
Arquivo JN
Com as linhas telefónicas "saturadas", valeu a "colaboração de radioamadores da Madeira" para que informações sobre o primeiro grande desastre aéreo português chegasse às páginas do "Jornal de Notícias".
No dia 19 de novembro de 1977, pouco antes das 10 da noite, no meio de chuva intensa, o "Sacadura Cabral", um Boeing 727-200 da TAP, que provinha de Bruxelas via Lisboa, tentou aterrar pela terceira vez na pista 24 do então Aeroporto de Santa Catarina, em Santa Cruz. O comandante sabia que tinha uma última oportunidade, caso contrário o voo teria de ser desviado para Las Palmas (Canárias). Essa última oportunidade revelou-se trágica para o voo TP425 que seguia com 164 pessoas a bordo.
"O avião tentou aterrar três vezes. A terceira foi fatal", escreveu o JN na edição do dia seguinte ao acidente. De acordo com os relatos, o Boeing aterrou muito para além do normal na curta pista do aeroporto. Entrou em aquaplanagem (deslizou pelas águas da chuva) e saiu pela cabeceira da pista, partindo-se em dois. Parte da aeronave ficou em cima de uma ponte e a outra caiu sobre a praia, a mais de 130 metros, e foi consumida pelas chamas.
Por entre o fogo e a chuva, foram retiradas com vida 33 pessoas. Morreram 131 naquele que o JN chamou o "primeiro desastre da TAP". Os relatos dos sobreviventes e dos socorristas coincidiam nas descrições: "eram mortos, gritos e um grande fogo".
António Ramalho Eanes, presidente da República, enviou um telegrama com as condolências e foi criada uma comissão de inquérito que rapidamente se deslocou à ilha para tentar perceber as causas do acidente. Mário Soares, primeiro-ministro, também emitiu uma nota de pesar horas após o desastre.
Entre os passageiros, 41 tinham embarcado em Bruxelas e 114 em Lisboa. A maioria viajava de férias, mas havia também casais em lua de mel, empresários que viajam em negócios e a tripulação da TAP.
Como consequência deste acidente, a TAP deixou de operar o modelo 727 da série 200 para a Madeira, passando apenas a operar o 727-100, cinco metros mais curto, e fez-se primeiro aumento da pista de Santa Catarina, de 1600 para 1800 metros.
Logo após o acidente, começou a falar-se na necessidade de aumentar a pista, mas só a 15 de setembro de 2000, foi inaugurada a nova pista, com 2781 metros. Pela primeira vez, foi possível a aterragem de aeronaves de grande porte na ilha da Madeira. A obra de ampliação do Aeroporto da Madeira é ainda hoje conhecida como uma das maiores obras de Engenharia efetuadas em Portugal, tendo sido premiada nacional e internacionalmente.
