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Sérgio Conceição: "Sou uma pessoa extremamente feliz com a família e a profissão"

Sérgio Conceição: "Sou uma pessoa extremamente feliz com a família e a profissão"

Sérgio Conceição, treinador do F. C. Porto, deu uma entrevista um pouco mais intimista ao programa "Primeira Pessoa", conduzido pela jornalista Fátima Campos Ferreira, que foi para o ar esta segunda-feira.

Com o rio Douro como pano de fundo, o técnico começou por falar sobre o feitio ímpar que o caracteriza. Senhor de "cenho franzido", como a jornalista apontou, Sérgio Conceição afirmou ser "de sorriso fácil". "Sou uma pessoa que está amarrada a muitas coisas que aconteceram na minha vida, mas sou uma pessoa extremamente feliz com a família e com a profissão que tenho", salientou.

O treinador azul e branco também falou sobre o dia a dia na cidade do Porto. "A minha rotina é sair às 6.30 horas da manhã e correr, passo muitas vezes em frente ao sítio onde estamos [ribeira do Porto]. Venho da Foz e vou para o Olival a pé mais do que uma vez por semana e corro todos os dias nesta zona e faço-o com muito gosto. Passo pela Cantareira, Ribeira, Ponte D. Luís e ouço coisas muito engraçadas", referiu.

E contou um episódio passado com um adepto durante uma dessas corridas: "Ia numa das minhas corridas e passou um senhor com o filho e disse «ainda nos deves um campeonato», não foi «parabéns por ganharmos dois em três», mas devo-lhe um campeonato que perdi".

E recordou os "meninos da Ribeira" que correm vários metros atrás dele quando passa pela ponte D. Luís. "Sinto-me um filho da casa", afirma Sérgio Conceição.

O técnico referiu ser uma pessoa causas, revelando o sonho de dirigir uma instituição de solidariedade social na terra onde nasceu e que lhe é muito querida, a Comunidade São Francisco de Assis. "É um sonho, gostava muito", reconhece.

Homem de fé, o treinador azul e branco contou também que reza diariamente. E prosseguiu: "Lembro-me de ser pequeno e falar com Jesus de uma forma muito natural, como um amigo. Pedir, peço pouco, mas não tenho nenhuma vergonha de todos os dias me ajoelhar para rezar e agradecer a Deus tudo o que continua a proporcionar na minha vida a mim e à minha família. Deus é companheiro, é o melhor companheiro".

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O célebre jogo contra a Alemanha, no Euro2000, no qual apontou três golos também foi lembrado. "Durante o Europeu não pude festejar, mas quando acabou pude celebrar a boa caminhada que tivemos. Foi um jogo de afirmação, pois eu era chamado do 12.º jogador, estava próximo da titularidade, mas não era titular. Na altura pensei na grande felicidade de complicar a vida ao Humberto Coelho", lembra entre sorrisos.

Salto para Itália

Sérgio Conceição também falou sobre a passagem por Itália, pelas cidades de Roma, Parma e Milão. "Na altura foi um passo importante na minha carreira, era o campeonato mais importante na altura e com mais dinheiro, melhores contratações, melhores jogadores, o o nível do campeonato muito melhor do que os outros e foi a oportunidade única de me afirmar no mundo do futebol. Sair do F. C. Porto, clube já com o seu peso e história, e ir para um campeonato ainda mais competitivo e com outros desafios", explicou.

O técnico não encontra diferença entre Portugal e Itália no que ao comando das equipas diz respeito. "A liderança é igual em todo o lado, depende do que é que se lidera, que grupo se tem à frente e depende da pessoa que está a liderar", ressalva, recordando o caráter forte de Diego Simeone e Roberto Mancini.

O treinador portista afirma não sentir as amarras que o Mundo do futebol tenta impor. "O que penso, normalmente, digo, sou muito frontal. Não quer dizer que, às vezes, tenha tido alguns dissabores por isso, mas não me arrependo das guerras que fiz", atira.

A frase "fico infeliz com as derrotas e não fico feliz com as vitórias" foi explicada por Sérgio Conceição. "É exatamente esse o meu sentimento. Perder não é normal, ganhar é normal. Quando perco vou para o computador trabalhar e fica difícil dormir, principalmente não pelo resultado mas pela estratégia que é montada e não é feita no campo", justifica.

Amor pela família

O tempo em família, como não poderia deixar de ser, também foi tema de conversa. "Valorizo muito aquilo que é a hora da refeição, principalmente à noite que é quando estamos todos juntos. Ninguém mexe no telemóvel à mesa", frisa, anotando que apenas o dele está ligado: "O meu está sempre com som por causa do trabalho".

E quando o tema é a mulher Liliana, Sérgio Conceição fez uma declaração de amor: "É a pessoa mais importante da minha vida, depois dos meus pais, ela e os meus filhos. Desde miúdos. Ela andava numa escola preparatória e eu na secundária e foi num bailarico de aldeia [que se conheceram]. Dançamos 'slows' que era para estarmos mais perto, foi fantástico. E continua a ser a mesma pessoa que conheci com 14 anos e cada vez mais continuo muito apaixonado pela minha mulher, pelos meus filhos e pela vida".

