Imagens

Últimas

João Gonçalves

Os caminhos da Direita: o olho, a feira e a baleia

A Direita, ou seja, o espaço político liderado pelo PSD e que inclui o CDS, pequenos partidos e "iniciativas", normalmente em coligações autárquicas, e outras manifestações similares emergentes, tem de decidir sob que forma tenciona aparecer ao país nas eleições legislativas. Já se percebeu que, salvo algum imprevisto, concorrerá separada às decisivas europeias de Maio de 2019. Os cabeças de lista, e a restante tropa, serão recrutados consoante os "arranjos" e as "promessas" feitas a este e aquele (ou aquela) dentro de cada partido. Haverá repetições serôdias, que já não acrescem nem trazem novidade por muito beneméritas que sejam, e "estreias" porventura ainda mais serôdias por causa daqueles "compromissos" ou das contingências, como no caso da nova "Aliança" de Santana Lopes. No regime, ninguém parece dar-se conta da importância de uma coisa que está apenas à distância de nove meses e que pode alterar drasticamente a configuração parlamentar europeia, acabando com a preeminência política dos dois partidos europeus tradicionais. Macron anda num périplo a falar numa "união progressista" contra a "ameaça" apelidada de populista. E, nos casos mais inapeláveis de pensamento comunicativo débil, de extrema-direita que é como a língua de pau titula o que floresce pelo voto popular precisamente por causa da língua de pau. Viu-se, aliás, ontem na Suécia. Só Marisa Matias deu nota nacional da séria possibilidade das maiorias "habituais" mudarem em Bruxelas e Estrasburgo, o que dá bem a medida da extensão da inconsciência do sossego democrático "médio" europeu. Em Portugal só o superficial é profundo para tranquilidade do dr. Costa. Rui Rio não faz oposição, a não ser levemente e só depois de zurzir a intendência interna que o obceca. Cristas é esforçada, mas o CDS não chega. E o resto ainda se está para ver que história contará. Morais Sarmento, sempre eloquente, resumiu bem o estado desequilibrado da arte na "universidade" do PSD. A propósito das diferenças entre o partido de que é vice-presidente e o PS, terá dito que "é como confundir o olho do cu com a feira de Sintra". Não especificou qual era qual. Fica, pois, um conselho de Herman Melville, em "Moby Dick", para quem o quiser reter nos atribulados caminhos da Direita: "é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais". Quem diz descer, diz subir.

João Gonçalves

Rui Rio, o purificador

À beira de uma estrada secundária, pelo menos foi o que se viu nas televisões, o dr. Rio juntou umas dezenas de amigos para aproveitar o regresso de férias e falar. Seria em Loulé mas, um dia antes, o "líder" já tinha descido ao Algarve para visitar os destroços de Monchique. Lá, aproveitou para exibir as suas qualidades de chefe da oposição, afirmando precisamente o contrário: ele está aí para ajudar (presumivelmente o dr. Costa) e não para fazer oposição (ao referido Costa, seu amigo). No sábado, no final de uma peleja de futebol intrapartidário em que a equipa dele ficou em último lugar, precisou o seu elaborado raciocínio. Ainda falta um ano para eleições, logo o PSD não vai andar um ano a fazer campanha eleitoral que, na cabeça matematicamente formatada de Rio, equivale a essa actividade inquinada que é fazer oposição. Aliás, nenhum partido, desde o do Governo (e o próprio Governo) até ao CDS, a coisa vista assim da Esquerda para Direita, ninguém anda positivamente em campanha. Rio, pelo menos, não anda e reserva o exercício a outros e às "revistas sociais". Mas regressemos à beira da estrada secundária em Loulé. Rio esteve trinta e três minutos e alguns segundos a perorar. O grosso da discursata destinou-se a intendência partidária, ou seja, a reafirmar o "programa" dele. Não gastar dinheiro. Não ligar ao que outros companheiros dizem a não ser para, a seu tempo, os correr das listas porque, com ele, não há cá "lugarzinhos". E, por detrás dos óculos escuros, brilharam logo os olhinhos da dr.a Marlene Fraga. Não quer nem sequer ouvi-los comentar a vida do partido, uma coisa que ele nunca fez até lhe ter passado pela tola ser candidato frustrado a Belém. Não quer o radicalismo aliado a Costa, quer ir ele para o lugar do radicalismo. Em suma, e salvo uma levíssima acrimónia por causa de Monchique, Rio podia ter assegurado, como nos festivais de música pop, a primeira parte do comício do PS em Caminha. Ele, na verdade, é o purificador da vida política do PSD que, para o efeito, tem ali para mil anos de beatério interno (e externo, se o deixarem) e zero de compromissos com a nação. O país ignora-o, como ele, muito religiosamente, ignora o país. É capaz de estar bem para feitor ou mestre quarteleiro, acolitado por aquelas improváveis figuras da "mesa de honra" de Loulé. Fique, pois, até ao último minuto do seu mandato, entretido nas operações de limpeza e de manutenção do telhado. O amigo Costa agradece.

João Gonçalves

Apita o comboio

O presidente do Eurogrupo, o folgazão Centeno, deu o tom num vídeo em que elogiava a Grécia que saía, salvo erro, do terceiro "programa de ajustamento". Oito anos depois do primeiro "programa", à nora, esmagada, sem chão firme, mas Centeno e o chefe Costa não se pouparam nos parabéns helénicos. Evidentemente, os órgãos de Comunicação Social tradicionais não se deram ao trabalho de comparar este exercício politicamente amoral com o que ambas as criaturas afirmaram, ora por altura do final dos três anos do único PAEF português, em 2014, ora quando se apossaram administrativamente do poder, em 2015, de mãos dadas com o radicalismo parlamentar. Preferem continuar no jogo de sombras com os seus aliados, com a complacência de um PSD cego, surdo e mudo que, fora uma ou duas vozes silenciadas pela incumbência, não se ergueu, como devia, para defender Passos Coelho. A coisa prosseguiu com o embuste da "descentralização" e com o propósito anunciado de rever a fusão de freguesias. Alguns autarcas denunciaram o embuste, isto é, o fruto à partida apodrecido de um "acordo" entre Rio e Costa. Mas apenas Miguel Relvas foi claro, sem temores reverenciais internos e externos, no que era preciso ser claro: rasgar o acordo apodrecido e mentiroso à nascença que só serviu para Costa enfiar o PSD no bolso, alienando uma reforma fundamental para a qualificação do território. Entretanto, o comboio do PS apitou rumo a Caminha parando o tráfego, caótico e ineficiente, da CP no seu percurso em direcção ao caudilho. O PS regressava de férias para um comício de pendor latino-americano em que a palavra de ordem foi ganhar tudo, e absolutamente, como manda o padrão tropical inspirador. Numa sociedade acrítica e desinteressada - fundamental para seres como Costa prosperarem politicamente no meio da acefalia democrática -, o caudilho levou a demagogia estrutural ao paroxismo, como o original Costa da Primeira Desgraça de 1910. Fez nomeadamente promessas fiscais ilegais, no tempo e no espaço, aos emigrantes que queiram regressar ao "nosso querido Portugal", com desprezo total pelos que, aqui, sustentam "as contas saudáveis" através do pagamento dos seus impostos directos e indirectos, que o Governo aumentou. Percebe-se a ópera bufa de Caminha. Costa nunca ganhou umas legislativas ou umas europeias. Está e fica porque o regime todo - da "oposição" colaboracionista de Rio ao presidente oriundo da Direita, passando pelo indispensável e hipócrita radicalismo - lhe dá a mão. Depois não se queixem.

