Opinião

A última porta dos idosos

A última porta dos idosos

Sábado, final da manhã, a assistente social tenta uma e outra vez ligar para as várias entidades do setor social. Uma senhora com 81 anos foi literalmente "despejada" no serviço de urgência do Hospital de São João.

História de demência, vítima de agressões pelo marido, com conhecimento do filho, que não se disponibiliza para acolhimento. Foi encontrada a deambular na via pública de pijama e com deficientes cuidados de higiene. Foi sinalizada à Linha Nacional de Emergência Social e ao Gabinete de Atendimento e Informação à Vítima e procurada resposta temporária em casa-abrigo. Não funcionam ao fim de semana, não têm lugares disponíveis, não se adequam às suas características.

Na segunda-feira, retomam-se os contactos com as instituições. LNES encaminha para o CDSS, que faz chegar o processo ao SAAS. É tentada novamente a referenciação para casa-abrigo, sem resposta. Muitas siglas, nenhuma solução. A situação é comunicada ao Ministério Publico. A senhora está há 58 horas no serviço de urgência, sem necessidade de cuidados diferenciados. Não é digno mantê-la mais tempo nesta área, pelo que se decide internar, tendo a perfeita noção de que, a partir desse momento, para a Segurança Social deixa de ser urgente e a idosa pode ficar meses no hospital.

PUB

Este caso real ilustra o recente estudo publicado pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, que identifica mais de mil pessoas internadas nos hospitais, apesar de terem alta clínica, cujo custo anual pode chegar aos 124 milhões de euros. As causas diretas residem na falta de lugares na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas, bem como na incapacidade de resposta de familiares ou cuidadores. Mas o problema deve-se à ausência de políticas de articulação entre a saúde e o setor social, de respostas na comunidade, de agilização dos processos de referenciação, e de uma enorme burocracia na máquina da segurança social. As pessoas passam a ser números, analisados em horário de expediente.

Um idoso internado no hospital representa um risco de infeção e de deterioração cognitiva. O protelar das altas tem um custo clínico, social e económico. O inverno do envelhecimento e das demências está a chegar, de forma inexorável, mas prevista. Todavia, não se vislumbra uma política consistente, de forma a podermos preparar-nos para este choque geracional. A última porta dos idosos, o serviço de urgência, mantém-se sempre aberta, mas não é a mais humana.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG