Imagens

Últimas

Opinião

Ser português não é crime, mas é pecado

Primeiro, rejubilámos. Depois, enfartámo-nos. E agora regurgitamos. A comoção nacional em torno do altar-palco e do volumoso orçamento da Jornada Mundial da Juventude é apenas mais um gomo na sumarenta história de falhanços, distrações e irresponsabilidades de um país que faz tudo às três pancadas, que não planeia, não antecipa, de um país que, no fundo, é demasiado pequeno para depositarmos nele uma fé sem reservas. Seria apenas ingénuo pensarmos que não haveria custos elevadíssimos associados a um evento que vai reunir, em Lisboa, todo o mundo católico. E seria apenas tonto acreditarmos que, malgrado a frugalidade do Papa Francisco, o Vaticano aceitaria colocá-lo num palco (físico e metafórico) que não fosse condizente com a condição de um chefe de Estado que também é um líder espiritual e religioso. Em particular nesta fase, de profunda renovação interna da Igreja Católica e de intensa procura por um sentido junto das jovens gerações desencantadas.

Opinião

Normalizar ao pontapé

A bem-sucedida operação de marketing global em que se transformou o Mundial de Futebol no Catar parece ser apenas a confirmação de uma estratégia de normalização cultural das monarquias absolutistas árabes, que estão a usar o mais popular desporto do planeta como arma de sedução. Os ingleses deram-lhe o pomposo nome de "sportswashing". Ou seja, lavar a imagem do regime à conta do desporto. As acusações de corrupção, gastos faraónicos e flagrante desrespeito pelos direitos humanos e laborais marcaram a prova, mas não a definirão no futuro. Nos livros de História ficarão fundamentalmente as imagens de Messi a levantar o troféu ao lado do emir do Catar, envergando um traje árabe. De resto, a badalada mudança de Cristiano Ronaldo para o futebol da Arábia Saudita por valores obscenos é mais um capítulo desse bem urdido expediente que mascara a realidade com golos. Agora, ao que parece, soam as campainhas por Messi, a quem estarão a ser prometidos ainda mais camiões de dinheiro para aterrar num futebol a que, na verdade, ninguém liga nenhuma.

Opinião

O Brasil não pode distrair-se

Ainda é cedo para tirarmos lições definitivas sobre o ataque primitivo ao coração da democracia brasileira, mas podemos, com algum grau de fiabilidade, acolher uma certeza: a insurreição dos movimentos antidemocráticos, respaldada no sectarismo bolsonarista, não irá esmorecer. Mesmo que o grito de alerta resultante deste assalto aos Três Poderes possa, de alguma forma, unir a nação em torno dos valores fundamentais ou, pelo menos, em torno da rejeição de práticas extremistas. Mesmo que a condenação, em uníssono, dos principais representantes do Estado brasileiro tenha sido acompanhada pelo repúdio do Mundo civilizado. A cultura de purga que alimentou aquele "punhado de imbecis criminosos", como apropriadamente lhes chamou, em editorial, o jornal "A Folha de S. Paulo", não se compadece com previsões académicas tradicionais.

Opinião

Não gozem connosco

Maria diz nada saber sobre as contas arrestadas de Carla. Mas Carla terá informado Maria. Sobre o quê exatamente? Maria não esclarece. Carla só aguentou um dia em funções governativas. Fernando diz nada ter sabido sobre a indemnização de 500 mil euros paga a Alexandra. Porém, assim que descobriu, convidou-a a demitir-se do Governo. Pedro, esse, saiu sem ninguém lhe pedir, apesar de também desconhecer a existência desse cheque chorudo. Mas Hugo, secretário de Estado de Pedro, foi informado. Só que não contou a Pedro. Esse, o que se demitiu. Miguel foi para adjunto de António, envolto em várias suspeitas, e caiu empurrado pelos factos ao fim de dois meses. António lançou-lhe boias de salvação enquanto pôde. Mas não evitou o naufrágio.

Opinião

O espartilho da pobreza

Não seria honesto, nem sequer justo para largos milhares de famílias, afirmar que o apoio de 240 euros atribuído pelo Governo a mais de um milhão de agregados carenciados é um mero ato de propaganda política. Apreciemos ou não a estratégia de gestão orçamental de António Costa, trata-se de uma quantia que, infelizmente, faz a diferença na vida de muita gente. Ainda que não tire ninguém da pobreza. As ajudas públicas fazem sentido porque há demasiados cidadãos a precisar delas. Basta atentarmos na evolução dos rendimentos para percebermos que a fronteira entre as classes baixas e a média é cada vez menos visível, o que se traduz necessariamente num definhamento da qualidade de vida e, em particular, do poder de compra. De resto, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística mostram que Portugal continua a ficar para trás na maratona do crescimento e da competitividade, ocupando uma nada honrosa 16.a posição entre os 19 países da Zona Euro. Atrás de nós só mesmo a Letónia, a Eslováquia e a Grécia.