Infância em Ribeira de Frades

Sétimo de oito filhos, o técnico do F. C. Porto recordou a infância ainda com ambos os pais vivos. "Eram tempos muito difíceis, mas felizes. Havia o conforto de nós termos os nossos pais. Lembro-me dos Natais com comida q.b. para a família, lembro-me da felicidade de poder estar com a minha mãe, o meu pai e os meus irmãos à lareira, mas tempos muito difíceis, onde havia muita dificuldade da parte dos meus pais em proporcionar-nos aquilo que era o mínimo", contou.

Na escola, mostrava aptidão para aprender. "Era um miúdo esperto, passava com alguma facilidade, os meus pais eram analfabetos e deixavam-me sempre alguma liberdade, mas já em miúdo com essa liberdade vinha também a responsabilidade de não ter de chumbar de ano", salienta, revelando que as férias eram passadas a trabalhar com o pai, "a assentar cimento nas obras".

E continua: "Não era infeliz por isso, via isso como algo que tinha de fazer. Gostava de brincar com os outros miúdos, não tinha muitas vezes tempo para isso, mas com 12 ou 13 anos já sentia essa responsabilidade de ajudar os meus pais. Também vendi nas feiras nas terrinhas perto da minha. Acho que foi o período da minha vida onde me desinibi em termos comunicacionais e de como era a relação e a forma como comunicava com as outras pessoas, porque era um miúdo introvertido e tímido".

Sérgio Conceição contou ainda que o gosto pelo futebol começou na rua e depois na escola. "Foi aí que a professora Filomena me viu e como tinha ligações à Académica falou com os dirigentes para fazer umas provas e fiquei e com 9 ou 10 anos começou o meu percurso na Académica", lembrou.

Quando aos 16 anos chegou o convite para ir para os juniores do F. C. Porto, o técnico conta ter chegado muito feliz a casa no dia em que assinou o contrato, anotando que "o dia seguinte foi marcante". "No dia seguinte, perdi o meu pai, são todos momentos muito marcantes na minha carreira", recordando o momento em que estava num café da aldeia quando foi informado que o pai tinha tido um acidente e estava mal. "Correu da pior maneira e de todas as dificuldades de que falávamos, a grande dificuldade foi exatamente essa, perder uma pessoa que amava e amo muito".

No entanto, é a morte da mãe que considera ter sido o "momento mais difícil da vida". "A perda da minha mãe, dois anos depois, tive praticamente para deixar de jogar futebol e desistir. Havia e há um amor muito grande meu para com os meus pais", afirmou, visivelmente emocionado, explicando porque o falecimento da mãe foi o mais difícil de todos: "A minha mãe teve muitos problemas durante a sua vida, agudizados pela morte de um irmão meus aos 12 anos, tinha eu quatro, e ela viveu em constante sofrimento, não pela pela dificuldade da vida em termos financeiros, mas também pela perda do filho. Foi muito marcante para ela".

Sérgio Conceição reconhece que todos estas tragédias o moldaram como pessoa: "Esses momentos muito marcantes foram importantes na definição do meu caráter".

O regresso à casa que era dos pais, ajudam-no a recuperar memórias dos tempos felizes e a saber situar-se. "No fundo, apesar de tudo, sou um sortudo", salienta.

Sérgio Conceição, o treinador

De volta ao tema futebol, agora como timoneiro, o técnico evidencia o facto dos grupos de trabalho beberem muito daquilo que é a sua mensagem. "Tem a ver com essa capacidade de superação, com essa determinação. Se potenciar cada um deles ao nível máximo a equipa é que ganha com isso a todos os níveis. Estou a falar de potenciá-los ao nível técnico, tático, físico e emocional, que também é importante", salientou o treinador, frisando que faz questão de "conhecer bem os jogadores". "Atrás de cada profissional existe uma pessoa e uma história de vida. O que posso tirar deles, se conseguir mexer neles no momento certo é mais fácil conhecendo a história deles", realça Sérgio Conceição.

A roda no final do jogo, segundo o técnico azul e branco, é algo muito sentimental. "Estamos juntos com um sentido único de coesão. Ou um de nós tem uma prestação menos positiva ou algum tem uma prestação como a que eu tive contra a Alemanha, por exemplo, é importante aquele momento de partilha ou, às vezes, de silêncio", explicou.

E segundas oportunidades aos jogadores? "Dou, depende do erro, pois há situações graves no futebol em essa segunda oportunidade acaba por ser mais prejudicial do que benéfica para o grupo de trabalho", ressalvou.

