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João Gonçalves

A honra perdida de um Governo

Os servidores públicos sabem isto de cor. No termo de posse que vão assinar, é-lhes pedido que digam em voz alta a seguinte frase: "juro, por minha honra, que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas". Ao presidente da República, é-lhe exigido um juramento, com a mão direita sobre a Constituição, em que afirma jurar cumprir, e fazer cumprir, o texto fundamental. O caso mais conspícuo do primeiro juramento ocorre na posse dos membros do Governo. O Governo é, nos termos da Constituição da República, "o órgão superior da Administração Pública", ao qual, nesta matéria em particular, compete "dirigir os serviços e a actividade directa do Estado", "superintender na administração indirecta e exercer a tutela sobre esta e a administração autónoma" para "defender a legalidade democrática". Ao praticarem aquele juramento diante do presidente da República - que, por força do acto singular, geral, directo e secreto, que o elege, representa toda a nação -, os membros do Governo, do primeiro-ministro ao mais remoto secretário de Estado, ficam cientes do respectivo "caderno de encargos" políticos, administrativos e morais a que corresponde o exercício e a defesa intransigente do serviço e do interesse públicos. Se assim não for, são perjuros, mentirosos e eticamente uns bandalhos. Sem honra. Numa democracia adulta, como parece ser esta a caminho de meio século de existência formal, nada mais seria necessário. Nem "códigos de ética", nem questionários ridículos e autocomplacentes em que o Governo, o próprio Governo, avalia se os próximos colegas são dignos de pertencer à confraria. Este Governo, em concreto, ficou logo ferido de morte na sua formação inicial. Sob vários aspectos (e estávamos, então, ainda longe de adivinhar quantos e quais), já era à nascença o pior dos três que António Costa apresentou à posse. Em escassos meses, foi-se autodissolvendo e permitindo que em sectores da administração indirecta do Estado, como é o caso de empresas de capitais exclusivamente públicos, o interesse público fosse atirado para os contentores do lixo. Nem, pois, honra, nem lealdade perante o país. No sábado, o secretário-geral do PS, e primeiro-ministro, falando aos fiéis da Comissão Nacional do partido, pediu "exigência": "Muito exigentes, muito mais exigentes", repetiu sem se rir a não ser de nós. Vai para oito anos disto e, agora, acossado, é que teve uma epifania e pediu obra em três meses? Vai tarde. É que, independentemente de qualquer retórica partidária, e aos olhos do país, a honra deste Governo está perdida para sempre. Lamento.

João Gonçalves

O homem de Deus que acendeu fogueiras na noite do Mundo

A morte do Papa Emérito Bento XVI, Joseph Ratzinger, no último dia de um ano, em tudo, desagradabilíssimo, atingiu-me pessoalmente. Devo a Ratzinger, à sua obra filosófica e teológica, e, sobretudo, ao seu magistério enquanto líder da Igreja Católica, a renovação espiritual da minha fé. Um pouco à maneira do italiano Gianni Vatimo, vacilei um pouco na minha fé a dada altura do caminho - talvez a do famoso meio dele, de Dante - e tornei-me naquilo que este filósofo designou, com felicidade, um "mezzo credente", na linguagem popular, nossa, um crente de meia-dose. Ora Ratzinger ensina-nos que não existem crentes de meia-dose. Desde cedo, aquele que pertenceu ao grupo dos teólogos e homens da Igreja, que reagiram a uma hipotética deriva "conservadora" do Concílio Vaticano II, percebeu duas coisas fundamentais a que o posterior cardeal de Munique, prefeito para a Congregação da Fé e, finalmente Papa consagraria o essencial da sua reflexão exemplar. A primeira, que a Igreja não é apenas mais um monumento estático do proselitismo contemporâneo. A Igreja não faz proselitismo e deve combater o relativismo moral e material do contemporâneo estéril. Depois, não se cansou de afirmar a importância de a Igreja habituar-se a viver em minoria. A Igreja, a católica, evidentemente, por natureza e pela semântica, é um todo de homens e mulheres, leigos ou religiosos, unidos espiritualmente em Cristo. Não representam uma "multa turba". Essa é a que O negou, apedrejou e crucificou. Seguir Cristo, e trazer Cristo em permanência nos nossos corações tendencialmente frívolos e vazios, é uma obrigação natural, permanente e silenciosa, mesmo quando em comunhão. Comunhão quer dizer partilha do mistério do nascimento, morte e ressurreição de Cristo. Algo que não tem de ser "físico", mas que dá sentido à vida. A vida realmente "vivida" é o significado primeiro e último da Cruz. Não entender a Cruz é não entender nada de nada do que se anda por cá a fazer. "Pega na tua Cruz e segue-me", diz o Evangelho. Julgo que é o melhor epitáfio para Joseph Ratzinger. No seu "testamento espiritual", que o Vaticano divulgou após a sua morte, Bento XVI, logo em 2006, deixou claro que "Jesus Cristo é, na verdade, o caminho, a verdade e a vida - e a Igreja, com todas as suas insuficiências, é verdadeiramente o Seu corpo". Nós somos o Seu corpo. E "a esperança de Deus é maior que o meu fracasso". Que o nosso fracasso. O Papa Emérito, de quem nos despedimos fisicamente esta semana, foi um "humilde trabalhador na vinha do Senhor", desse Deus que "acende fogueiras na noite do Mundo para convidar os homens a reconhecer em Jesus o "sinal" da Sua presença salvífica e libertadora".

João Gonçalves

Não me habituo

António Costa não é tipo para estados de alma, como não me tenho cansado de dizer aqui. Pelo contrário, onde existiam estados de alma e inteligência emotiva em Sócrates, aqui floresce alegremente um desalmado (no sentido "agustiano" do termo) numa inteligência gelada e oportunista. Se quisesse parafrasear José Sócrates, diria que Costa é o líder com que o PS e a esquerda radical sempre sonharam depois da ocupação do Estado pós-revolucionário entre 1976 e 1978. Desprovido dos maneirismos estritamente jacobinos e anacrónicos da I República - adora carros eléctricos, cartões "simplex" e energia verde-alface -, Costa é a melhor emanação do típico cacique do velho Partido Republicano Português. E o melhor clone político-partidário do doutor Afonso Costa. Quando ele apareceu, em 2015, não era difícil intuir que não nos íamos livrar dele muito cedo. A Direita subestimou-o e, também por isso, ele permite-se tratá-la com o mesmo desdém e com a mesma violência verbal dos "democráticos" do seu precursor. Sobre este possui, ainda por cima, a vantagem de não ser fisicamente cobarde. De resto, desde que foi empossado com maioria absoluta, há nove meses, que exerce sobre o país uma espécie de "ditadura democrática", como a longa entrevista concedida à revista "Visão" deixou transparecer com notável clareza e sem ambiguidades. Costa não tem propriamente uma "obra" para exibir, a não ser a extraordinária manipulação dos dinheiros públicos e comunitários que lhe vêm caindo no colo como cerejas e que atira ao "povo" como rosas. Costa não está lá para mudar o regime ou proceder a reformas, como Soares teve de fazer nos anos 70 e 80. Ou Sócrates, quando o tentou com a primeira maioria. Parece que até na regionalização tenciona contornar a chatice de ter de ouvir o "povo", com uma solução administrativa que consolide o poder caciqueiro e oligárquico do PS. Pratica a caridadezinha orçamental, distribuindo bodas selectivas aos "pobres", transformando esses exercícios circunstanciais num bolo-rei permanente, com fava e brinde. Quando aborda política pura, como na dita entrevista, não resiste ao discurso de cabaret da coxa, aliás genialmente ilustrado na fotografia de capa da revista. Diz-se do lado do "povo" contra a "bolha mediática", estando perfeitamente ciente de que não toca em nada de profundo que evite a proletarização das classes médias e a pauperização material, moral e cultural do dito "povo" em sentido amplo. "Nasceu" cansado para gerir esta maioria, salvo na propaganda reles, uma coisa que nem a sua insuportável arrogância semântica, nem a falta de sono conseguem disfarçar. Lamento. Para "viver habitualmente", já tivemos o doutor Salazar, obrigadinho. Não, não me habituo.

