Covid-19

Requisição do Estado deixa lares e cuidados continuados sem máscaras

Requisição do Estado deixa lares e cuidados continuados sem máscaras

A requisição estatal da produção de máscaras, batas e luvas está a deixar os lares de idosos e cuidados continuados sem material para cuidarem dos seus utentes.

Na terça-feira, o Ministério da Saúde requisitou a laboração total da única fábrica portuguesa de produção em massa destes produtos, a Bastos Viegas, de Penafiel.

Numa comunicação aos seus clientes, a fábrica informou que todas as encomendas estão canceladas, pois não podem interromper a cadeia de fornecimento do Estado para satisfazer entidades privadas.

O problema é que algumas dessas entidades privadas cuidam de dezenas de idosos em risco, como é o caso da Santa Casa da Misericórdia de Celorico de Basto, que tem 60 utentes de lar, 24 de cuidados continuados e 17 de apoio domiciliário. A média de idades daquele lar é de 87 anos e 60% estão acamados. Ou seja, estão todos nas faixas etárias com maior taxa de mortalidade por Covid-19. "Temos esta gente toda ali e estamos a ficar com o stock no fim, temos talvez até ao fim do mês", denuncia Conceição Bessa Ruão, diretora-geral da Misericórdia de Celorico de Basto.

A responsável de Celorico de Basto também recebeu o e-mail da fábrica Bastos Viegas a confirmar que as encomendas estavam canceladas porque toda a produção estava destinada à requisição do Estado. Perante a falta de stock, a situação é de grave alarme, acrescenta a diretora-geral: "Estamos em pânico. Se eu entro em casa de uma família para apoio domiciliário, tenho de mudar de luvas, bata e por aí fora. Como é que a gente vai trabalhar?".

A emergência com a falta de fornecimento está longe de se circunscrever ao Norte. Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas, tem uma lista de queixas e revela que "a situação é generalizada, é em todo o país". O dirigente contactou, ontem, o secretário de Estado da Saúde, António Sales, para lhe dar conta do problema: "É uma falta absoluta com que estamos".

A Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) está a fazer um levantamento, a nível nacional, para aferir as necessidades das IPSS e misericórdias no sentido de proceder à distribuição logo que as encomendas do Estado cheguem. "Estamos a trabalhar nesse sentido, mas não lhe posso dizer mais nada a nível de prazos", ressalva o padre Lino Maia, presidente da CNIS.

Questionado, o Ministério da Saúde disse que foi constituída uma task force para avaliar as necessidades do Serviço Nacional de Saúde, que vai também analisar o uso de proteção por outros profissionais prioritários. A fábrica Bastos Viegas não respondeu até ao fecho desta edição.

Novos utentes podem ser admitidos mas fazem quarentena

A diretora-geral da Saúde apelou a todos os lares que não deixem de receber doentes, mas que cumpram o período de isolamento de 14 dias de todos os doentes novos que entrarem, mesmo sem sintomas.

"Temos de aprender a lidar com a situação", disse Graça Freitas, sublinhando que, se um doente apresentar sintomas de Covid-19, "deve ser retirado da zona coletiva e isolado, até ser testado" para não não haver riscos de contaminação.

26 euros é o preço de uma caixa de 50 máscaras descartáveis. Em dezembro, custava 1,20 euros. Manuel de Lemos já fez queixa à ASAE por suspeitas de especulação de preços.

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