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João Gonçalves

Reentradas

Existe um cânone estabelecido pela Comunicação Social, particularmente pelas televisões, que manda fazer "reentradas" da política a dias e fins de semana certos. Isto como se a política, ou aquilo que a tomou de assalto e já não a larga, não estivesse presente no quotidiano dos cidadãos, desde o multibanco para fazer "pagamentos ao Estado" até à derradeira autorização camarária para plantar um manjerico no sítio previamente determinado precisamente pela política. Mas, dizia eu, as "reentradas" são momentos épicos que, na sua eloquente irrelevância, dizem muito do que são actualmente os partidos. A pouco mais de um mês de eleições legislativas, o país vai ser incomodado diariamente com qualquer mover de olhos vindo essencialmente, quando não exclusivamente, dos chefes partidários que mandam no regime e que o regime adoptou. Apesar de haver mais três ou quatro novas formações a participar nas festividades, o regime, através das televisões, já fez saber que só são admitidos à "Visita da Cornélia" os do costume, mais um: Costa, Rio, Cristas, Catarina, Jerónimo e o sr. Silva, uma recente sumidade teológica promovida a político. O "modelo" é o mesmo de há 45 anos. Comícios, bandeiras, bebedeiras, comezainas, música, visitas "sérias" a fábricas com um protector na cabeça, selfies, muitos pulos e uma catrefada de "debates televisivos" pré-campanha propriamente dita entre aquelas seis tristes almas. Deve ser seguramente a pior campanha para eleições legislativas de que haverá memória tão cedo. A genérica mediocridade das "narrativas" de todos, não ajuda. Só o bocadinho a que tivemos direito neste primeiro fim de semana, foi esclarecedor. Não existem projectos de fundo. E quando assim acontece, embora isso deva ser conversa só para depois de Outubro, é como escreveu José Miguel Júdice no "seu" Sá Carneiro: "os partidos não são fins em si mesmo, são apenas instrumentos que ao se afastarem da missão que lhes compete deixam de fazer qualquer sentido". Por ora, talvez conviesse apenas meditar no que o ensaísta Gore Vidal elaborou acerca do caos, por acaso também em Lisboa, em Maio de 1997. "Pelo maior tempo possível, deixemos o pluralismo e a diversidade ser o nosso objectivo. Dizia-se de um "speaker" da Casa dos Representantes norte-americana, no século XIX, que era tão reaccionário que, se Deus o tivesse consultado sobre a Criação, ele teria votado pelo caos. Dadas as alternativas, pelo menos por agora, também eu".

João Gonçalves

De Costa a Costa

Os "programas eleitorais" são cardápios de boas, más ou melhores intenções, em geral piedosas, que só os jornalistas da política e da economia lêem por dever de ofício. Ocupam, por isso mesmo, algumas páginas maçadoras dos jornais. Se, à apresentação do "programa" juntar-se um espectáculo multimédia para as televisões, o "programa" tem direito a directos e a inflamações histriónicas adequadas a um qualquer talk show, aproveitando-se os melhores momentos proporcionados pelo chefe, e por quem o chefe define como co-protagonista do evento, terminando em geral com o "one man show" do líder. A moda consiste em o líder aparecer sozinho no palco, como uma vulgar estrela pop ou eclesiástica evangélica, com o microfone oculto no cabelo ou, em casos desesperados de incompatibilidade com o "progresso", de microfone na mão à Marco Paulo ou à Rui Rio. O texto, se ele for marrão, está na mona e nuns papelinhos discretos nas mãos que desenham no ar o maravilhoso futuro que o "programa" traz. Se não for, há um teletexto para o qual ele olha disfarçadamente por entre as palmas dos figurantes e militantes. Para resumir, os "programas eleitorais" são coisas que normalmente se abandonam no dia a seguir às eleições por causa de outra coisa designada por "realidade", seja ela a propriamente dita, outros partidos, um PR que leva a sério o que faz e, a mais relevante de todas, o poder e a sua manutenção. O PS, quando está no poder, é inexcedível e inimitável neste género de circo político-mediático. Foi assim com Guterres da "razão e coração", com Sócrates da "força e confiança" e com Costa do "fazer ainda mais e melhor". É, pois, de esperar o pior. Sob a capa de "uma abordagem judicial integrada", Costa, no seu espectáculo do Pavilhão Carlos Lopes, defendeu a criação de tribunais especiais para julgar o crime de violência doméstica. Mas, como sabe que são inconstitucionais, concluiu como um vulgar "democrata iliberal" agora tão em voga desde a América Latina ao Leste europeu: se é inconstitucional, muda-se a Constituição para passar a ser. Costa só não foi ministro das Finanças como o seu homónimo Afonso da "República Velha". De resto, é um fenomenal epígono do caudilho que defendia haver "maus" e "bons" portugueses, e que o país "não pertencia igualmente a ambos". Sabemos como Afonso tratou, com método, quem não pertencesse. Também à República dele ocorreram tribunais especiais, os "tribunais de honra" invariavelmente condenatórios, e uma legislação penal ideológica e persecutória. Não convinha repetir.

