João Gonçalves

O dever cumprido de Cavaco Silva

O jovem universitário, oriundo do Algarve, queria manter a sua actividade desportiva preferida em Lisboa. No atletismo, especializou-se nos 100 metros barreiras. Moniz Pereira que, à semelhança deste rapaz já homem público, tomava nota de tudo nuns caderninhos, anotou num deles, em 1961 ou 1962, os seus "tempos" em competição. O melhor "tempo" fora 16,1 segundos, o que correspondia ao sétimo melhor nacional na modalidade para aquele ano. Se conto aqui esta história, é porque ela denota muito cedo algumas das características fundamentais que explicam a personagem política de Aníbal Cavaco Silva: a determinação capaz, a superação realista das adversidades, a eficácia ao serviço de um propósito, tão elevado quanto barreiras numa pista de atletismo, ou, no que releva para o caso, o interesse nacional. O segundo volume das suas "memórias presidenciais", saído a semana passada, agitou o regime. Aliás, é bom recordar que, cada vez que Cavaco irrompeu no regime, entre 1985 e 2011, o regime fez de tudo para o expulsar. Mas o sufrágio popular, quatro vezes por maioria absoluta, impôs a sua presença à frente dos destinos do Governo e, por fim, da República. Profissionalíssimo, até na política ou sobretudo nela, Cavaco Silva passava por cima das barreiras que a oligarquia partidária, regimental e comunicacional sempre lhe levantara. Falava directamente aos portugueses. Isso, para as benevolentes, é insuportável. Por ter estado ligado dois anos ao Governo de Passos Coelho, a leitura deste livro tornou-se-me obrigatória porque, como escreve António Araújo no "Posfácio", o livro representa um "implacável confronto com a verdade histórica". De facto, sinto-me confortado por ter coincidido, no momento e nos lugares certos, em algumas das dúvidas e perplexidades do presidente, agora reveladas, salvo quanto à RTP. Aconselharia, pois, a desviarem-se das leituras levianas, de má-fé e boçais que foram realizadas nos últimos dias. E começarem pelo último capítulo, "A Constituição da República". Nele, Cavaco resume o essencial dos pressupostos das decisões presidenciais, "recusando sempre a procura da popularidade fácil e todo o tipo de propósitos populistas", "sem temer contrariar a posição que haja sido expressa pelos outros órgãos de soberania" e no entendimento que "o Chefe de Estado não pode deixar de ter opinião própria". A publicação destes dois livros, para além de um direito político e pessoal do autor, constitui um dever exemplar de alta cidadania mais do que cumprido.

João Gonçalves

Tancos ou a maluquinha de Arroios

Em plena 1.a República, André Brun escreveu uma comédia de costumes intitulada "A maluquinha de Arroios". Na verdade, era uma comédia de enganos que, até hoje, é representada um pouco por todo o lado. A história é escorreita e previsível. Um comerciante levemente amoral, "o Esteves do bacalhau", arrendou uma casa num prédio que também possuía em Arroios, Lisboa, a uma mulher deslumbrante com uma mãe dada a chiliques românticos e um pai devasso e rapace. A trama gira à volta de equívocos, meias-verdades, mentiras, personagens amalucadas ou crédulas, diálogos truculentos e, no fim, acaba tudo em bem. Salvo nesta última parte, a tragicomédia de Tancos, com as devidas adaptações, podia perfeitamente ser uma declinação político-teatral da "Maluquinha". Tem, até agora, três actos, cada um com várias partes. O primeiro é um alegado furto de material de guerra dos paióis de Tancos. É mais um prólogo, uma vez que não se sabe ao certo o que aconteceu naquela noite de Verão de 2017. O segundo acto começou na Chamusca, com uma chamada anónima para a PJM, a informar que o material estava lá. E não só estava lá - incompleto como se veio a saber numa das partes do acto - como ainda tinha o bónus de uma caixa, que não pertencia ao furto, e a que uma das personagens da história (que desapareceria no terceiro acto) atribuiu a dimensão de cerca de uns 30 cm de comprimento, medidos entre as suas duas mãos numa divertida conferência de imprensa. O terceiro acto, respigado do prólogo inconclusivo, é marcado pela entrada em cena da PJ civil que, sem querer saber do prólogo e do primeiro acto, deteve as personagens da PJM por causa da parte da Chamusca e apesar do evento principal, acerca do qual aparentemente nenhuma personagem sabe nada. O terceiro acto ainda teve como desfecho duas demissões, uma civil e a outra militar, e um pronunciamento presidencial de carácter filosófico: só sabe que nada sabe, mesmo andando há mais de ano à espera de tudo saber. Não vale a pena estar a encaixar as personagens de Brun nesta pilhéria político-militar. Até porque uma delas já afirmou publicamente que um dia se saberá a história toda e o papel que cada um desempenhou nela. Como quem deixa a "deixa": "- razão tinha aquele grande filósofo que dizia, "em amor ninguém deve fingir aquilo que não é"; - quem foi que disse isso? Foi Plínio, o moço? ; - Não. Foi o Joaquim, o criado de mesa".

