Opinião

Prémio? Não, obrigado

Prémio? Não, obrigado

Foi publicada recentemente a portaria que estabelece "as regras quanto à elegibilidade, composição, determinação e atribuição aos gestores públicos, que exerçam funções executivas em entidades públicas empresariais integradas no Serviço Nacional de Saúde, de uma remuneração variável associada ao reconhecimento e incentivo da boa gestão".

Na prática, o diploma elenca as condições para a atribuição aos membros dos conselhos de administração dos hospitais (não confundir com administradores hospitalares) de um prémio associado ao bom desempenho.

Independentemente do princípio, do qual penso ninguém discordará (valorizar a qualificação do exercício de gestão, que se poderá traduzir em melhores cuidados de saúde), a questão que se coloca é se faz sentido no tempo, no modo e na forma.

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Enquanto se discutem os meios para motivar e reforçar as condições de trabalho dos bombeiros, no meio de um país a arder, faz sentido publicar uma decisão que tenderia, de forma isolada, a aumentar a retribuição financeira dos comandantes das corporações?

Antes de se promover a autonomia dos hospitais, numa altura em que a decisão estratégica (e a operacional) continua centralizada, faz sentido prometer prémios a quem não possui condições para se responsabilizar pelos resultados?

Num contexto de subfinanciamento hospitalar e com um modelo de injeções extraordinárias de capital para amortecer dívida (nomeadamente das unidades mais desequilibradas), sem se conhecerem os fundamentos, nem serem públicas as decisões, faz sentido avaliar realisticamente os indicadores económico-financeiros das instituições?

Num sistema em que a autorização para a contratação de médicos é decidida centralmente, atingir determinados objetivos clínicos estará totalmente dependente da decisão local?

Na fase em que não podemos reconhecer o desempenho dos profissionais pelos resultados em saúde, faz sentido premiar o desempenho das lideranças nessa obtenção?

Numa visão moderna de gestão, em que se tenta qualificar o trabalho em equipa, não será contraproducente começar por individualizar profissionais que devem ser distinguidos, e logo os superiores?

Enquanto as tropas não forem valorizadas, os generais não poderão ser premiados, com o risco de criar desconfiança, desmotivação e caos no exército. Os profissionais não compreenderiam e os utentes também não.

Por isso, sem populismo ou demagogia, mas de uma forma extremamente objetiva e pragmática. Prémio? Não, obrigado.

"O fraco rei faz fraca a forte gente." Luís de Camões.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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