João Gonçalves

A Direita branca

O Movimento 5.7., de que sou um dos fundadores, comemorou na sexta-feira, em Lisboa, os 40 anos da apresentação pública da Aliança Democrática. Na altura, sentaram-se na mesa da conferência de Imprensa os presidentes dos três partidos constituintes, o PSD, o CDS e o PPM. Por trás deles, estavam os que tinham pensado a AD com os chefes partidários, nomeadamente Henrique Barrilaro Ruas, Vasco Pulido Valente ou Adelino Amaro da Costa. É preciso recordar, como fez Pulido Valente, que "a "iniciativa" privada, as "competências" e o Ocidente cristão odiaram a AD desde o princípio e não houve argumento, promessa ou pressão que não usassem para a matar no ovo". O ponto era evitar a apresentação de listas conjuntas, o que estava em aberto naquele 5 de Julho de 1979. No fundo, tratava-se de saber se o PSD "dava a si próprio uma possibilidade de ganhar, escolhendo listas conjuntas". Ou seja, Sá Carneiro, o presidente do maior partido da AD, "tinha conseguido reunificar o PSD e formar umas das maiores coligações da história política portuguesa" que, por essa altura, se alargava a reformadores e independentes. Este gesto correspondeu, como escreveu Vasco, à criação da Direita democrática. Ela veio para a rua, "sem disfarce e sem desculpas, e proclamou o seu direito à vida, isto é, a governar sozinha, de acordo com as suas convicções e as suas luzes". A autoridade adquirida pelo seu líder "devolveu-lhe a confiança e a dignidade", e a vitória "acabou de constituir a democracia em Portugal", com verdadeiras alternativas. Dos três famosos "DD", adoptados pelo MFA da "tese" que Medeiros Ferreira enviou do exílio a Aveiro, o segundo, democratizar, deve-se à AD. Porque é que lembro tudo isto agora? Porque estamos a três meses de mais umas eleições legislativas e a Direita, dispersa por três ou quatro partidos, timorata diante de António Costa, nem sequer tem um candidato a primeiro-ministro para apresentar. É, aliás, a primeira vez na história do regime em que só o incumbente concorre verdadeiramente ao cargo. Neste século, só um governo de coligação da Direta democrática conseguiu perfazer uma legislatura e ganhar, sem maioria absoluta e de novo federada sob a égide de Passos Coelho, as eleições seguintes. Mas Costa introduziu a "novidade" da governação sem eleição directa por arranjinhos tácticos. E a Direita ainda não soube responder a isso, como em 1979, com um PS igualmente hegemónico e um PR tão ou mais dubitativo que o de então, mesmo vindo da Direita. Resistência, pois, e paciência.