À hora a que escrevo, tinham sido libertados quatro rapazes. A missão prossegue hoje, numa intrépida e desigual luta contra a chuva e o relógio. "Não se preocupem, papá e mamã. Há duas semanas que parti, mas vou voltar para vos ajudar na loja", escreveu um dos petizes, numa carta divulgada pelos socorristas. "Estou bem, só com um pouco de frio. Não se esqueçam da minha festa de aniversário. Por favor, preparem-me um churrasco", pediu outro. "Cuidem bem de vocês. Cubram-se com cobertores, o tempo está frio", aconselhou, na resposta, uma das mães de coração exangue. No epicentro da mais complexa missão de salvamento de sempre, avulta este despojo arrebatador que nos amarra ao essencial: nem a mais funda das grutas extingue a luz irradiante entre pais e filhos.

Pedro Ivo Carvalho

#HIVer

Sermos campeões europeus no combate a uma doença terrível não dá direito a comoção nacional, nem a emissões televisivas em que se projetam as traseiras do autocarro onde seguem os homens e mulheres que operaram este pequeno milagre. Há 20, 30 anos, o VIH/Sida figurava entre os temas proibidos em Portugal. O país estava na lama das estatísticas. Éramos uma das nações do Velho Continente onde surgiam mais casos de infeção. Passado este tempo, e uma autêntica revolução silenciosa, conseguimos ombrear com a Dinamarca, Islândia, Suécia, Grã-Bretanha ou Irlanda do Norte. Por isso é que as Nações Unidas elogiaram o desempenho de um país periférico que se soube fazer grande. É uma vitória política, sem dúvida, deste e de governos passados, mas é, sobretudo, uma prova acabada de que, tal como na descriminalização do aborto e do consumo das drogas, quando nos unimos em torno de uma estratégia e não a mudamos de cinco em cinco minutos, somos capazes de dar sentido àquele ideal por vezes esquecido chamado "interesse nacional". Mas estes bons resultados são o reflexo de outra coisa: o Serviço Nacional de Saúde, tão maltratado e depauperado, ainda tem a capacidade de brilhar nos palcos internacionais. No fundo, é apenas Portugal a ser Portugal, na costumeira esquizofrenia que nos embala há séculos. Somos capazes de pior e do melhor. É HIVer para crer.

Pedro Ivo Carvalho

Pelas horas da morte

Só quem nunca recorreu a uma unidade hospitalar pode duvidar do papel fulcral desempenhado por enfermeiros, assistentes e técnicos de saúde. É sobre os seus ombros que pende, em larga medida, o esforço diário reservado ao acompanhamento dos doentes. Físico e psicológico. A abnegação com que cumprem a sua missão não é, todavia, recompensada financeiramente pelo Estado. Há largos anos. Ora, é neste contexto de grande saturação pessoal e precariedade profissional que a redução das 40 para as 35 horas acabou por ser uma conquista importante, na medida em que, de forma indireta, representaria um suposto ganho na qualidade de vida e uma valorização efetiva do tempo de trabalho. Mas o país de hoje não é o mesmo de 2011. E a teoria política, ancorada no princípio demagógico seguido à risca por este Governo de que é possível dar tudo a todos, não teve correspondência prática.

Pedro Ivo Carvalho

#Infarmedo

Lisboa não tem medo de nada até ao momento em que alguém ousa questionar essa sobranceria disfarçada de coragem. O caso do Infarmed é o pior e o melhor retrato desse país bolorento que medra, impante, no eixo Cascais-Chiado. Rebobinemos a fita: o Governo da nação quis dar um rebuçado ao Porto depois da cidade perder a corrida pela sede da Agência Europeia do Medicamento. Proposta súbita: mude-se o Infarmed para lá. Caiu o Carmo e a Trindade. Literalmente, porque o Carmo e a Trindade foram, em tempos, dois dos mais proeminentes conventos do Bairro Alto. Reação epidérmica: não pode ser. Porque o Infarmed é demasiado importante, lida com matérias complexas e, além do mais, mexer no que está bem é antipatriótico. Junte-se a isto a parte em que os trabalhadores do instituto público terão de mudar-se de armas e bagagens para a província... perdão, para o Porto, e temos construída a esforçada narrativa da resistência. Ora, uma comissão independente concluiu, agora, que o Infarmed afinal não é assim tão bem gerido e que a mudança para o Porto comportaria benefícios para o seu funcionamento e eficiência. E que, pasme-se, até ficava mais barato ao Estado. Prontamente se insurgiram os novos Velhos do Restelo, anunciando uma tempestade cósmica pós-deslocalização. Não, isto não é uma guerra norte-sul. Mudar o Infarmed é acabar com um vício que não se cura com medicamentos. O Porto deve querer tudo. Não deve aceitar menos do que tudo. Nunca uma delegação de faz de conta. Paliativa.

Pedro Ivo Carvalho

Haverá limites para Marcelo?

Pode uma imagem definir um homem? E pode uma imagem definir um político? E se esse político for uma projeção constante de imagens, de milhares de fotogramas difusos, em distintos contextos, sem critério de importância, quantidade inesgotável e qualidade ocasional? Até onde vai, ou pode ir, o ascendente mediático de Marcelo Rebelo de Sousa? Haverá limites para a sua ubiquidade? E, acima de tudo, quererá o presidente da República impor travões a si próprio, quando essa convergência com o quotidiano lhe tem granjeado tantos lucros? Como se define, hoje, este homem multiplicado? Já nos habituámos a tudo em Marcelo. Quando ele desmaiou, há dias, num pico de calor, sentimos um aperto no peito como se tivesse sido com um tio ou um primo. Alguém que está ao nosso redor todos os dias. A normalização da sua comparência ajuda a tolerar até as excentricidades. Mesmo quando o presidente da República de Portugal se transforma num comentador dos jogos da seleção no Mundial de futebol. Em direto nas televisões. Meia dúzia de minutos depois da partida terminar. Marcelo alimenta-se dos momentos de união nacional com o mesmo talento com que o faz nas tragédias coletivas. É a bandeira à janela da nação efusiva e o antidepressivo que ameniza os ciclos negros. Os portugueses elegeram um homem que se transformou numa entidade. Mas esse homem-entidade que, há uns meses, numa madrugada fria, se sentou no chão com um sem-abrigo - no que resultou, porventura, na mais poderosa imagem do alcance social da Presidência - não pode querer ser sempre um cidadão comum. Porque não é. A humanização cunhada no cargo é uma virtude que decorre da sua natureza. Só que o exagero que se tornou vulgar elimina as distâncias necessárias. Marcelo precisa todos os dias de Portugal. Não é líquido que Portugal precise todos os dias de Marcelo.