João Gonçalves

A morte utilitária

A minha Mãe morreu há seis meses. Nos dois antecedentes, esteve internada duas vezes num hospital do SNS. Da primeira, saiu de lá com uma bactéria no nariz. Da segunda, onde entrara com uma pneumonia por aspiração (as coisas que aprendemos na vida), teve alta mal curada e praticamente já não abandonou a cama da residencial. Tinha 94 anos, mas podia ter 14, 34, 64, ou 84. Hoje as certidões de óbito não nos dizem do que morrem as pessoas. É uma coisa anódina, apenas com as circunstâncias de tempo e de lugar. Horas antes, vira-a, mais aflita que o costume - problemas respiratórios - e a expressar-se sobretudo pelo olhar e pelas mãos. O que posso afirmar é que retenho dessa tarde o mesmo brilho que conheci em sessenta anos nos olhos da minha Mãe. Uma "pequenina luz bruxuleante" de vida, e não de morte, que talvez ela intuísse ser a última, e eu não. Agarrou-se sempre mais à vida do que alguma vez me agarrarei. Tratava-se. Ia às consultas. Fazia exames. Tomava o que lhe prescreviam. A morte sobreveio calma e naturalmente. Mas não é da minha Mãe que quero falar. Pela terceira vez, julgo, a Assembleia da República aprovou a sua versão da lei da eutanásia, ou da morte medicamente assistida, a maior contradição de termos que me ocorre. Irão acrescentar ao juramento profissional a que os médicos estão obrigados que, para além de defenderem a vida humana até ao seu fim natural, também assistirão, ou seja, cuidarão da morte a pedido do paciente injectando-lhe tranquilamente o veneno que o juramento de Hipócrates veta? No nosso ordenamento jurídico existe, há mais de uma década, o chamado testamento vital que apoiei quando a dra. Maria de Belém Roseira o propôs. Se não o usam, não temos culpa. Já à eutanásia, condeno-a sem ambiguidades amorais ou "legais". Como escreveu o dr. Passos Coelho, no "Observador", "há algo de perverso em se poder usar o conceito de dignidade humana para executar um regime público que ajuda a pôr fim à vida". O que Marcelo fizer quando a lei chegar a Belém terá, na presente conjuntura política, social e cultural, um valor meramente simbólico. Como o da lei, aliás, e que precede a sua aplicação. Por isso subscrevo as palavras do escritor francês Michel Houellebecq que faço minhas. "A partir do momento em que um país - uma sociedade, uma civilização - legaliza a eutanásia, a meu ver perde qualquer direito ao respeito. A partir daí, passa a ser não apenas legítimo, mas desejável, destrui-lo. Para que uma outra coisa - um outro país, uma outra sociedade, uma outra civilização - tenha oportunidade de aparecer".

