Na noite do jantar de aniversário da minha filha do meio, não prestei, naturalmente, atenção ao jogo da minha equipa em Famalicão. Tirando umas, poucas, vistas de olhos fugazes ao ecrã, a que se juntou o silêncio das notificações do telemóvel, dediquei a minha atenção à minha filha aniversariante. Ao jantar também - um leitão muito competente, trinchado de forma irrepreensível pelo meu cunhado mais novo - e às conversas que, naquela noite, tiveram de tudo, menos de futebol.
Perante a pobreza do resultado, e apesar da responsabilidade de escrever esta crónica, não tive sequer coragem de ver, posteriormente, o jogo. Depois do vendaval dos últimos tempos, seguir o Vitória atualmente tem, para mim, o desprazer de uma obrigação.
Reparei apenas que o nosso treinador continua com o estranho tique de meter multidões de avançados, como se o golo dependesse disso e não do trabalho e criatividade do meio-campo. O futebol britânico dos anos 70 era um pouco assim. Mas essa forma de jogar ancorava-se no chuveirinho para a área. Não havendo chuveirinho, os banhistas só atrapalham...
Todas as minhas três filhas são vitorianas e sócias há muitos anos. A mais velha desligada das incidências semanais e mais virada para o aspeto cénico da coisa, a mais nova muito ligada ao lado festivo de se torcer pelo Vitória, e a do meio, a aniversariante, interiorizando o lado fatalista do futebol, a sua injustiça e a impossibilidade prática de passarmos além de uma sobrevivência ocasional, numa competição que, em Portugal, é um eufemismo.
Parabéns a ela que acredita que a essência do fatalismo é a (eventual) redenção. E é.
*Adepto do V. Guimarães

