Opinião

Período do nojo

Vamos começar com um jogo. Se eu vos der três comentários nas redes sociais, vocês conseguem adivinhar o tema da crónica? Concentrem-se. Aqui vai: "Com a falta de natalidade, esta medida vai provocar menos natalidade ainda!"; "É para tapar buracos ou para abrir outro buraco?"; "E vinho, não??". Exatamente! É feedback de cidadãos responsáveis à proposta do PAN que vai permitir que, em 2023, produtos de higiene menstrual sejam distribuídos gratuitamente a mulheres desfavorecidas.

A proposta impactará estudantes com ação social, utentes com insuficiência económica do SNS, reclusas, mulheres em situação de sem-abrigo e teve votos a favor do PS, do PAN e do Bloco de Esquerda. Todos os restantes partidos se abstiveram. Quer dizer, combate à pobreza energética, tudo bem, combate à pobreza alimentar pode ser, agora à pobreza menstrual......ai não, que envolve mesmo fluidos e sangue. Por esta lógica, são os mesmos que recusam combate à pobreza de espírito porque não estão agora com vagar para estar a resolver os problemas de almas penadas. Não é a primeira vez que se tomam iniciativas para combater a pobreza menstrual, já em março a Câmara Municipal de Lisboa aprovou a distribuição gratuita de produtos menstruais reutilizáveis nas escolas, viabilizada com os votos contra da IL, do CDS e do Chega. E é curioso porque em 2021, para o Orçamento do Estado para 2022, a ex-deputada do PAN e atual assessora jurídica do Chega, Cristina Rodrigues, foi um dos principais rostos da campanha pela distribuição gratuita de produtos menstruais. Das duas uma: ou deixou de acreditar na causa ou quando falou disso não valorizaram porque uma mulher com opiniões próprias só pode ser TPM.

Só no ano passado é que se desceu o IVA sobre os produtos de higiene menstrual em Portugal. Ou seja, como ainda acontece em alguns estados-membros, estes produtos não são considerados de primeira necessidade, mas sim taxados ao equivalente a um Compal de maçã. Para estes países, não ter sangue a escorrer pelas pernas abaixo está ao nível da necessidade de beber um Compal de maçã, até porque aquilo não é um sumo de fruta de verdade. Não me venham com coisas. Para quem não tem os produtos adequados, tudo serve: Ou se usa o tampão demasiado tempo, o que pode causar morte por choque séptico ou choque tóxico ou então recorre-se a pedaços de pano, papel higiénico, jornais, talvez multas da EMEL que há por aí aos pontapés e todos eles causam infeções vaginais, infeções urinárias, insuficiência renal ou bloqueios da viatura por não terem pago a coima de estacionamento. Ter acesso a produtos higiénicos é uma necessidade primária, é uma questão de dignidade.

PUB

As reações negativas nas redes sociais a esta proposta fascinaram-me. Esta distribuição vai acontecer em locais como centros de saúde, como aliás acontece com a distribuição gratuita da pílula, mas nesta última a indignação não se viu. Tu queres ver que é porque os métodos contracetivos acabam por servir os interesses masculinos e na menstruação, a única vez que muitos homens ficam contentes pela existência de período é quando isso significa que não vão acabar a mudar fraldas e a ter noites mal dormidas.

O estigma menstrual existe. Já não falo da aguadilha azul dos anúncios de pensos e tampões e da energia espetacular das meninas ou pedir em sussurro um penso à amiga e esconder os tampões na manga do casaco quando se vai à casa de banho, está mais enraizado que isso. Quando se pesquisa por mulheres menstruação, um dos resultados do Google são as perguntas do wikihow em que se ensinam as mulheres a dizer a um homem que está menstruada. E a resposta é, ipsis verbis: "Seja direta e objetiva. Diga algo simples, como: Acabei de ficar menstruada e não estou me sentindo 100%". Você também pode falar algo como: "Aquela hora do mês chegou de novo..." e ele provavelmente vai entender. Muitos casais acabam inventando códigos engraçados para falar de menstruação. Ah. Eu tenho um: "Estou a libertar pela vagina pedaços de tecido mucoso do revestimento interior do útero. AHAHAHA! Giro, não é??".

Em média, uma mulher passa 3000 dias da sua vida menstruada e costuma dizer-se a uma menina que menstrua pela primeira vez "já és uma mulher!". Acho que podemos afirmar com algum grau de segurança que com 12 anos não se é mulher, é-se criança. Mas com o tempo percebi o que é que as nossas mães e avós quiseram dizer quando nos anunciavam assim, é que a partir daquele dia começamos a sentir a desigualdade de género, começando na despesa extra que vamos ter de suportar até à idade da menopausa.

*Humorista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG