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João Gonçalves

Carta a um marciano sobre uma democracia coxa

Na prolixa cabeça de um colega de crónicas doutro sítio, correria por aí "uma ofensiva da direita radical no espaço público". Todavia, a "ofensiva" de que fala o outro vem de uma coisa que não existe. Explico-me, caro marciano, que, por causa da promoção da sua agência de viagens, aterrou, enganado e vacinado pela meia dose, aqui. A "direita radical" consistiu, e consiste, numa invenção retórica de um grupo político-folclórico que, há sensivelmente uma década, se juntou na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. Queriam esconjurar o Governo de Passos Coelho, o FMI, a Comissão Europeia e o BCE que faziam os possíveis por nos tirar da bancarrota em que os socialistas nos deixaram em 2011. Os jornais, as redes sociais, os blogues, os comentadores da época - hoje a "vanguarda ideológica" do regime desde 2015 -, enfim, toda esta parafernália oportunista é a mesmíssima que cataloga impunemente os outros sem contraditório. Não se vestem como os "ayattolahs" que Você conhece de outras andanças, mas a mioleira é idêntica: fanática, perigosa e intelectualmente desonesta. Nessa altura, o Bloco e o PC acusavam hora a hora o Governo de "querer suspender e rasgar a Constituição" e de "deitar ao lixo" a democracia. Agora, o Bloco e o PC calam-se quando a Constituição é violada por medidas avulsas governativas. Ou camarárias, em Lisboa, contra direitos fundamentais pessoais e persecutórias de funcionários honrados. Chamar a atenção para inconstitucionalidades "não é forma de contestar", diz hoje o Bloco sem se rir. E ao lado de Costa e do Bloco, em 2012, num programa de televisão, também o dito cronista esbracejava contra estes navios cheios de fantasmas da "direita radical". Da Aula Magna, porém, ao Estado, ao Governo, ao Banco de Portugal, aos órgãos de comunicação social, ou às redes sociais onde "denunciam" e censuram - em breve, com cobertura "legal -, foi um ápice. Nem Vasco Gonçalves teve uma "muralha de aço" da envergadura desta que estes beneméritos ergueram à volta de António Costa. A "ofensiva no espaço público" contra a democracia liberal que Você, caro marciano, julgava vir encontrar nesta antiquíssima periferia luminosa, não procede de qualquer "direita radical" abeberada em mentes tortuosas. Vem de uma cumplicidade político-partidária, cultural, comunicacional, cobarde, até, com origem na maioria informal de Esquerda que suporta o Governo. E que se estende desde a inépcia colaboracionista do maior partido da oposição até a uma sociedade abúlica e estupidificada. É uma democracia coxa, caro marciano. Se quiser ficar, habitue-se.