Sérgio Conceição lembrou também o discurso agressivo após a derrota na Taça da Liga. "Os adeptos são uma parte muito importante naquilo que é a vida do clube e estamos a falar de adeptos que são extremamente exigentes também e apaixonados pelo clube. Foi um discurso muito para dentro, para a estrutura para que as tropas se juntassem e que fossemos verdadeiramente todos a remar para o mesmo lado", referiu, complementando: "O que tiver de dizer para no fim possamos estar mais perto de ganhar, eu digo. Da mesma forma que os jogadores se entregam ao que eu digo, da mesma forma sou o primeiro a defendê-los e a estar com eles".

Pinto da Costa

"A primeira vez que vi o presidente foi num jogo de juniores. Lembro-me no início da carreira de jogador que bastava a presença do presidente, sem falar, para nós percebermos que tínhamos de mudar algo. Tínhamos a possibilidade de conhecer o presidente e perceber o carisma e a forma de estar. Uma pessoa muito respeitada por toda a gente, não só no nosso clube, mas também no mundo do futebol, pois é o presidente mais titulado do mundo", realçou o técnico.

"O presidente tem a sensibilidade de perceber quando é necessário ir com a equipa dentro do autocarro, e há outras vezes que vai com o motorista no carro particular", explica sobre a forma como Pinto da Costa gere o contacto com o plantel principal.

Já Sérgio Conceição, quando perde vai no autocarro com a equipa, mas não fala. "Normalmente há uma azia muito grande, naquele momento nada do que possa dizer é bom, isto é, é benéfico para a equipa. Nem o presidente nem a equipa técnica me dirigem a palavra. Deixam-me estar ali a reviver o jogo que tivemos, seja positivo ou negativo, tenho ali os meus minutos para absorver e para pensar naquilo que se passou", justifica.

E salienta sobre ter colocado já o lugar de treinador à disposição: "O meu lugar está sempre à disposição do presidente. Da mesma forma que me contratou, no dia em que quiser que eu saia o contrato quebra-se nesse momento. Não tem de me pagar mais nada por isso".

Chegar à presidência do F. C. Porto um dia não é algo que lhe ocupe o tempo. "Não sou muito de fazer futurologia. Preocupo-me tanto em dar o máximo diariamente, com o que tenho de fazer hoje e no dia seguinte e organizar bem aquilo que é trabalho, que não penso muito a médio ou longo prazo", anotou.

Sobre o futuro do futebol, o treinador dos dragões salienta que "passa por investir muito na formação". "Acho que fazemos pouco ainda para a qualidade que temos. Temos muita qualidade", aponta.

Orientar a seleção também não está nos planos mais próximos do técnico: "Gosto muito de treinar, mas não me vejo a treinar já a seleção, que está muito bem servida com um grande amigo meu, o Fernando Santos. A ele falta-lhe a adrenalina diária do ter de treinar".

E como vê Portugal? "Somos um país com imensa qualidade, mas valorizamos pouco o nosso produto e o que somos como país. Podíamos e deveríamos ter evoluído mais, nomeadamente na imagem e na mensagem que passamos para fora", afirma.

A imagem do jogador de futebol como alguém com gostos extravagantes no vestuário ou nos carros, para Sérgio Conceição, não se coaduna com a realidade. "Estamos a passar por grandes dificuldades. Estamos a falar de um grupo muito restrito de jogadores que ganham muito dinheiro para poderem viver dessa forma, e há muitos outros que não têm essa possibilidade. Conheço grandes jogadores que jogaram comigo e noutros clubes e que hoje vivem em dificuldade. Forma como se ganha dinheiro é muito rápida, mas se não se for equilibrado, a forma como se gasta ainda é mais rápida", ressalva.

Quando questionado sobre o ídolo, a resposta é simples: "Deus é o meu grande ídolo".

Ausência dos pais

Olhando para tudo o que já fez na vida desde que jogava peladinhas na escola, Sérgio acredita que os pais Maria Alice e José da Conceição, onde quer que estejam, "estão orgulhosos e felizes" com dele.

"Com a vida, não tem a ver com este mediatismo todo e com estas conquistas de títulos, mas com a minha forma de ser, com o amor que tenho por eles. Todos os dias lembrar-me deles, todos os dias agradecer-lhes todo o esforço que fizeram por mim e pelos meus irmãos. No fundo é um reconhecimento diário e vivo com isso", complementa.

A ausência dos progenitores é algo com o qual o treinador do F. C. Porto não consegue ainda lidar: "Ainda não consegui essa tranquilidade, luto para a conseguir. Este lado mais negro que está dentro de mim vai continuar até ao último dia da minha vida. É uma frustração muito grande sentir que os meus pais fisicamente não estão presentes e mereciam, nem que fosse por um dia, eliminar esse lado negro se estivesse com eles".

"O meu pai era uma pessoa analfabeta, mas com personalidade muito forte e com princípios muito bons por dentro. E respeito era algo que tinha de ter por ele, pela minha mãe e pelos meus irmãos, era a palavra mais ouvida em casa e a que fica para sempre no meu coração e na minha cabeça", conclui.

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