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João Gonçalves

Um homem sem posições

O IV Governo Constitucional, chefiado pelo doutor Mota Pinto, provocou indirectamente uma cisão no grupo parlamentar do PSD. Corriam os anos de 1978 e de 1979, e Sá Carneiro, depois do famoso congresso do Cinema Roma, tomou finalmente conta do partido. Pressentindo, e bem, que o Governo Mota Pinto era o prelúdio da "Direita" que ele acabou por federar através da Aliança Democrática, fez-lhe guerra e, com isso, ficou sem parte considerável do grupo parlamentar". Chamava-se a essa gente as "opções inadiáveis". Deram num pequeníssimo e inútil partido, a ASDI, que a AD e Mário Soares ajudaram a dissolver depois das legislativas de 1980. Três anos depois, Mota Pinto aceitaria um acordo de Bloco Central com Soares. Voltou ao Governo para ser número dois do secretário-geral do PS e, juntos, aplicaram um duro "programa de ajustamento" imposto pelo FMI. Naquele tempo aconteciam coisas destas porque os protagonistas tinham todos, para simplificar, "posições" politicamente fortes. Ou seja, faziam política. Pelo contrário, o actual presidente do PSD aprecia destacar-se por não ter posições algumas. As raras que se conhecem, ou são do grupo parlamentar - e, dentro deste, de alguns deputados ou do líder do grupo -, ou são de criaturas espúrias, que o país muito adequadamente ignora, colocadas por ele num tão gigantesco quanto ineficaz "conselho estratégico nacional" e na sua brilhante comissão política. As dele, normalmente, são para "esclarecer", contrariando, o que os outros disseram. Sobre o Orçamento para 2019, uma peça essencialmente política, Rio faz de contabilista. Só diante do deve e haver se pronunciará, disse, sabendo que faz parte dos "compromissos" assinados entre as esquerdas aprovar os orçamentos de Estado. E que esta legislatura existe contra o PSD e o CDS. E que este Governo foi constituído exclusivamente para impedir o centro-direita de governar. Ninguém entenderia, salvo os bonzos que têm horror à identidade conflitual da democracia, que o PSD fosse agora ajudar o Governo "a terminar com dignidade" um mandato politicamente indigno. Rio até pode ser autoritário, mas não tem um átomo de autoridade sobre o centro-direita. O que a autoriza a procurar outras vias federadoras, já nas Europeias de Junho de 2019, porque a mera dimensão de indigenato é insuficiente face ao que se passa lá fora. Estou, por isso, atento a Pedro Santana Lopes e a outras coisas. Rio decididamente não interessa.

João Gonçalves

A bambochata do Alto da Bela Vista

A televisão, ao final do dia da passada sexta-feira, ofereceu um espectáculo sórdido, em directo, de um campo aberto onde tem lugar um concerto de rock português. Era a "homenagem" a um simpático defunto músico. Juntou o regime e o Estado português em peso, salvo o líder do maior partido parlamentar, o do PC e a dra. Assunção Cristas, a quem o tino se sobrepôs à condição de, suponho, também vereadora da CML para lá de chefe do CDS. O quarteto mais conspícuo era constituído pelo dr. Medina, o facilitador de lugares de estacionamento para Madonna, às Janelas Verdes, em Lisboa; o caudilho Costa, acabado de chegar das "preocupações" europeias, exibindo um sorriso de cabo a rabo; o dr. Ferro, segunda figura da egrégia nação, com ar de quem tinha sido recolhido num jardim infantil; e o primeiro combatente mundial contra o populismo, o doutor Marcelo, que, menos de 24 horas depois, já estava na Rússia a assistir e a comentar o claudicar patriótico da selecção aos pés do Uruguai. Ao lado, e por trás destas eminências, viam-se novos e velhos donos "intelectuais" do regime, como Catarina Martins ou Louçã, acompanhados de meia dúzia de oportunistas que aparecem sempre a pensar como hão-de fechar o próximo negócio em Lisboa. Pulavam e, constou, cantavam uma canção popularizada pelo morto ilustre, adaptada do "habitualmente" do antigo regime. Não me recordo - depois do episódio da "Incrível Almadense" com o então primeiro-ministro Vasco Gonçalves, no Verão de 1975 - de o Estado português, nas figuras dos seus mais elevados dignitários, ter ido tão simbolicamente abaixo com aquele "circo" que nada tinha de feras. Por coincidência, estava a acabar de ler "O Fundo da Gaveta", de Vasco Pulido Valente, que recomendei a semana passada. É sobre o século XIX, mas, episódios "edificantes" como o narrado são reveladores das poucas oscilações nos "costumes" do regime, agora amplificados pelas novas plataformas de comunicação. Na segunda metade daquele século, o "Diário Popular" (este esclarecimento devo-o gentilmente ao autor do livro) acolhia uma coluna intitulada "Boletim Oficial do Reino do Congo no reinado de D. Jacinta". Portugal era o "Reino" e o presidente (na altura, o do Conselho) "conduzia o país pela "vereda da mais patusca e folgazã bambochata"", enquanto D. Luís "levava um séquito de 117 criados, lacaios e cortesãos, para uma prosaica caçada na Lagoa de Albufeira". Na verdade, daqui ao Alto da Bela Vista é só um salto na história.