João Gonçalves

Os caminhos da Direita

Há mais de uma década, três conspícuos militantes do PS de apelidos Costa, Sócrates e Seguro reuniram-se para decidir quem avançava. Costa sugeriu que o mais bem colocado nas sondagens avançava. Seguro terá esbracejado levemente e ainda "ameaçou". Mas, fora do trio, o agora comentador da "quadratura" literalmente "do círculo", Jorge Coelho, deteve Seguro: "agora é a vez do Zé". E assim foi. Primeiro "o Zé", depois vagamente Seguro e por fim o grande timoneiro do grupinho e actual caudilho. O que lhe falta enquanto cabo eleitoral sobra-lhe em astúcia de bastidores. Não ser sanguíneo como Sócrates, ou sério-frouxo como Seguro, permitiu-lhe um Governo minoritário de legislatura, a condescendência do radicalismo parlamentar e a aquiescência de dois presidentes da Direita. Como Madame de Merteuil, Costa é a sua própria obra imposta a terceiros, ora crédulos, ora complacentes. Aqui inclui-se Rui Rio, o politicamente anulado líder da Oposição e do PSD. Correu para os braços do caudilho para assinar dois pactos que manifestamente ninguém interessado leva a sério. Tem com ele uma espécie de "contrato" não escrito, declinado do que Costa inventou para os seus outros dois camaradas em 2004. Repare-se que Rio, nos raros murmúrios críticos do Governo, nunca aponta Costa. Está lá para o que der e vier, isto é, para o que Costa lhe der. Por isso, Costa comporta-se como Salazar diante de António Ferro: está e fica como se ameaçasse nunca vir a deixar de estar. Perante este descalabro, a Direita mexe-se dentro e fora do PSD. Dentro, fazem-se fatos e barbas à medida de líderes difusos por vir. Preparam-se prosas que se aliviam nos jornais, em entrevistas espúrias e em charlas nas televisões. Outros ainda nem sequer sabem se vão a provas. Tudo com os olhos na previsível remoção de Rio depois dos actos eleitorais de 2019. E todos sem cuidar das Europeias de Maio, o primeiro choque com o país como um todo e que se limitam a preparar como mais uma eleição paroquial, com a gente amesendada em Bruxelas há demasiado tempo. Quem não perceber que os caminhos da Direita passam, em primeiro e decisivo lugar, pela eleição de Maio, não percebe nada. Ao menos a "Aliança" de Pedro Santana Lopes, em rápida cibernética, já indica, até pelo que recusa, um caminho. As pessoas, essa grande preocupação do "passeio público" partidário corriqueiro, virão naturalmente a seguir. Mal andaria a "Aliança" se começasse pelo fim.

João Gonçalves

Marcelo encontra-se finalmente com o Zé

E, ao nono dia, o regime foi confrontado por José Marques dos Santos, de 79 anos, em Alferce. O diálogo decorre entre o presidente da República (Marcelo) e o referido cidadão (José). Assiste o Governo, na pessoa do ministro da Administração Interna e, presumo, o senhor presidente aposentado da Autoridade Nacional da Protecção Civil, cuja figura de corpo presente a população certamente agradeceu. Sem comentários. José: Vou dizer aquilo que penso. Marcelo: Mas eu percebo, eu percebo. José: Não percebe. Não percebe porque não sabe como é que se combate incêndios. Marcelo: Não, não. José: E essa gente da Desprotecção Civil não conhece e não sabe o que é isto. Marcelo: Vamos lá ver... José: São os bombeiros comandados aqui por Monchique. Por Monchique. Não é outra gente que mete sacos de rolha e que não sabe nada disto. Nem sequer das estradas sabem, nem sequer as conhecem. Marcelo: Deixe-me, deixe-me, espere, espere... José:... quiseram agora levar a população de Alferce para São Marcos da Serra. E às tantas morria tudo, como naquela serra, o ano passado...... E o governo o que é que quis fazer aqui? Salvar as pessoas para que não fosse o maior criminoso da Europa em tempo de paz. Marcelo: Sim... José: Foi o que o Governo quis. Marcelo: "Tá bem. José: E deixou arder tudo. Marcelo: Mas vamos lá ver... José:...Porque as pessoas sabiam que, atravessando aquela estrada, aquilo vinha logo para aqui. Aqui estão estacionados bombeiros ao longo do Verão, todos os verões. Agora, quando há um incêndio, nem um. A Desprotecção Civil, onde é que parava? Onde é que comandava? Essa gente é tudo gente dos partidos, que não percebem nada disto. Marcelo: Pronto, pronto, deixe-me dizer... José: Este senhor (apontando para o MAI, Eduardo Cabrita), em parte, em parte, é um grande responsável também. E o chefe dele, maior responsável ainda. E o senhor, como comandante supremo das Forças Armadas, deve pôr a aviação portuguesa a comandar isto tudo. Isto é uma criminalidade desenfreada que aqui existe. Marcelo: Deixe-me dizer-lhe o que é que penso. José: O senhor pensa, mas está muito longe do sofrimento desta gente daqui. Está muito longe. Marcelo: A sua posição não é a posição da Constituição da República Portuguesa e eu jurei cumprir a Constituição e portanto... (compara com Espanha, França, América, etc.). A Força Aérea, a Força Aérea, é evidente que os meios aéreos são fundamentais...para prevenir. José (resumindo): A Desprotecção Civil é o mandatário do Governo. São uns ignorantes."

