Opinião

O hábito faz o polícia

O hábito faz o polícia

Lamentavelmente, quando o tema de polícias e fardas chega à Comunicação Social é porque, das duas uma, ou é sobre o facto de terem de pagar as suas próprias fardas e a comparticipação do MAI atrasou ou é quando se põe farda em enfardamento. Portanto, não deixa de ser refrescante quando as notícias são só sobre roupa. E, surpreendentemente, nos últimos dias houve não uma mas duas situações relacionadas com indumentária de forças de segurança.

A primeira, sobre a série "Causa própria" da RTP e a segunda que teve que ver com a fotografia de uma rapariga com um polo da PSP no metro de Lisboa.

Começando pela primeira. Parece que a PSP recebeu o pedido de aluguer de fardas e viaturas para uma série e não apreciou o guião. A Polícia fez então algumas sugestões de alteração e a produtora Arquipélago Filmes por sua vez não gostou do novo roteiro. As razões não são claras, talvez porque a ficha técnica já estava fechada e agora seria chato pedir ao editor para mudar ou então porque efetivamente a PSP não tem legitimidade de aprovar ou censurar conteúdos autorais. Resultado, a Polícia recusou-se a alugar o material.

Uma das coisas que foram pedidas para eliminar, por considerarem que iriam denegrir a corporação, foi a cena em que um agente comia uma sandes na cena do crime. Eu por acaso acho que não só não iriam denegrir a autoridade, como elevavam a Polícia. É que, desde que não se deixem migalhas espalhadas no local do crime (caso contrário poderiam achar que o assassino é alguém que gosta muito de pão de mistura quando na verdade é celíaco), comer uma bucha reforça até a precariedade que suportam as nossas forças de segurança. Mal há tempo para fazer uma hora de almoço como deve ser e há esquadras que não têm uma copa ou cantina com condições dignas para fazer refeições.

Em relação à produtora, eu entendo que o aluguer do material seria necessário para dar realismo à série, mas atenção: há lojas de artigos de festa que vendem fardas. Já estou a imaginar aquelas cenas de tensão onde um tipo, que tem 37 reféns num armazém de pirotecnia que pode explodir a qualquer momento, começa a negociar a troca de vidas humanas com um ator vestido com uma farda de napa da Mascarilha e que tem no crachá FBI Female Body Inspector. É fazer aquilo que nos acostumámos a fazer que é desenrascar e estar permanentemente à procura de alternativas para encaixar no orçamento.

Claro que como argumentista isto me levanta várias questões. Por exemplo, habituamo-nos a ver séries americanas muito suportadas pela dinâmica de "good cop/bad cop", quer isto dizer que, em Portugal, caminhamos para ter um "good cop/even better, very nice, super sweet cutchicutchi cop"? É que assim isto deixa de ser só ficção para passar a ser também científica.

Bom, a outra notícia é sobre a circulação, nas redes sociais, de uma fotografia que mostrava uma rapariga a usar um polo antigo da PSP. A polícia encetou de imediato uma caça à instagrammer e abriu uma investigação para saber quem é a prevaricadora e como é que teve acesso à peça do fardamento.

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A rapariga que de repente viu que o seu número de seguidores subir, até inclusive um cão pisteiro, entregou-se imediatamente às autoridades. Ao que parece encontrou a peça de roupa num contentor, vestiu-a inocentemente e foi apanhar o metro. Ela devia ter desconfiado que algo não estava bem quando assim que entrou na carruagem, viu demasiadas pessoas a sair para ir comprar bilhete.

E com tudo isto, o que é que aprendemos? Que é difícil ter autorização para vestir PSP e que é um crime usar fardamento oficial da Polícia, mesmo que seja de coleções antigas. E isto podia ser tudo dito pelo polícia da moda na CMTV.

Humorista

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