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Opinião

Apaga a luz e não faças barulho

Para um problema complexo - como o da definição do preço da eletricidade e das suas infindáveis cambiantes - não há uma resposta simples. Razão pela qual seja arriscado vaticinar quem fala verdade no arrufo entre Governo e Endesa. Talvez porque ambos tenham razão. A fatura da luz não deverá aumentar já, pelo menos até ao final do ano para os contratos antigos, mas o mais provável é que, num futuro próximo, o preço suba para consumidores e empresas, quando forem negociados novos contratos. O famigerado mecanismo de compensação criado para proteger Portugal e Espanha da subida do valor do gás natural que é utilizado para a produção de eletricidade tem a virtude de controlar a escalada de preços no imediato, mas é ainda cedo para percebermos de que forma as compensações devidas às centrais a gás vão ter um reflexo nos preços finais a médio prazo. E depois não podemos esquecer-nos do efeito-dominó causado pela seca extrema que atinge a Península Ibérica, o que obrigará certamente os fornecedores a recorrer mais ao gás natural. Donde, a fatura subirá.

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A inocência dos cardeais

Os telhados de vidro da Igreja Católica em matéria de abusos sexuais de menores são demasiado finos para que alguém possa ter a pretensão de caminhar temerário sobre um tema tão sensível e complexo. Mas há, nessa fronteira vaporosa entre a moralidade, a religiosidade e o crime, valores nucleares que não podemos remeter para o breu redentor do confessionário. Dois cardeais-patriarcas de Lisboa pouco ou nada fizeram para travar, primeiro, e denunciar, depois, um padre que, em finais dos anos 1990, terá molestado crianças. D. José Policarpo, já falecido, não afastou o clérigo de funções, depois de ter ouvido a história da boca da mãe de um dos rapazes. O abusador continuou até 2001 com responsabilidades nas duas paróquias da capital, com acesso, presume-se, a menores.

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Tremer de calor

Há duas importantes lições na história recente da União Europeia: a primeira é a de que, sempre que os países do Velho Continente se veem a braços com crises agudas, emerge a força diplomática da unidade institucional; a segunda, que decorre da primeira, é a de que o bem comum tende a beneficiar os mais fortes, que são quem normalmente redige os acordos coletivos. Na crise do gás não é diferente. Com o alto patrocínio da Alemanha, da França e de alguns países nórdicos, Bruxelas pediu aos estados-membros que poupem 15% no consumo para garantir reservas suficientes para todos no inverno, diminuindo, dessa forma, a dependência do Kremlin, que nos próximos meses vai abrir e fechar a torneira em função dos interesses da máquina de guerra. No fundo, porque é disso que verdadeiramente se trata, a União Europeia exortou os estados-membros a serem solidários com os alemães, totalmente dependentes do gás russo para se aquecerem e alimentarem a sua poderosa indústria, evitando que o desastre germânico redunde num desastre europeu.

Opinião

Apagadores de incêndios

A semana terrível que agora finda, em que o pior que podíamos esperar aconteceu, provoca em nós um sentimento de impotência, de revolta e até de alguma incredulidade. A expiação da culpa, sempre que o verão faz trepar as temperaturas e as chamas devoram, insaciáveis, a floresta, assume o protagonismo do debate, e acabamos por ver refletida nessa recaída coletiva as imagens baças de Pedrógão. Estará Portugal condenado a aceitar os fogos como uma fatalidade estival? Há cinco anos, enterramos dezenas de vítimas, o país condoeu-se, gerou-se uma onda de compromisso público e político, alteraram-se leis, mexeu-se nos dispositivos de combate, lançou-se uma batelada de dinheiro para cima do problema, que é o que fazemos sempre que queremos resolver um problema. Mas em 2022 o barril de pólvora voltou a rebentar-nos nas mãos. Temos uma das maiores áreas ardidas da Europa, registamos milhões de euros de prejuízos, perderam-se casas, empresas e culturas, contamos quase duas centenas de feridos. E um jovem piloto morreu a combater o fogo.

Opinião

Anda comigo rever os aviões

A mera sucessão cronológica dos factos é bastante para expor o ridículo em que António Costa e Pedro Nuno Santos mergulharam o país. Mas para além das manobras político-partidárias que guiaram a estratégia futebolística do primeiro-ministro no caso dos novos aeroportos de Lisboa que nasceram a uma quarta e morreram a uma quinta ("agora é levantar a cabeça e pensar no próximo jogo" deu lugar a um "os políticos também são humanos e cometem erros" e é preciso "seguir em frente") sobra a pergunta elementar: devemos esperar este grau de amadorismo noutros dossiês complexos que o ainda tenro Governo terá de enfrentar até ao fim da legislatura? Pela amostra, temos razões para temer o pior. Porque prevaleceu o instinto de sobrevivência e soçobrou a probidade e o sentido de decência.