João Gonçalves

A oitava marca

Para celebrar os sete anos de mando, António Costa juntou os fiéis em Lisboa. A encenação, não fora dar-se o caso de o evento ter decorrido dentro de portas - na antiga estação de onde eu seguia de barco para o Barreiro, e, depois, para a recruta em Tavira, de comboio -, fazia lembrar as antigas "performances" de Sócrates, em geral organizadas numa espécie de barracas de luxo, à beira de uns metros de estrada inaugurados ou de um túnel. O PS chamou à coisa "7 anos/7 marcas" sem se rir. Pelo contrário, Costa jurou aos figurantes que isto vai ultrapassar o Leste europeu, logo no dia em que se soube estarmos com um PIB per capita inferior ao da Roménia. Mais. Andamos a crescer mais que a França, a Espanha e a Alemanha, dez vezes mais do que no ominoso "antigamente", sobretudo o do próprio PS. Enfrentámos "catástrofes naturais" (não sei se estava a incluir os seus três governos em tais calamidades). Estamos numa guerra presumivelmente contra a Rússia. Levamos com a inflação, mas temos garantida a "neutralidade carbónica" em 2050, etc., etc. Em suma, ironia do destino, voltámos para trás, para o velhíssimo "pelotão da frente", de novo recuperado junto aos cacilheiros pelo dr. Costa. Claro que o dr. Costa não explicou como é que conseguiu todas estas "vitórias" que ele, no tempo do sr. engenheiro e quando era comentador televisivo, designava por "sucessos sobre sucessos". Nunca se ouviu, por exemplo, a sigla BCE ou a preparação para as "7 marcas", iniciada ainda no XIX Governo Constitucional que, por acaso, salvara o país das "marcas" deixadas pelo mesmo PS da restaurada Estação Fluvial de Lisboa. Em compensação, o homem jurou pela "concórdia nacional", o "ADN" do PS, como nos antigos tempos da União Nacional, em que quem não é por nós dava jeito que fosse. Mesmo assim, os anos serão "duros". E Marcelo, noutro lado, até lhe acrescentou o "muito" para afirmar estar "muito atento àquilo que vai ser este ano de 2023". Nada de novo. Ele está sempre atento ao ano seguinte ao ano em vigor, e assim sucessivamente, com as bem-aventuranças que se conhecem. Até conseguiu que Costa se refastelasse, em Janeiro, numa maioria absoluta que permite, entre outras coisas, estas amenidades metafísicas sem o menor interesse para o país e para a realidade. Talvez pudéssemos aplicar a todos estes exercícios de pura frivolidade política uma frase, adaptada livremente por mim, de Gustave Flaubert, citado por Julian Barnes em "O papagaio de Flaubert". "O sonho da democracia é levar o povo a atingir o nível da estupidez conseguido pela burguesia". Há-se ser a oitava marca.

João Gonçalves

Vão-se catar

Conheci o Luís Rosa, há dez anos, quando integrei o gabinete do ministro Miguel Relvas. Terá lá ido recolher elementos para algum artigo, e desde aí tenho acompanhado sempre a sua actividade profissional com atenção. Ficou-me a impressão de uma indisputável seriedade na investigação, da recusa altamente deontológica de "fazer fretes" ou de "agradar", do cuidado posto em tudo o que afirma e escreve, fundamentando criticamente, como deve ser, o trabalho jornalístico que se preza. Ainda estou a ler o seu livro "O governador" (D. Quixote), e nada do que até aqui tenho lido desforça o que disse antes. Na apresentação, Luís Marques Mendes, solitário - porque Francisco Assis, também convidado para o efeito, tremelicou de temor reverencial diante do chefe do partido dele e do governo, e cobardemente ausentou-se -, produziu um notável texto, não apenas de análise da obra e do respectivo contexto político e governativo (o mandato de Carlos Costa como governador do Banco de Portugal no período complexo de 2010 a 2020), como de "resumo" do estado da arte a que chegámos, e como lá chegámos, em matéria económica e de sistema financeiro. Parece que aos principais banqueiros portugueses lhes repugna ler o livro, como afirmaram a alguns órgãos de comunicação social, com a mesma sobranceria palonça que guiou os seus antecessores, entre 2009 e 2011, para não andar mais para trás, até ao desastre anunciado subsequente, e cujo cume se atingiu em 2014 com a estrondosa queda do BES. Quanto ao regime, reagiu em modo virginal ofendido o primeiro-ministro, ameaçando o antigo governador do banco central com um processo judicial - um péssimo caminho, como recordou o ex-bastonário Rogério Alves na televisão, este de "judicializar" a política, e logo vindo de quem enche a boca com "à política o que é da política, à justiça o que é da justiça". E a seguir, como de costume, Marcelo veio colocar a mãozinha impotente debaixo de António Costa a pretexto da sua magnífica intervenção na questão do BPI, a "mais difícil" (sic) do seu não menos glorioso mandato, agora coroado com as abstrusas declarações sobre o Qatar e os direitos humanos, onde meteu as referidas mãos pelos pés. Esta gente despreza o escrutínio democrático e a prestação de contas que é o que Carlos Costa, mal ou bem, deixa feito no livro do Luís. Nunca esteve, nem estará, acima de crítica pelo que fez ou deixou de fazer. Mas ver agentes políticos democráticos a falar em "traições" e "infidelidades" porque se revisita publicamente a história diz mais sobre esses falsos moralistas do que sobre quem se expõe com tudo o que isso acarreta num país moralmente pequenino e de curta memória. Vão-se catar.