João Gonçalves

O querido mês de Agosto

A bovinidade típica do mês de Agosto foi abruptamente interrompida pela entrada do Bloco no vasto clube dos "partidos com rabos de palha". O episódio Robles ajudou a reforçar o Bloco como partido pequeno-burguês, literalmente urbano na dupla vertente "intelectual" e imobiliária, ambas declaradamente pouco sérias. Como se isto não bastasse, o líder do maior partido parlamentar e da oposição, Rui Rio, tratou de elogiar a "postura" e a "argumentação" do antigo vereador de Medina. Rio, aliás, fechou o primeiro semestre de presidência social-democrata com um balanço de zero a um, sendo o um favorável ao primeiro-ministro a quem ele estendeu a mão inútil. O que me leva à segunda interrupção no aludido estado de bovinidade canicular. Pela primeira vez, preto no branco, um militante do PSD afirmou alto num jornal o que muitos pensam: a dificuldade de o PSD travar o próximo ciclo eleitoral com Rio na liderança. Ou seja, Pedro Duarte, ex-presidente da JSD, ex-governante e ex-gestor da campanha de Marcelo em 2016, reclamou a saída de Rio e a sua substituição imediata, porventura a pensar nos oitenta e nove deputados de Passos em 2015, uma fasquia demasiado alta para um líder tão timorato como este. Montenegro anda a aboborar mas só para depois de Rio ser derrotado nas legislativas. Duarte, mais previdente e menos calculista, nem sequer quer deixar Rio ir às legislativas. Neste momento, isto também revela que, sem Passos, inexiste uma autoridade indisputável no centro-direita, com um CDS curtíssimo para o efeito e um PSD, ao mais alto nível, apostado em "consensos" improváveis com António Costa. O máximo divisor comum do centro-direita não é Duarte, Montenegro, Cristas ou Pedro Santana Lopes. É Rio que, para usar uma expressão de Marcelo, não é da "família". Lopes, na despedida, entregou uma carta aberta aos militantes sem preocupações programáticas que seriam esdrúxulas no contexto. Era um acto solitário. Daqui por diante, será com certeza outra coisa já a pensar nas pessoas concretas que o regime abandonou ao aparelhismo doentio e auto-reprodutivo. Desde 1979, nos Reformadores, que aprecio muito as ideias de agregar, federar e fazer evoluir o regime, libertando-o de tudo o que embacia a participação popular legitimadora. Como Santana Lopes escreveu, em 2015 acabou-se o mito do partido mais votado. Trata-se agora de "dar força à alternativa que Portugal precisa para substituir a maioria de esquerda". Talvez este Agosto possa vir a ser, afinal, um querido mês.

