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João Gonçalves

Pela nossa saúde, saia

Está plantada no Governo uma criatura que mais parece saída debaixo da calçada portuguesa do tempo do PREC do que do século XXI. Refiro-me à improvável ministra da Saúde, Marta Temido, uma cacique de fazer inveja à mais virulenta "formiga-branca" dos idos do senhor dr. Afonso Costa. O Governo ainda começou com um tipo civilizado no sector, mas a impotência política, e a falta de apoio do radicalismo do partido e fora do partido, ditou a inopinada substituição de Adalberto que só soube disso no fim da apresentação do Orçamento do Estado para a sua área. Temido assentou praça num contexto de cativações brutais no SNS, ordenadas pelo segundo primeiro-ministro e ministro da Saúde factual, o glorioso dr. Centeno. Temido não era estranha ao sistema. Desde a Cruz Vermelha (presidente não executiva do CA do Hospital) até ao próprio Estado, uma vez que presidia, em 2016 e 2017, a uma coisa chamada Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Nessa altura, o Tribunal de Contas auditou a gestão das "listas de espera" hospitalares e deu cabo dessa gestão: eliminação administrativa de utentes das listas e falsificação de indicadores. Temido, com aquele arzinho de "não esperas pela demora" que a distingue, culpou a informática. Sucede que o Governo, o dela depois de Outubro de 2018, tinha criado um ano antes um "grupo de trabalho", presidido pelo bastonário da Ordem dos Médicos, para a avaliação daquela mesma gestão depois do trabalho do T. de Contas. Moral da história: a ACSS "apagou" doentes de listas para consultas e alterou datas nas inscrições para cirurgia. O Tribunal tinha razão. Temido não se deixou intimidar pela realidade. Segundo ela, 70% dos doentes que morreram em lista de espera "estavam dentro do tempo máximo de resposta garantido". Palavra de honra. De caminho, mandou instaurar uma sindicância à Ordem dos Enfermeiros, coincidentemente com o pedido da sua demissão formulado pela bastonária. A rematar, Temido pôs-se ao lado do Bloco na nova lei de bases da saúde contra parcerias público-privadas, numa espécie de delegada de Catarina no Governo contra o próprio PS e contra Marcelo. Ora esta mulher existe e, inexplicavelmente, ainda é ministra. Pela saúde do SNS e pela nossa, saia.

João Gonçalves

O país está perigoso

Os estaleiros de Viana do Castelo produziram um navio de recreio. Costa e Siza Vieira, pelo Governo, e o presidente socialista da Câmara homónima - ex-agente funerário do PS aquando da assinatura dos protocolos que resolveram a questão - apareceram na festa de apresentação do barco vestidos a rigor e despidos de qualquer sombra de vergonha na cara. O cantor Abrunhosa e Carla Bruni embelezaram o acto com cantorias. A Bruni não sabia, nem tinha de saber, que estava rodeada de farsantes, a começar pelo colega músico que, poucos anos antes do evento, dera a "voz" por um ridículo "salvem os estaleiros" no preciso momento em que o então ministro da Defesa, José Pedro Aguiar Branco, os salvava sem espectáculos políticos bafientos e degradantes. Tudo foi feito e exibido como se os farsantes presentes tivessem sido os recuperadores da dignidade económica dos estaleiros, e não uns meros parasitas circunstanciais de iniciativas alheias. Nem uma palavra, claro, para o Governo de Passos Coelho, nem um convite a Aguiar Branco e, para culminar, a maioria de Esquerda parlamentar ainda chumbou um voto de congratulação pelo sucesso dos estaleiros proposto pelo PSD.