João Gonçalves

Experimentem os imbecis

Acompanhei à distância o debate na generalidade do Orçamento para 2023. Julgo que o país também. Faltou-lhe aquela pimentinha dramática que Marcelo colocou na aprovação do documento, o ano passado, com o extraordinário resultado das eleições antecipadas. Mesmo após esta vergonha política e pessoal, o presidente não se privou de andar a murmurar pelos cantos as suas doutas "apreciações". Afinal, Medina não deixa de ser um neo-afilhado do homem depois da recandidatura presidencial. O PS absoluto e governativo conta muito com Marcelo, mesmo sabendo que Marcelo nem com ele próprio já conta. Do pior Parlamento dos últimos quase 50 anos, e com o pior Governo dos últimos sete, não podia esperar-se melhor. Nem em política, nem em urbanidade. De uma maneira geral, tivemos ministras e ministros sem rasgo, apenas a repetir uma velhíssima cartilha, torpe e desonesta, em que entra invariavelmente o Governo que antecedeu estes três. Só Medina pretendeu acrescentar um perfume distinto, como que para fazer de separador em relação ao passado próximo - que os socialistas querem esquecer - de aliança objectiva com a extrema-esquerda e o PC. Costa agarrou-se a um papel tribunício, a abarrotar de vulgaridade, como "dono" político da maioria. Logo, tanto do Governo como do Parlamento, distribuindo lérias e larachas à direita e à esquerda, algumas impróprias do cargo que ocupa. Para recorrer a termos do PC, noutros contextos, existe uma convergência objectiva de interesses entre Costa e Ventura na estúrdia vazia. Ao dirigir-se aos liberetas, ainda de Cotrim, como se dirigiu, Costa aproveitou e "puxou" pelo Chega, uma vez que há muito arrumou a histriónica Catarina no lugarzinho que o Bloco ocupa. Quanto ao mais, está fartinho de ser primeiro-ministro e, a cada gesto ou palavra, isso revela-se. Talvez esteja a preparar Medina para ser o seu Sunak, com tanto escândalo envolvendo governantes e "próximos". Por outro lado, fora da Assembleia, foi vê-lo a "avisar" o BCE por causa da inflação, uma ingratidão se pensarmos que, sem o BCE, Costa não tinha feito sequer um terço das flores que andou seis anos a fazer. Qualquer Orçamento entra em vigor desfasado da realidade momentânea. Este entrará particularmente, dado o ambiente interno e internacional, pelo que toda esta fantochada parlamentar e governativa é para esquecer. Lembro Eça em "Os Maias". "Todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado "com imenso talento", que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado. Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis." Eu também.

