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João Gonçalves

O cartão

O PS reuniu em congresso. Foi em Portimão, para aproveitar as férias invariavelmente algarvias da maioria. Nada de excitante havia para discutir. Quando os partidos estão no poder, os congressos são redundantes. Os militantes e os "observadores" aproveitam para sondar os que exercem directamente o poder, seja no que for, para "meter cunhas". Outros deambulam em "marcação de ponto". O chefe aproveita para rever a matéria, onde se somam invariavelmente sucessos sobre sucessos, e para anunciar mais um bocado de paraíso para os próximos tempos. O paraíso chama-se "Plano de Recuperação e Resiliência". São milhões a distribuir como as rosas de Santa Isabel. O fim dos congressos electivos, decidido pelos principais partidos do regime, e aos quais os líderes chegam previamente ungidos por votações albanesas, retirou qualquer interesse específico aos conclaves partidários. O PS até se deu ao luxo de nem sequer revelar qual acabou por ser o universo eleitoral que manteve olimpicamente o secretário-geral. Nem sempre foi assim. Mesmo com Soares, os frisos dos congressos socialistas, até à derrota de Sampaio por Guterres, constituíam momentos politicamente interessantes. Sobretudo porque o grosso daquele pessoal político era interessante e possuía biografia. O sr. César, em Portimão, chamou para a mesa o PS dos pequeninos proto-herdeiros, uma lástima político-partidária quando pensamos nos idos de 70, 80 e 90. Pessoas que naquela altura eram consideradas pouco estimulantes, quando não desastrosas, agigantam-se, mortas ou vivas, diante deste conjunto de aparelhistas abeberados nos sofás da "juventude". Não é difícil a Costa emergir disto como um líder admirável, grávido de poder e autoridade. À que, por exemplo, nos últimos quinze dias o substituiu no governo, não ocorreu melhor "ideia" do que promover uma moção cujo "pensamento estrutural" consistia na singularidade de Costa: "só o PS tem Costa, uma das vozes mais respeitadas da Europa". Palavra de honra. Mas o momento mais grotesco estava reservado para aquela que, nas palavras do chefe, é a "comandante suprema do combate à pandemia", a dra. Temido. Mais uma que, daqui a dois anos, acrescentou, pode concorrer a líder (palavra de honra outra vez). Acabada de admitir no partido, subiu ao palco para Costa lhe entregar, em mão, o cartão de militante. Depois, exibiu-o à plateia como se lhe tivesse saído uma raspadinha premiada. Não anda longe da verdade. Um cartão do PS, nos dias que correm, é mais útil que as "chaves do Areeiro". Para além disso, a nova militante imagina-se subtil, uma característica de todos os outros noviços e noviças. O cartão coloca-a ao nível deles. E eles ao nível dela. Viva o PS.

João Gonçalves

Carta a um marciano sobre uma democracia coxa

Na prolixa cabeça de um colega de crónicas doutro sítio, correria por aí "uma ofensiva da direita radical no espaço público". Todavia, a "ofensiva" de que fala o outro vem de uma coisa que não existe. Explico-me, caro marciano, que, por causa da promoção da sua agência de viagens, aterrou, enganado e vacinado pela meia dose, aqui. A "direita radical" consistiu, e consiste, numa invenção retórica de um grupo político-folclórico que, há sensivelmente uma década, se juntou na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. Queriam esconjurar o Governo de Passos Coelho, o FMI, a Comissão Europeia e o BCE que faziam os possíveis por nos tirar da bancarrota em que os socialistas nos deixaram em 2011. Os jornais, as redes sociais, os blogues, os comentadores da época - hoje a "vanguarda ideológica" do regime desde 2015 -, enfim, toda esta parafernália oportunista é a mesmíssima que cataloga impunemente os outros sem contraditório. Não se vestem como os "ayattolahs" que Você conhece de outras andanças, mas a mioleira é idêntica: fanática, perigosa e intelectualmente desonesta. Nessa altura, o Bloco e o PC acusavam hora a hora o Governo de "querer suspender e rasgar a Constituição" e de "deitar ao lixo" a democracia. Agora, o Bloco e o PC calam-se quando a Constituição é violada por medidas avulsas governativas. Ou camarárias, em Lisboa, contra direitos fundamentais pessoais e persecutórias de funcionários honrados. Chamar a atenção para inconstitucionalidades "não é forma de contestar", diz hoje o Bloco sem se rir. E ao lado de Costa e do Bloco, em 2012, num programa de televisão, também o dito cronista esbracejava contra estes navios cheios de fantasmas da "direita radical". Da Aula Magna, porém, ao Estado, ao Governo, ao Banco de Portugal, aos órgãos de comunicação social, ou às redes sociais onde "denunciam" e censuram - em breve, com cobertura "legal -, foi um ápice. Nem Vasco Gonçalves teve uma "muralha de aço" da envergadura desta que estes beneméritos ergueram à volta de António Costa. A "ofensiva no espaço público" contra a democracia liberal que Você, caro marciano, julgava vir encontrar nesta antiquíssima periferia luminosa, não procede de qualquer "direita radical" abeberada em mentes tortuosas. Vem de uma cumplicidade político-partidária, cultural, comunicacional, cobarde, até, com origem na maioria informal de Esquerda que suporta o Governo. E que se estende desde a inépcia colaboracionista do maior partido da oposição até a uma sociedade abúlica e estupidificada. É uma democracia coxa, caro marciano. Se quiser ficar, habitue-se.