João Gonçalves

O Bloco é Robles

Porventura a maioria dos leitores nunca terá ouvido falar no Robles. O Robles é um moço apessoado, de olhos azuis esverdeados, a dealbar os 40, com o rosto devidamente ornamentado por uma barba aparada e cuidada. Podia ser uma personagem de Camilo ou de Eça, e bem menos de alguns dos "escritores" que costumam babujar o partido que ele representa. O Robles é um misto de antigos "brasileiros" dos romances daqueles dois com deslumbrados pela Revolução pós-1848, panfletários "românticos" que na actualidade rilham os dentes contra o capitalismo, e os desmandos sociais que provoca, pelas televisões. É daí, se for, que os leitores conhecerão o Robles, essa acaciana figura do Bloco de Esquerda. Um partido a que, muito adequadamente, da saída de Lisboa pela autoestrada adiante pouca gente presta atenção. Sucede que o Bloco do Robles, para além de partido-artista de variedades e de televisão, onde supera qualquer concorrência, é um partido sem o qual Costa nunca teria sido primeiro-ministro. O Robles vinha da chamada Margem Sul do Tejo, como dantes se vinha do Brasil, e estudou em Lisboa para engenheiro. Enquanto estudava, participou em vários programas de variedades de rua contra os exames o que, para além do olhar melancólico, o salientou. Quando o radicalismo se uniu para formar o Bloco, a maior "notícia falsa" do regime, Robles aderiu. Como engenheiro, mantinha um olho na revolução e outro, veio agora a saber-se, no betão e na especulação imobiliária. O Robles ajuda a pintar slogans contra a propriedade, ao mesmo tempo que faz chorudos negócios imobiliários. O Robles é contra o alojamento local. Mas, no seu prédio remodelado, tinha previsto seis mais cinco apartamentos para o efeito já que a lei só prevê sete de cada vez. O Robles luta pelo arrendamento social e por isso aceitou manter uns senhores na sua propriedade, por oito anos, a troco de 170 euros, estilo "aqui pode morar gente" que ele pintava à entrada de prédios devolutos. Porque nas Avenidas Novas aparentemente tem outros a pagar-lhe quatro dígitos em rendas. O Robles, como todo o Bloco, é daqueles que vai "buscar dinheiro onde há dinheiro". Deu, aliás, o exemplo. Pediu 500 mil euros emprestados ao banco público para tratar do prédio que lhe foi vendido pela Segurança Social por 300 e tal mil. Ora Robles é vereador municipal em Lisboa com o pelouro "social", fazendo maioria com o PS. Afinal quem é Robles, pergunta o leitor? É o Bloco.

João Gonçalves

A nossa alegre casinha

Por via das opções dos conteúdos televisivos, de serviço público ou não, o país vai tomando conhecimento do seu frívolo estado. Assumem particular relevo duas coisas. Uma, destacadíssima, é a bola. E, nesta, o Sporting, tudo com o infinito cortejo de "protagonistas" e de comentadores dos "protagonistas". Aliás, a RTP1 alargou o espectro. Uma vez terminado o Mundial, apareceram o hóquei em patins, em horário nobre, e as "voltas" de bicicleta. A outra via é a dos festivais - de música, gastronómicos e "medievais"- que surpreendem o espectador às horas mais absurdas e em plenos programas ditos de informação para, literalmente, encher chouriços. Quem não estiver por dentro, não percebe a que calçadão pertencem os festivais musicais que, invariavelmente, começam ou acabam na "alegre casinha" da Milú, agora adoptada pelo regime do Estado a que isto chegou, um Estado que não se respeita nem se sabe dar ao respeito. Por outro lado, aquilo que devia ser levado a sério não pode, porque arranjaram esta maneira de misturar tudo, uma velha habilidade destinada a fingir que vivemos num paraíso benevolente. No Verão de 1855, já D. Pedro V não se enganava ao escrever ao tio Alberto, Príncipe consorte de Inglaterra, que o carteio deles era a sua "única saída do círculo miserável de imbecis que nos rodeia". A mulher do primeiro-ministro até foi chamada, pela Armada portuguesa, a lançar uma garrafa de champanhe contra uma canhoeira ataviada nos estaleiros de Viana do Castelo, tão execrados pelo marido e pelos seus aliados há curtos anos, mesmo sem os indispensáveis canhões. À pastora Catarina, do Bloco, não lhe cai a cara de vergonha quando comenta o SNS, ao qual tem servido de muito dispor de mais dinheiro cativado. O PC avisa que "não se deixa comer" quando, desde os finais de 2015, mal se pode sentar com tantas blandícias proporcionadas ao Governo e ao PS. Rio, evidentemente, não existe a não ser para avisar que vai "reformar" isto em consensos fofos. Trump, a Europa ou o Mundo, de uma forma geral, não cabem na nossa alegre casinha. Não por acaso, e precisamente por confiarem mais nas festanças que no Estado, alguns automobilistas fizeram inversão de marcha na A12, no sábado, quando lhes cheirou a fumo, fogo e desleixo. Lembraram-se de Pedrógão, vá lá. Marcelo bem pode arrastar o corpo diplomático para concertos e croquetes no interior. Dificilmente arrastará mais alguma coisa ou alguém.