
Especialista deixa estratégias para combater esta situação a dois
Foto: Artur Machado
O desinvestimento silencioso começou por se tornar conhecido no universo laboral, mas está a saltar para a componente emocional dos casais. Psicóloga explica o que é o "quiet quitting" nas relações e revela como lidar e como o superar.
Conversas cada vez mais superficiais, afeto mecanizado e falta de planos a dois começam por ser sinais de que a relação amorosa está a começar a fragilizar-se. As saídas a dois começam a reduzir-se e deixa de haver espaço para criar memórias novas ao mesmo tempo que se tenta evitar o conflito, enterrando vagarosamente o debate de ideias no silêncio. Um processo que caminhará para uma sensação de solidão acompanhada. Estes são sinais claros do início de um desinvestimento de uma relação que outrora se tingia de outras cores, resultando no chamado quiet quitting.
A expressão em inglês ganhou força na pós-pandemia e muito associada ao mercado laboral, com as pessoas a desistirem progressivamente do empenho. Agora, o conceito alarga-se e entra pelo romantismo adentro para descrever o crescente afastamento emocional do outro e que se manifesta nos pequenos gestos e hábitos do quotidiano.
Mas quererá isto dizer que se está a caminho do fim do amor? Não. "Ao contrário do que se possa pensar, o quiet quitting no amor não significa, necessariamente, falta de amor", salvaguarda a psicóloga clínica Isa Silvestre. A especialista refere, antes, que a situação reflete, "muitas vezes, cansaço, comodismo, frustração acumulada ou uma sensação de que 'já não vale a pena tentar'". Mais do que a falta se sentimentos, estamos diante de uma "ausência de iniciativa e de participação ativa na vida a dois", explica. Um "fenómeno silencioso", mas com" impacto real na saúde emocional dos casais". "Não é sinal de fracasso, mas sim que a relação precisa de atenção, diálogo e cuidado", detalha.
Entre os motivos que fazem chegar os casais a este ponto, Isa Silvestre, também autora do livro Gerir 1 Ano de Stress, enumera o "cansaço emocional, quando os conflitos se repetem e parece não existir solução, o comodismo, os sentimentos magoados acumulados e nunca reparados, o medo da mudança" e, no limite, "a falta de amor porque "o sentimento esmoreceu e o desinvestimento é a forma silenciosa de evitar o fim".
Contudo, a psicóloga clínica vinca que é possível interromper e reverter esta curva descendente no amor, mas tudo depende da "disponibilidade de ambos para voltarem a investir no relacionamento". Entre as soluções, Isa explica que "conversar abertamente sobre o afastamento é o primeiro passo para reaproximar" porque "o silêncio só reforça a distância". Depois, "os pequenos gestos diários podem reativar a ligação: um elogio, um toque, um agradecimento, dez minutos de conversa sem telemóveis", sugere.
Um processo de recuperação que deve passar por "rever necessidades emocionais e expectativas" de ambos. No limite, a ajuda profissional pode ser uma solução. "A terapia de casal é particularmente eficaz quando existem bloqueios de comunicação ou mágoas acumuladas. É um espaço seguro para reparar, reorganizar e recuperar a ligação", recomenda. Afinal, como conclui Isa Silvestre, "com consciência e investimento mútuo, muitas relações conseguem reencontrar o caminho que perderam pelo desgaste do quotidiano".

