
O barco afundou em menos de 15 minutos. Sem radiobaliza, ninguém ficou a saber que naufragaram. Restou aos seis tripulantes esperar. 57 horas depois, a 30 quilómetros, a ajuda chegou "por acaso". Reacende-se a luta por mais segurança para os pescadores.
A balsa onde os seis tripulantes do "Virgem do Sameiro" resistiram - "conversámos pouco e rezámos muito", descreveu o mestre José Manuel Coentrão - navegou quase 50 milhas (cerca de 91 quilómetros) para lá do local onde a embarcação se afundou. E sem qualquer instrumento de localização, só um golpe de sorte fez com que os homens fossem encontrados por um helicóptero da Força Aérea, numa missão que nada tinha a ver com as buscas (foram concentradas noutra zona, a cerca de 30 quilómetros).
Quando avistou o helicóptero, José Manuel Coentrão sentiu-se renascer. E não tem dúvidas: foi milagre de Nossa Senhora de Fátima. Agora, ao lado do presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, José Festas, luta por "mais meios de comunicação" para os barcos.
"As embarcações com menos de 15 metros [o "Virgem do Sameiro" tinha 14] não são obrigadas a ter radiobalizas. Nunca achamos que vai acontecer o acidente", explica. O "Virgem do Sameiro" não tinha o equipamento.
Se o tivesse, explica José Festas, "no momento do naufrágio o sinal de alerta com a localização exacta da embarcação era recebido no MRCC (Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo)". O equipamento, portátil, até poderia ser levado pelos tripulantes, a fim de ir emitindo os avanços e recuos da balsa. Por isso mesmo, o "Virgem do Sameiro" deve servir, agora, "de exemplo".
Até porque o naufrágio ficará na memória de José Manuel Coentrão, Prudenciano Pereira, Manuel Oliveira ("Navegante"), António Fernando Maravalhas ("Cherne"), João Coentrão e Vladyslav Tereskhov. Ontem, com os tripulantes (faltou apenas Maravalhas, ainda no hospital), o mestre explicou o naufrágio.
"Felizmente, não estava a dormir. Vínhamos da faina e, à meia--noite, decidi dar descanso ao pessoal. Por volta das 2 horas, senti o barco um pouco inclinado a estibordo e, quando entrei no dormitório para chamar o vigia, já fui debaixo de água. Acordei-os a todos e só deu tempo de atirar a balsa para a água, levar o edredão que tinha na cama e tentar coordenar a entrada para a balsa", contou. O mestre garante que não sentiu qualquer "rombo" e continua sem explicação para o "súbito" naufrágio: demorou 15 minutos.
Depois, seguiram-se 57 horas à deriva numa pequena balsa com muito frio, chuva e vento. Lançaram dois fachos e dois "very lights". Com a lanterna, tentaram fazer sinais de luzes a navios que passavam ao largo. Tiraram as camisolas do corpo e acenaram. Nada. Ninguém se apercebeu.
No segundo dia, Maravalhas entrou em pânico. O mestre admite que foi o momento mais duro: "Eram gritos horrorosos, dava pontapés na balsa, não estava nele e estava a pôr-nos em risco. Tivemos de amarrá-lo e amordaçá-lo".
