"Casa-Abrigo". Realizador de minissérie da RTP1 "gostava que a educação dos homens mudasse"

Márcio Laranjeira é o autor e realizador da minissérie "Casa-abrigo", em exibição na RTP1
Divulgação RTP
Márcio Laranjeira é realizador, mas é também "filho da violência" doméstica que sabe "o quanto um homem violento é imparável nesse papel que é atiçado a desempenhar desde miúdo". Movido pela realidade e pela história pessoal, trouxe à luz a vida de mulheres que fogem de uma relação tóxica e verdadeiramente ameaçadora para casas-abrigo e criou a minissérie que está em exibição na RTP1.
Todas as segundas-feiras à noite, a estação pública tem mostrado, uma a uma, histórias de mulheres que fugiram da violência doméstica e que se refugiaram em casas-abrigo. Na minissérie que conta com nomes como Leonor Silveira, Maria João Pinho, Filomena Gigante, Ana Sofia Martins e Rita Cabaço, o realizador e autor Márcio Laranjeira conta e mostra as vidas ficionadas de histórias reais de mulheres que conheceu e que, com ou sem filhos, sobreviveram através deste mecanismo. Mas há ainda muito por fazer.
A produção Casa-Abrigo, feita em acompanhamento com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), quer mostrar " história destas mulheres sem mostrar violência", sem o risco da revitimização. O realizador quis mostrar "o caminho que vem depois [da fuga], porque é feito no anonimato", numa casa que ajuda, mas "que não devia ser a dessas mulheres".
Instagram/Márcio Laranjeira
Com agendamentos de exibição e debates marcados com várias autarquias e escolas, Márcio Laranjeira espera deixar marcas mais profundas em quem assiste à minissérie Casa-abrigo. "Gostava de mudar a educação dos homens. É o princípio de tudo". "Sou homem, mas não tive pai e era um menino que fugia dos rapazes que mostravam como era ser-se homem. (...) Também sou filho da violência e sei o quanto um homem violento é imparável nesse papel que é atiçado a desempenhar desde miúdo", avisa o realizador.
Como surgiu a importância de abordar este tema das casas-abrigo?
Sempre o quis abordar e, como sabemos, a importância não tem vindo a diminuir. Precisava era de ter o momento para escrever sobre isto, com o cuidado com que queria tratar o tema e as personagens. E com o Covid, como sabemos, o confinamento trouxe um maior horror às vítimas de violência doméstica. A minha casa tornou-se temporariamente uma espécie de abrigo, o que foi decisivo para mim, já que a partir daí comecei a escrever a Casa-Abrigo.
Quais as maiores dificuldades sentidas para tratar esta temática?
Contar a história destas mulheres sem mostrar violência. Já sabemos como a reconstituição da violência pode agredir novamente as vítimas. E testemunhos das agressões ouvimo-los todos os dias. O que não sabemos é o caminho que vem depois, porque é feito no anonimato. E não é de violência, mas de resiliência.
Ouviu testemunhos? O que mais impressionou e em que medida esses mesmos testemunhos alteram ou mudaram a ideia inicial da série?
O que os testemunhos me deram foi a força para fazê-los chegar, a todo o custo, ao coração das pessoas. Prometi que não os deixaria no silêncio. As mulheres e os filhos que falaram foram corajosos, porque durante muito tempo sentem vergonha do que lhes acontece. Estarem numa casa-abrigo não faz sentir as mulheres mais confiantes, pelo menos no início, porque estão escondidas, apagadas. Ao ouvi-las percebi que filmar a Casa-Abrigo dar-lhes-ia protagonismo, tirá-la-ias da sombra, não estariam tão sós. Porque não é a história de uma mulher naquela situação, mas de diferentes mulheres que partilham uma situação semelhante.
Que tipo de reações têm sido recebidas face às primeiras apresentações deste trabalho?
Muito emotivas. Sabia que tinha feito um primeiro episódio difícil, porque é difícil entrar numa Casa-Abrigo, estar lá pela primeira vez, e queria que se sentisse isso. Mas assim que o episódio terminou percebi o quanto as pessoas queriam conhecer melhor as outras mulheres da Casa e o percurso que as tinha feito, uma a uma, entrar. Quem viu o segundo episódio no [Festival] Indie Lisboa saiu com o coração apertado com a dor que uma mãe e um filho transportam um para o outro. Aconteceu o que era pretendido: quem vê a série conhece estas mulheres, dá-lhes um nome, deixam de ser uma vítima, um número, mas são a Vera, a Madalena, a Conceição, a Gabriela...
De que forma é que a série pode vir a ajudar a 'mexer' com políticas e medidas que já existem no terreno sobre esta matéria?
Neste momento, várias autarquias agendaram exibir a Casa-Abrigo com debate, em auditórios, cineteatros, escolas. A série lança também uma outra forma de retratar as vítimas e, sobretudo, consciencializa que a casa-abrigo não devia ser a casa delas. Esta foi uma questão sensível discutida com a APAV, que colaborou connosco em todo o processo. Seria contraproducente mostrar na série uma casa-abrigo como "a solução" e, do mesmo modo, mostrar que não deveria sequer ser uma solução à qual as vítimas deveriam recorrer. Mas há toda uma mensagem para que, em sororidade, se possa sair do silêncio. Tudo começa com mudarmos os protagonistas da nossa história.
O que gostava de ver mudado nesta matéria das casas-abrigo?
A educação dos homens. É o princípio de tudo. Sou homem, mas não tive pai e era um menino que fugia dos rapazes que mostravam como era ser-se homem. A insensibilidade importava e ainda importa. Também sou filho da violência e sei o quanto um homem violento é imparável nesse papel que é atiçado a desempenhar desde miúdo. Vivemos num país com problemas de fundo de racismo, homofobia, um aumento crescente de xenofobia, sabemos isso ou podemos ignorar. Mas não podemos ignorar que todos os meses uma ou mais mulheres são assassinadas em Portugal no contexto de violência doméstica. Não podemos, sabemos, só que naturalizamos. Isso eu gostaria de ver ser mudado. Espero que, no que vão ver, algo mude também.