João Gonçalves

Marcelo ou o carácter equívoco dos factos

Marcelo Rebelo de Sousa, consabidamente o maior especialista nacional na criação de ruídos e barulhos políticos - uma coisa a que o regime chama, há quatro décadas, de "factos políticos" -, lançou, em Amarante, e num contexto totalmente desproporcionado, um dichote sobre Pedro Passos Coelho. Quando do "Expresso" lhe disseram que o visado não teria apreciado o gesto, Marcelo repetiu o dichote noutra cerimónia qualquer. Finíssimo, jogou com a sua permanente despersonalização. O presidente da República, e não "o" Marcelo Rebelo de Sousa, acha que Passos Coelho, para além de ter prestado alto serviço público como primeiro-ministro, tem um futuro político indisputável. O que se traduz pelo seguinte: "eu, mal tomei posse, fiz de tudo para acantonar o dr. Passos até ele se ir embora, mas sei perfeitamente que é a única figura de autoridade política sobre o saco de gatos da direita parlamentar e extraparlamentar". Então, cercado pela sua própria incontinência verbal, vá de trazer para a praça pública alguém que não só não está no activo político, como, e muito bem, guarda prudente silêncio sobre as diversas choldrices em vigor. Acossado por distintas pusilanimidades e contradições, Marcelo tirou um não assunto da cartola e assentou-o sobre alguém que nada tem a ver com estes últimos sete anos de hipocrisia institucional, pela dignidade e austeridade moral e política que sempre evidenciou. O país, que há escassos meses deu uma maioria absoluta ao PS e reelegeu Marcelo no ano passado, está é preocupado com a pobreza, com a inflação, com o deslaçamento social, com a demagogia dos poderes, com o vergonhoso caciquismo partidário transversal e com um governo de couves cheias de bicho. As pessoas de bem, essas, estarão numa espécie de exílio interior à espera de melhores dias. Ou não, porque em geral não pertencem ao bando do "pensamento que calcula". Nuno Gonçalo Poças, um jurista das novas gerações, escreveu no "Observador" um artigo fundamental sobre o PR e o situacionismo socialista, que Costa tornou no "parceiro ideal da estupidificação geral dos espíritos da pátria", numa "betoneira retórica". Ambos, Governo e PR, personificam, nas suas múltiplas despersonalizações de circunstância, "a agonia institucionalizada", "o pantanal lusitano". Nuno Poças "pede", em suma, um presidente da República que Marcelo já não consegue ser. Eu, presidencialista impenitente, requeiro o mesmo. Alguém que "traga eixos políticos contra a estagnação, a corrupção e a mediocridade". Marcelo estava em Amarante no centenário de Agustina. Que aprenda com ela. "O carácter equívoco dos factos, isso eu detesto".

João Gonçalves

A República ponto dois

A imagem é elucidativa. No palanque, enquanto discursava o presidente da Câmara de Lisboa, Santos Silva, Marcelo e Costa, por esta ordem, contemplavam, cada qual, o seu infinito. S. Silva olhava para o telemóvel, Marcelo para lado nenhum e Costa torcia-se levemente para a sua esquerda, incomodado com o sol. Em comum, os três exibiam, inconscientemente, a mesma comissura de lábios, popularmente conhecida pela "boca de cu de galinha". Foi há menos de uma semana, no 5 de Outubro de Lisboa. Comemoravam-se os 112 anos da implantação da ditadura do Partido Republicano Português (PRP), chefiada até Sidónio Pais pelo doutor Afonso Costa, com a complacência dos "vultos" que encontramos por aí espalhados em estatuária vária, e em nomes de ruas e avenidas. Ao presidente "desta" República, o alheado Marcelo, deu-lhe para comparar a excelência de hoje com a falta de qualidade democrática e cidadã em 1922, altura em que o outro Costa e os seus apaniguados recuperaram o poder, já sob a forma de "partido democrático" - que de democrático nada tinha. Esteve bem. É que as perguntas são sempre as mesmas, tal como Vasco Pulido Valente as formulou aquando do centenário da República, versão 1ª. "Como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam "carbonários", vigilantes de vário género e pêlo e a "formiga branca" (como lhe chamavam) do jacobinismo? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do "outro" ir de repente mostrar o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação da Igreja Católica? Um regime que "não legou ao futuro nenhum herói. Afonso Costa, António José d"Almeida, Brito Camacho, Bernardino Machado, António Maria da Silva eram visceralmente odiados por todo o país. Só Sidónio, que os prendeu e expulsou, conseguiu, por um ano, alguma popularidade; e esse foi morto por um devoto da Maçonaria". Porque recordo isto? Porque o regime actual nunca esteve tão próximo da corrupção moral e política da I República como agora. O PS, rapace e autoritário, domina o Estado e o país como o PRP fazia. O presidente não é "eleito" pelo Parlamento, e pelo partido dominante, mas está inerme como alguns dos seus ilustres antecessores citados, com a vantagem, meramente pessoal, de ir arejar frequentemente a sua impotência política para o estrangeiro. E o da Assembleia da República é um prepotente democrático que não tenta sequer a isenção política a que o cargo o obriga. Os episódios dos governantes "incompatíveis" passam pela "bimby" da ética republicana como cães por vinha vindimada. Esta "República ponto dois" está pela hora da nossa morte. Não, infelizmente, da dela.