João Gonçalves

O centro do mundo

O título desta crónica é furtado a Ana Cristina Leonardo, autora de "O centro do mundo" (Quetzal, 2018) que "mantém a ortografia anterior ao acordo ortográfico de 1990". O livro de Ana Cristina é atípico no emaranhado indistinto do que passa por literatura portuguesa contemporânea. O que o torna num objecto demasiado interessante para que nos conte simplesmente uma história. Mas é à história que vai buscar um personagem que, de tão real que na verdade foi, permite-lhe ser ficcional no sentido de o podermos colocar, aqui e agora, no centro do nosso grande e pequeno mundo. E o que faz do livro um acto singular de cosmopolitismo erudito, sem snobeiras ilegíveis e analfabetas. Mais ainda há outro livro antes de chegar ao meu ponto. Vasco Pulido Valente regressou à edição com "O fundo da gaveta, contra-revolução e radicalismo no Portugal moderno" (D. Quixote, 2018), onde junta dois ensaios sobre o nosso século XIX, um tempo que verdadeiramente só terminou com a emergência dos militares, primeiro, e de Salazar, a seguir, em 1926. Nada do que ocorre hoje em Portugal, neste nosso maravilhoso centro do mundo, se entende se não se souber pelo menos o que se passou a seguir ao Antigo Regime (o do século XVIII, evidentemente). De onde vem o "povo", as "elites", as "esquerdas", as "direitas", em suma, o "mundo" da sociedade portuguesa de agora de que as televisões não cessam de nos mostrar o "centro"? Basta esgaravatar um bocadinho para que essa "identidade central" apareça. O episódio pequenino da destituição de Bruno de Carvalho foi uma imagem eloquente disso mesmo. Com a saída de João Rocha, que vinha do "marcelismo", o Sporting foi tomado pelo regime e respectivas elites. Essa anormalidade democrática que consiste em "um homem, vários votos", e não "um homem, um voto", levou ao domínio das "sociedades anónimas desportivas" pelo dinheiro e não pelos adeptos. Depois das pantalhas betinhas do negócio, o dinheiro e as elites apostaram em Bruno. Ainda há quatro meses apostavam, embora ele viesse a dar sinais que já não servia os antigos "donos". Parece que deixou obra, as "modalidades", e levantou o clube da miséria desportiva, e não só, em que os "donos" o tinham largado. Quando o radicalismo de Bruno começou a pôr o seu, deles, centro do mundo em causa, a "aristocracia" homem-votos devolveu-o ao domicílio. Com a preciosa ajuda das televisões e dos comentadeiros escolhidos a dedo. É, afinal, uma história bem portuguesa. Que se percebe melhor lendo livros e vendo menos televisão.

