Entre-os-Rios. Associação que apoia famílias de tragédia prepara casa-abrigo para vítimas de violência doméstica

Queda da ponte de Entre-os-Rios, há 25 anos, vitimou 59 pessoas e 36 corpos nunca foram recuperados
Leonel de Castro
No momento em que se cumprem 25 anos da queda da ponte de Entre-os-Rios, esta quarta-feira, 4 de março, associação que apoia famílias enlutadas soma novo projeto e quer criar casa-abrigo para vítimas de violência doméstica.
Presidente da Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios, Augusto Moreira, revela novos projetos para a entidade que, nos últimos 25 anos, tem dado apoio jurídico, psicológico e psicossocial às famílias das 59 pessoas que perderam a vida com a queda da ponte Hintze Ribeiro. "Para nós, o que nos falta fazer é construirmos. E o desafio é construir uma casa-abrigo para vítimas de violência doméstica, que vai ser neste local onde estamos, porque é um projeto muito lindo, pioneiro, e naturalmente porque isso já era uma mais-valia para as famílias perceberem que continuam a demonstrar e a viver a dor com dignidade e com responsabilidade", declarou }a TSF, esta quarta-feira, 4 de março, o presidente da associação.
A sede mantém-se, mas o objetivo é agregar uma nova dimensão no apoio social. "Vamos construir esse projeto, caso o IHRU [Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana] nos apoie", avança Augusto Moreira. E acrescenta: "É um projeto inovador, com autonomia para as vítimas de violência doméstica, mas que vai ao encontro das necessidades da associação, o apoio psicológico, o apoio aos familiares."
Para lá dos diversos tipos de apoio, atualmente a plataforma em Entre-os-Rios serve também "como centro de acolhimento, que apoia jovens em situação de risco". "Essa resposta tem sido um êxito, temos mostrado a parte humana da instituição, o que se tem tem-se verificado nos jovens que acolhemos", afirma Augusto Moreira. Um trabalho que visa também aliviar a "ausência das pessoas" que a tragédia provocou.
Recorde-se que pelas 21.15 horas de 4 de março de 2001 parte da ponte Hintze Ribeiro que ligava Entre-os-Rios e Sardoura, Castelo de Paiva, caiu arrastando consigo um autocarro que regressava de um passeio às amendoeiras em flor, em Trás-os-Montes, e mais três carros. Ao todo, a tragédia levou com ela 59 vítimas, 36 das quais os corpos nunca foram encontrados e recuperados, dificultando o luto e avolumando o trauma.
Hoje, um quarto século depois de um dos maiores acidentes rodoviários ocorridos em Portugal num episódio chocante para a sociedade, Augusto Moreira diz que a associação foi uma forma de dizer que era preciso "estar presente", unidos. "Começámos logo a perceber que as instituições públicas iam abandonar Castelo Paiva, e com esta união conseguimos criar gabinetes psicossiais para acompanhamento psicológico, dizer queo Estado não poderia abandonar o local de imediato", recorda o presidente.
Ações locais, pessoais, mas também públicas e institucionais. "Tentámos com o processo-crime que as coisas não morressem solteiras, o que infelizmente veio a acontecer e foi outro trauma para nós, outra vivência, mas ficou o nosso sentimento de dever cumprido quando conseguimos um julgamento que foi inédito. Na altura, em 2005, haver institutos públicos no banco dos reús já foi uma grande vitória. Foi um momento de partida para muitos processos que vieram a surgir no âmbito da administração pública e até com políticos", analisa o responsável em declarações à TSF.