João Gonçalves

Repensar Marcelo

Algum tempo decorrido com Marcelo em Belém, escrevi aqui que ainda não tinha começado verdadeiramente o mandato. Isso durou, mais ou menos, até às tragédias dos incêndios do Verão e do Outono de 2017, embora o presidente repetisse ter estado empenhado numa misteriosa "descrispação" da sociedade portuguesa. Aparentemente, havia duas causas para "descrispar": Cavaco e Passos Coelho. O primeiro já tinha sido substituído por ele, mas Passos ficou ali a emperrar até Janeiro de 2018. O país, por causa da reacção de Marcelo aos incêndios, a Tancos e a outras infelicidades nacionais, pensou que o mandato finalmente começara e que a autoridade presidencial estava salva. Um discurso menos "optimista" valeu a cabeça de uma ministra que tinha pouca. E, mais tarde, a de um ministro da Defesa que teve de ser sacrificado em nome da pusilanimidade alheia, mesmo tendo-se posto a jeito. Veio entretanto, e para ficar, a chamada fase dos "apuramentos". Entre portas, banhos fluviais, visitas de Estado, após programas televisivos comprometedores, onde quer que fosse, lá estava - e está - o presidente a reclamar que se "apure tudo custe o que custar". Tudo isto se desenrola entre selfies, "afectos" e muita televisão por parte de quem, como ninguém, percebe dela. Em Angola, o "estilo" atingiu o cume. Marcelo foi o fazedor retroactivo do "amor" com a antiga colónia. Uns meses antes, ele e o Governo português tinham removido o "irritante" na pessoa de Joana Marques Vidal, uma substituição esdrúxula que nunca explicou devidamente. O sucesso da viagem só pode ser comparado com o das de Américo Tomás e de Marcello Caetano nos anos 60 e 70 do século passado. Em suma, Marcelo nunca chegou a começar o mandato. Trocou-o por um populismo institucional em que ele e o primeiro-ministro competem, juntos, pelo troféu da popularidade estatística, da anomia colectiva e do pensamento único. Mais de metade do calendário cumprido, já é possível um balanço presidencial. Pacheco Pereira fez o melhor deles na apresentação de uma hagiografia marcelista. Até porque foi vice-presidente de Marcelo, no PSD, e o primeiro a sair. Trinta e muitos anos de cinismo político não se abafam com "afectos" e "optimismo" delirante, a não ser em crédulos. A situação não escrutina Marcelo porque Marcelo é o seu recandidato natural. Repensá-lo, em 2021, exige antagonismo. Não tanto para lhe ganhar como para devolver dignidade política real ao cargo, fazendo por Marcelo o balanço que ele nunca fará.

João Gonçalves

Némesis

Em menos de 24 horas, num evento destinado a homenagear a memória do professor Calvão da Silva, apareceram o presidente Cavaco Silva e o dr. Passos Coelho. No país zen a que presidem Marcelo e Costa, sem um átomo de autoridade ou de respeitabilidade, a coisa andava entre a impotência prepotente do Governo na greve dos enfermeiros, a censura chumbada pela Esquerda complacente com o austeritarismo orçamental mais desbragado do senhor presidente do Eurogrupo - o ministro das Finanças "equidistante" do PS, do PC e do Bloco - e um festival da canção, equivalendo-se mais ou menos tudo na mediocridade "familiar" que tem, aliás, na composição do Executivo remodelado o mais acabado exemplo do nepotismo democrático a florescer na Lisboa turístico-cosmopolita. De facto, Cavaco e Passos caíram com o peso da realidade em cima do situacionismo folião, como Némesis perante o homem grego, apontando os "limites da dura incapacidade" a esta pobre gente que nos pastoreia. O antecessor de Marcelo não pôde ser mais "elementar". "Portugal continua a ser ultrapassado pelos países do Centro e Leste europeus em termos de desenvolvimento medido pelo rendimento per capita. E quando, entre os dezanove países da Zona Euro, só a Letónia e a Grécia ainda estão atrás de nós, por este caminho, mais ano menos ano, Portugal será lanterna- -vermelha do pelotão da Zona Euro". Passos Coelho, por seu lado, apenas precisou de recuar à derradeira aventura socialista ainda com menos de uma década mas, ironicamente, com tantos protagonistas em comum. "E mesmo na véspera das coisas correrem mal, havia sempre ministros socialistas importantes a explicar que tinha sido o melhor ano do Mundo, o maior crescimento da Europa, que estávamos numa trajectória fantástica e os outros eram Velhos do Restelo. Os ministros que levaram o país à pré-bancarrota são os mesmos que hoje repetem o mesmo discurso de então, em 2009 e 2010. Os mesmos - é uma coisa notável". Notável, de facto. A Némesis anda paredes meias com a Sorte (a "tyche" grega) e a Moira. É o "destino" inalterável a intervir sempre que a ordem é abalada pela desmesura ou pela insolência, como na "Ilíada" quando reduz ao silêncio o cavalo de Aquiles subitamente dotado de fala. Os nossos truões de circunstância, a rebentarem de felicidade e a ultrapassarem toda a "medida", não escapam. O pior é que nós também não.