João Gonçalves

A rainha do povo

O Governo português esteve bem ao decretar três dias de luto nacional pela morte da soberana inglesa, cujo funeral de Estado decorre hoje. Contrariamente ao que alguns escreveram, ou vociferaram por aqui e ali, "provinciano" e ignorante da nossa História teria sido não o ter decretado. O Governo da República, independentemente do que pensemos em termos políticos e político-partidários dele, não deixa de ser o Governo de Portugal. E compete-lhe, a todo o instante, ter presente, não apenas o tempo que passa mas, igualmente, o acervo que constitui uma História que o trouxe - nos trouxe - até aqui. Uma figura maior da História contemporânea mundial, chefe de um Estado multitudinário e multiterritorial que celebrou com o país o mais duradouro tratado da nossa história diplomática, no século XIV, até por excesso (setenta anos de reinado) estaria sempre, nem que por defeito, ligada a nós. Não se trata de uma mera questão afectiva ou mediática, tão mal compreendida em tantos meios, com mais ou menos ignorância e alacridade. Sim, num país em que se fazem filas para comprar bilhetes para a bola ou para concertos "únicos", exactamente como no Reino Unido, é complicado entender a "queue" de quilómetros, horas e dias que se formou em Londres para ver a rainha "lying in State". Eles, os britânicos, distinguem. Nós, aparentemente, não. Porque a nossa cultura cívica e histórica é tão raquítica quanto praticamente inexistente. Ou seja, os provincianos somos nós quando exibimos enfado por algo que não conseguimos entender. A maior virtude pessoal e política de Isabel II, com algumas inevitáveis infelicidades circunstanciais mais ligadas à própria família real que ao desempenho público imaculado, consistiu em liderar um sistema constitucional que permite ao chefe de Estado não ser arrastado - ou colocar-se voluntariamente lá - para o lodaçal inevitável da "política" e dos partidos. A rainha nunca "comentou". A autoridade que isso lhe conferiu reflectiu-se nas exéquias, afinal, populares a que assistimos até hoje à tarde. Isabel esteve sempre "por cima", sem nunca ter sentido necessidade de se vulgarizar, o que teria sido um desastre num reinado repleto de vicissitudes sociopolíticas e culturais. À semelhança da sua real antecessora, a homónima Isabel gozou sempre da afeição dos "Comuns", aqui no duplo sentido parlamentar e popular. Sem populismos. E, como ela, poderá dizer que "embora Deus me elevasse tão alto, no entanto conto como glória da minha coroa o ter reinado com o vosso amor". Descanse em paz que bem merece.

João Gonçalves

Isabel é morta

No momento em que escrevo, o corpo da rainha Isabel II atravessa a Escócia a caminho de Edimburgo. As exéquias da mais antiga e nobre chefe de Estado europeia - europeia no sentido da História e não no sentido de Bruxelas - prolongam-se até à próxima segunda-feira. É quase um justo momento operático wagneriano, com um prólogo e várias jornadas. Setenta anos de reinado representam um movimento de gerações único. Isabel assistiu a praticamente todo o século XX porque foi muito cedo chamada ao serviço público. Viu passar governos sobre governos, lá e por todo o Mundo. Viveu as primeiras duas décadas deste, até agora, tão absurdo século XXI com a mesma serenidade e com a mesma autoridade de sempre. Até ao penúltimo dia de vida, em Balmoral, quando recebeu a nova primeiro-ministro de Inglaterra. Passaram todos, de Churchill a esta infeliz Truss, e Isabel ficava e observava. Como observava o Mundo com o seu refinado humor inteligente e austero. Não teve grande sorte com a família. Mesmo aí, ergueu-se sempre acima da circunstância e da vulgaridade. Não é preciso ser monárquico para reconhecer nesta Grande Mulher o símbolo de uma maneira de servir que inexiste, há muito, antes do seu desaparecimento físico. Nunca me interessou - e julgo que a ela também não - qualquer dimensão cor-de-rosa da monarquia que personificava. Um "tom" acentuado aquando da breve passagem de Diana Spencer pela família, e que um saloio e oportunista Blair cavalgou como pôde. A rapariga nunca esteve à altura daquilo para que tinha sido convocada pela vida, como escreveu Agustina. Infelizmente, nem tão-pouco alguns de sangue real. Mas Isabel colocou-se permanentemente acima disso. Combinou, com rara sensibilidade, razão e inteligência, tradição e "modernidade" sem nunca transigir no essencial. Aliás, outra coisa não seria de esperar de alguém que, ainda muito jovem, andou a pé pelas ruínas de Londres bombardeada pela aviação nazi. Esta gente que governa o Mundo não existe perto dela senão como ficção, e da má. Olhe-se, por exemplo, para a palhaçada em curso num Brasil há duzentos anos independente disto. Por triste coincidência, o nosso chefe de Estado estava no meio dela no dia em que Isabel nos deixou. Depois, é só comparar o incomparável e o impensável em que tudo, por todo o lado, se encontra. Isabel fazia evidentemente parte da minha paisagem desde sempre. Da primeira vez que estive em Londres, sozinho, com dezasseis anos, passava o jubileu dos vinte e cinco anos de reinado. Tive então o tempo e a paciência que já não tenho para tudo absorver. Isabel é morta. Que o seu espírito luminoso possa continuar connosco.

