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Rosário Gamboa

O rasto da sombra

Há um certo clima político e moral que se vem instalando no espaço das redes sociais e nos média que me perturba. Falo de uma cultura da vulgaridade, da grosseria sem travão, da frivolidade manifesta na facilidade com que se afirma, sem pudor, o egoísmo mais tacanho, se assume o desinteresse pela verdade em prol da conveniência do que "me dá jeito", e tudo isto é expresso na enxurrada selvagem de uma linguagem primária, sem decoro, que transforma as palavras numa exibição de força e violência.

Rosário Gamboa

Violação

Uma mulher inconsciente, caída na casa de banho de uma discoteca, é violada por dois homens. Em tribunal de primeira instância os violadores são condenados a quatro anos e meio de pena suspensa. O Ministério Público recorre, pedindo condenação a pena efetiva, mas o Tribunal da Relação do Porto (TRP) mantém a sentença. Segundo os respetivos juízes, "a culpa dos arguidos situa-se na mediania", no contexto de uma "noite com muita bebida" em "ambiente de sedução mútua", "ocasionalidade"! Ou seja, uma mulher inconsciente seduz, o álcool é visto como fator de ponderação atenuante e a ilicitude cometida é mediana pois "não há danos físicos (ou diminutos), nem violência"!

Rosário Gamboa

À deriva 

A minicimeira europeia preparatória, dedicada à migração e ao asilo, foi um sinal ilustrativo da incapacidade da governação europeia: esteve quem quis, pois não há política comum naquela que é hoje a questão mais estruturante da UE, nem capacidade para impor o cumprimento de regras e tratados aos respetivos estados-membros. Pelo contrário, a postura frouxa da Comissão tem favorecido quem não cumpre deveres, como o de socorro e asilo, consagrado no Direito Internacional e nos critérios que postulam as condições de adesão de um país à UE.

Rosário Gamboa

A desigualdade que persiste…

Ter um curso superior garante um trabalho com melhor salário. Mas há um fator capaz de perturbar esta realidade feliz. Se for uma mulher, para igual trabalho realizado por um homem, o salário será diferente podendo a diferença atingir, em Portugal, os 600 euros mensais, se no exercício de lugares executivos ou de direção. Estes são, entre outros, os números revelados pelo estudo Igualdade de Género ao longo da Vida, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenado pela socióloga Anália Torres, apresentado esta segunda-feira.