João Gonçalves

Cenas dos próximos capítulos

1. À pura estupidez política, ou outra, deve responder-se, mesmo sem responder, com inteligência. Foi o que fez a antiga procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, numa entrevista de fim de mandato. Não apenas pela substância, relacionada com a sua actividade profissional, mas, também, pela maneira ironicamente cortês com que descreveu, sem descrever, a peripécia miserável da sua substituição. Jurista proba, magistrada competente, corajosa, ciente das incapacidades e das vulnerabilidades da sociedade portuguesa, sem ser por conta do que aprendeu nos livros ou por demagogia, Marques Vidal, assim ela o quisesse, daria uma grande candidata livre ao mais alto cargo do Estado, tão tragicamente votado à vulgaridade e à irrelevância.

João Gonçalves

Uma questão de Estado?

Em poucos dias, as acusações de uma norte-americana contra Ronaldo, por uma alegada violação ocorrida há nove anos, tornaram-se assunto do Estado português. A primeira instituição indígena a defender o jogador foi a Federação Portuguesa de Futebol. Seguiram-se o presidente da República e o primeiro-ministro. Que Ronaldo é uma glória do futebol nacional, que é um profissional irrepreensível e que o seu presente e o seu passado, nessa matéria, são praticamente o único motivo de orgulho patriótico, ninguém, a começar por estas luminárias, tem dúvidas. Mas Ronaldo foi evidenciado no Mundo inteiro, a partir de um excelente trabalho jornalístico do "Der Spiegel", por algo que nada tem a ver com as referidas qualidades. Ora as últimas instituições a dever meter-se numa coisa que, mal ou bem, apenas respeita aos intervenientes, aos operadores da investigação e, no limite, a tribunais dos EUA são as nossas. Ronaldo, mito e homem, é porventura a presença real mais forte no imaginário colectivo nacional. As reacções das "elites", das redes sociais, dos órgãos de Comunicação Social tradicionais - à excepção de um que o tem feito "ad hominem" e "ad nauseum"- convergem na confusão desse imaginário com os factos alegados que, na segunda parte do artigo do "Der Spiegel", incluem matéria documental. E, então, quando esse imaginário roça a ordinarice patrioteira machista, feminina e masculina, revela o feminismo selectivo das "incapazes" activistas e estabelece ou recusa nexos de causalidade inverosímeis entre um jogador, como tal, e a eventualidade de ter, ou não, cometido um acto criminoso, Ronaldo não está a ser ajudado em nada. O tipo de acusação - sabe-se bem pelo que anda por aí - é daqueles aos quais a presunção de inocência pouco acode e que enterra imediatamente o visado vivo. Não vale a pena, pois, decretar interesse nacional no alegado pénis erecto (que Eva Longoria estabeleceu, numa série televisiva, como não tendo famosamente consciência) do jogador a perpetrar corpo alheio. Nem tão-pouco supor a cidadã norte-americana uma Meryl Streep retroactiva preocupada com a saúde mental e sexual de um mundo agora descoberto como pervertido. Nisto, Ronaldo está por sua conta e dos advogados dele. O melhor para o imaginário colectivo é regressar rapidamente ao cozido, à renda de bilros, ao pastel de nata, à Web Summit e às selfies. Como disse o Almada Negreiros no único livro de jeito que escreveu, não te metas na vida alheia se não quiseres lá ficar.