João Gonçalves

Falhanços

Passou ontem um ano sobre o início da catástrofe de Pedrógão Grande, a primeira de duas em 2017. O presidente da República, num artigo a pretexto do assunto, chamou a atenção para duas características ancestrais do país: as assimetrias (territoriais, populacionais e de qualificação nacional) e as desigualdades que decorrem delas e que permanecem. Marcelo apelou a que o resto desta legislatura e a próxima as resolvam, caso contrário, escreveu, "falhámos como país". Salvo o devido respeito, falhamos como país desde tempos imemoriais. Tivemos, é certo, momentos em que nos afirmámos na ordem interna e externa. E protagonistas, poucos, à altura desses momentos. Mas a "apagada e vil tristeza", que o Épico porventura chorou mais do que cantou, não desapareceu. O futebol é fraca consolação. São extensos os interregnos de suspensão patriótica da inteligência nacional. Estamos, aliás, a viver um deles com epicentro na Rússia via televisões. Ora um ano não é nada e representou tragicamente tudo para as vítimas e para os sobreviventes de Pedrógão Grande e arredores. As romarias político-mediáticas não pararam, embora o presidente seja o único a fazer o que pode e deve. Mas o que é que verdadeiramente mudou para além da morte súbita que veio juntar-se à morte lenta de tudo o que não é Litoral? Há Europa ali, Europa no sentido reivindicativo e de progresso, de coesão e de unidade diversa, de fraternidade moral e de solidariedade material? Não se vive quando apenas se sobrevive. A dignidade também desapareceu - há pessoas que ainda agora não conseguem sair de casa e quem "viva" a pensão de 200 euros, incapacitado - porque as funções de soberania do Estado falharam. Falhámos. Pelo menos há dois séculos que andamos a falhar. O "povo" da nossa suposta democracia liberal vegeta no abandono ou, se tem a pouca sorte de ser citadino, na indiferença e no individualismo doentio. Almeida Garrett em 1846: "a sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era, mas, muito menos, ainda pode ser o que é". Não se enganava. Costa, representante de um Estado incapaz e ineficaz, não se envergonhou de ter ido ontem a Pedrógão dizer que o país "devia ter estado mais alerta a tempo e horas" e que o que interessa é a sua extraordinária "reforma da floresta". Por uma criatura desta miserável envergadura, que faz sentir vergonha alheia, é que o Garrett não esperava. Nós também não.

João Gonçalves

Moderação e populismo

Às segundas-feiras, no canal generalista TVI, o jornal das 20 horas recebe, para comentário, o dr. José Miguel Júdice. O dr. Júdice é um dos mais ilustres advogados da nossa praça. Já foi político em sentido técnico, de excelente cabeça, escrita e falada. Concorre, mais ou menos à mesma hora, com o ex-advogado e escritor a tempo inteiro Miguel Sousa Tavares, num "formato" da SIC que não ajuda nada a disfarçar o enfado e a crescente superficialidade argumentativa do comentador. Júdice prepara-se. Sousa Tavares parece que se aviou em notícias cinco minutos antes de entrar no ar. Júdice estimula: não por acaso, o programa interroga "porquê". Sousa Tavares, em geral, aborrece de tão aborrecido. Isto vem a propósito de Júdice ter dito que a distinção entre Direita e Esquerda não faz tanto sentido quanto a entre partidos moderados e partidos populistas. Se quisermos, e para simplificar, entre moderação e populismo. Escusado será dizer que, na língua de pau do "sistema", ou seja, da moderação, o populismo é uma degenerescência da democracia e uma ameaça. Se a moderação recua nas urnas, como recentemente em alguns países europeus, é-se imediatamente advertido para os perigos do populismo, em geral associados à chamada "extrema-direita", porque a congénere de esquerda "moderou-se". Nunca ocorre à moderação perguntar o que fez ou deixou de fazer para prevenir a emergência democrática do populismo. É mais fácil estender o dedo retórico e acusador. Convém observar melhor a "extensão do domínio da luta" da moderação. Por exemplo, em Espanha, o terceiro ou quarto partido nas sondagens, até ontem, formou governo. O presidente nem sequer era deputado. Instituiu o "conselho de ministras e ministros" que, nomeadamente por excesso e por defeito, não respeita a "paridade" que a moderação tanto aprecia. Isto não é populismo? Por cá, a moderação que Costa fundou com o radicalismo, em 2015, já absorveu a extrema-esquerda, o PC, a CGTP, a UGT, a CIP, a CAP, a CCP, os professores e o dr. Rio, que propôs resolver a questão da natalidade atirando-lhe milhões de euros inexistentes para cima. Finalmente, pelos próximos dias e semanas, a moderação hiberna com a bola na Rússia. Abre todos os telejornais, obrigou o eloquente dr. Ferro a recorrer à Wikipédia e dará lugar a idas e voltas de Estado até às estepes russas para assistir aos jogos da selecção. Não andará a moderação, com tanta aselhice um pouco por todo o lado, a fornecer o seu alto patrocínio ao populismo?