João Gonçalves

Pobre Fausto Marcelo

Praticamente desde o início do ano que se preparava, nos chamados "bastidores", a remoção da Procuradora-Geral da República. Tancos - em que a primeira triste figura foi a do supremo comandante, que acorreu ao terreno para uma visita tão inopinada quanto disparatada - e o "irritante" angolano ditaram o final esperado das manobras. Costa ficava aos poucos aliviado. A sua ministra da Justiça, que sempre execrou Joana Marques Vidal, sua colega do MP, dera há meses o mote com a sua "interpretação pessoal" da coisa: "um mandato longo e único". A falácia jurídica acabou inicialmente desmentida por Costa no Parlamento. Mas, de tanta intimidade, Costa intuiu o que Marcelo andava a fazer e pediu um nome a Van Dunem. Ou seja, quando decorreu a ópera bufa no Ministério da Justiça, em tantos actos quantos os partidos parlamentares, Vidal já tinha a saída garantida. O cônsul César fez de porta-voz nas arcadas do Terreiro do Paço. E os restantes partidos, com Rio à cabeça, sublimes figuras de parvos. No dia seguinte, Marcelo foi dar a sua esquecível lição narcísica ainda a tempo de encontrar Costa em Belém, este vindo de Viena, para a cena da carta. Marcelo fez uma nota no site da Presidência - onde nem sequer as suas intervenções constam, não vá alguém um dia confrontá-lo com elas - a remover Vidal e a nomear outra pessoa. Em anexo, pôs a cartinha do caudilho com a justificação. O que menos interessa aqui é a PGR que tem um curso firme assegurado pelo trabalho de quem sai. Pedro Passos Coelho desmistificou a farsa política num artigo definitivo no "Observador". Marcelo fez de tudo neste processo menos de estadista. Foi o antigo jornalista da intriga, da fonte, da contra-fonte, o comentador de outros e de si mesmo e o professor que pode interpretar a lei como entender gozando com os alunos. É "um estilo". Costa viu o filme e só teve de esperar pela derradeira cena no serão de quinta-feira. A Marques Vidal apareceu apenas "um passarinho" às oito da noite. Ninguém, evidentemente, lhe tinha perguntado se queria ficar. Nunca fora preciso. A política já tinha decidido despedir a PGR. Não foi o Direito, aqui usado a título de "posições pessoais", que Marcelo, por exemplo, jurou nunca seguir como PR. "Mandatos longos" são para ele, que anda obcecado em ultrapassar os 80 e muitos por cento de Soares em 1991. Onde R. Aron escreveu Giscard d"Estaing, eu leio Marcelo: "ao fim e ao cabo, o próprio Rebelo de Sousa dá mais valor a um sorriso vindo da Esquerda do que aos aplausos dos burgueses que lhe dão o seu voto sem gostarem dele". Pobre Fausto Marcelo.

João Gonçalves

De Arraiolos a Bucareste passando por Bruxelas

Juncker, o luxemburguês com a ciática mais famosa do Mundo e que preside à Comissão Europeia, prodigalizou o seu último discurso sobre o "estado da nação europeia". Enquanto isso, na Letónia reunia uma curiosidade inútil, inventada por Jorge Sampaio, chamada "Grupo de Arraiolos". O grupinho junta os chamados presidentes não-executivos da EU, ou seja, os presidentes ornamentais, mesmo os que têm pretensões de não ser, dos respectivos regimes. Marcelo foi lá para perorar sobre a Europa, precisamente quando, no Parlamento Europeu, se votava um relatório contra a Hungria. Tudo por causa da chamada política migratória europeia a que toda a gente alude com gravidade sem se rir. Órban teve direito a menos de dez minutos de prosa, apesar de já saber ao que ia. Juncker completou o exercício com uma conferência de Imprensa fundamentalmente destinada a duas coisas. Humilhar os "pequeninos" com a matemática dos fundos - "já expliquei ao meu bom amigo António Costa vezes sem conta", disse o bonacheirão -, ao mesmo tempo que passava por cima de Órban, eleito para aí umas quatro ou cinco vezes pelo povo húngaro, que fora ameaçado em plenário com sanções estilo perda de votos na EU: "Se fosse deputado teria feito exactamente o mesmo". Os dois anacoretas portugueses, um a partir da Letónia e o outro de São Bento, apressaram-se imediatamente a aplaudir a manifestação de valentia europeia já sem a ciática. Esta mistificação torpe, em que alinhou a maioria dos deputados europeus, portugueses incluídos, salvo os do PC por execrarem por junto a "Europa", ressuma de uma profunda ignorância histórica, por um lado, e do medo do eminente fracasso, em Maio, da "união progressista" com que sonha Macron, por outro. Na Europa coexistem estados-nação, como nós, e Estados que, ou nunca o foram, ou só o puderam ser com a queda de dois impérios: o austro-húngaro dos Habsburgos e o soviético de Lénine-Estaline & Cia. Lda. A aberrante "superstição democrática", como lhe chamou Vasco Pulido Valente em tempos, crê que a Europa é toda a mesma loiça. Não é. A Hungria tem lá a sua extrema-direita, o espantalho da língua de pau para tudo o que não é da cartilha da referida superstição. Chama-se "Jobbik" e nem a senhora Le Pen a quer por perto. Órban é outro produto, mais duradouro e antigo. A "estúpida confiança", de Arraiolos a Bruxelas, em que Juncker e os seus pupilos vivem lembra um "optimismo" bastamente conhecido e que terminou muito bem no século passado. Continuem.