João Gonçalves

Escolher o Homem contra a morte

O Parlamento discute amanhã, aprovando ou reprovando, projectos apresentados por alguns partidos para abreviar a vida humana através da chamada morte medicamente assistida. Já existe o testamento vital ao qual recorreram mais de vinte mil portugueses até agora. Ou seja, na prática qualquer um de nós pode preencher esse testamento lucidamente, firmando o propósito privado de não depender da artificialidade científica para prolongar a sua própria vida em caso de tal se aplicar. Porém, a circunstância de esta legislatura atípica ser rebocada pelo Bloco, em praticamente qualquer parvoíce que lhe ocorra - o Bloco é a turbina intimidatória do PS quando o Governo se excede em europeísmo -, conduziu à introdução da eutanásia no debate parlamentar, o ano passado, e legislativo agora. PC e CDS votam contra. O PSD, com o maior grupo parlamentar, está "liberto" para cada um votar de acordo com a sua consciência. O PS também, mas o caudilho, reeleito olimpicamente secretário-geral no fim-de-semana, pretende o "alargamento da liberdade" à morte assistida. Rui Rio também. Os líderes dos dois maiores partidos escudam-se na retórica da "liberdade de consciência" para, na prática, imporem aos deputados a sua. Rio conseguiu a proeza de, nesta matéria, ser mais totalitário que Costa ao afirmar que são inadmissíveis "pressões" exteriores ao Parlamento e que o Estado tem a "obrigação" de permitir a eutanásia. Com disparates desta gravidade, Rio hipotecou a praticamente nula autoridade política que tinha quanto à condução do centro-direita. E não se perde nada. A presidente do CDS, e bem, exigiu a votação nominal dos projectos pelo que ficaremos a saber até onde chega a "consciência" de todos e de cada um dos deputados. A gravidade política disto, para além da amplamente explicada pela classe médica e afim, está na falta de respeito pelo eleitorado. Nenhum partido esmiuçou o assunto nas agendas e nos programas eleitorais de 2015. Nenhum deputado tem, assim, mandato popular para derrogar o princípio constitucional da inviolabilidade da vida humana em nome da ascensão, fascizante e "apartidária", do individualismo mórbido nas nossas sociedades. Não há "boas mortes". Sobretudo não pode haver morte "estadualizada" porque, como escreveu Lucas Pires, é o Estado que tem de se humanizar, "não é o Homem quem tem de se estadualizar". Nas palavras do insuspeito Sartre, "sou responsável por mim e por todos, e crio uma certa imagem do Homem por mim escolhida; escolhendo-me, escolho o Homem".

João Gonçalves

Bruno e uma homenagem

Deve ser a primeira vez que escrevo sobre a bola. Não gosto, não sigo, não sou "adepto". Mas, nos últimos dias, a bola irrompeu na vida pública por uma porta lateral escancarada vezes em conta. Um bando de energúmenos invadiu a "academia" do Sporting, e sovou metodicamente jogadores e equipas técnicas. O referido clube desportivo já andava a ferver por outros motivos. Suspeitas disto e daquilo, relações tensas entre os "donos" do clube, resultados aborrecidos, etc., etc., tudo desaguou na incursão criminosa de Alcochete. Proibir a existência de claques é uma decisão política que não depende da criação abstrusa de "autoridades" ou de "comissões", sempre tão ao gosto do PS, para prevenir a violência especialmente no futebol. Existe mais do que base legal penal para actuar e falar menos. A tagarelice, porém, tomou a dianteira e pretextou uma avalanche demencial acerca do Sporting, com o seu peculiar presidente lá bem no meio. O decurso do tempo transformou Bruno de Carvalho na coqueluche do clube de Alvalade, a quem não faltaram apoios para a reeleição albanesa de há escassos meses. A bola é muito parecida com a política. Não é por acaso que não há figura do regime, seja de que partido ou corporação for, que não faça uma "perninha" num clube desportivo. No Sporting isso nota-se mais que nos outros dois "grandes", mais "populares" e menos elitistas. Bruno foi olhado inicialmente com desconfiança pelos chamados "notáveis" que acabaram a arrastar-se a seus pés. Hoje, com a lamentável segunda figura do Estado à cabeça, estão todos "envergonhados", escrevem manifestos em mau português contra o homem e permitem que um tipo insuportável e soberbo como o sr. Marta Soares seja o rosto "sério" de um clube em polvorosa. A sério? A sério. Não admira que Bruno, impulsivo e acossado, estivesse uma tarde inteira a bater no ceguinho diante de uma comunicação social que o execra. Se foi ou não um "suicídio" em directo, só o tempo e os "adeptos" o dirão. Eu acho-lhe graça.