João Gonçalves

O lugar do morto

Aparentemente, realiza-se amanhã um conselho de ministros extraordinário para aprovar medidas destinadas a suster a inflação e a prover à crise, nomeadamente energética, que já assola - e de que maneira - a União Europeia. Quando oiço falar em conselhos de ministros extraordinários deste governo, assusto-me. Andamos há dois anos, entre ordinários e extraordinários, em plenários ministeriais de onde raramente saem decisões consistentes. Veja-se os últimos, enquanto Costa veraneou. Um grupo de ministras e de ministros, chefiados pela mocinha da Presidência, rumou à serra da Estrela para anunciar uma "nova" serra da Estrela saída dos escombros dos incêndios locais. O que não teve remédio remediado estava pelo "progresso" anunciado e, recorrendo ao "algoritmo" da improvável Patrícia Gaspar, podia ter sido pior. Houve, aliás, um "ganho" de 30% na catástrofe em relação à previsão inicial do governo. Como de costume, ninguém percebeu que a época de incêndios não se prepara e previne em cima dela ou imaginando uma Disneylândia beirã logo a seguir. Entretanto, Costa regressou da praia e Marta Temido, a catástrofe ambulante da Saúde, esperou cerca de 24 horas que ele se recompusesse da viagem. Numa madrugada, demitiu-se. Já era uma governante do passado e do passivo, mas levou o tempo a entender que jamais devia ter persistido no governo da absoluta. Costa, nada dado a estados de alma, lamentou, avisando imediatamente que as "políticas" (quais, com o sistema nacional de saúde num caos?) eram para continuar. A senhora ficou a aboborar, demissionária, e, em S. Bento, um primeiro-ministro descontraído, em camisa de ganga, juntava a mocinha da Presidência, o do Ambiente, o fatal Medina e o seu ajudante Mendes para "preparar" o tal conselho extraordinário a que aludi. Fora a "bilha solidária" de Duarte Cordeiro, a verdade é que, contrariamente aos governos europeus mais próximos de nós, o do PS só agora pretende analisar a crise que somou à da pandemia a inflação e a energética geral. Lá por não estarmos tão dependentes de certas coisas como outros, somos uma periferia preguiçosa que chega sempre tarde à história, à boa e à má. Ainda ontem, o espanhol "El País" dava conta da preocupação do governo Sánchez por causa da inflação. Prometida ser acidental, e susceptível de ser curada rapidamente pelo BCE e pelos bancos centrais autóctones, em Janeiro, a inflação não só não foi debelada como passou do trote para o galope no Verão. E as famílias - as espanholas - começam a sentir duramente em Setembro o seu efeito. A Alemanha aprovou vários pacotes de ajuda à sociedade, pessoas e empresas, o último dos quais este fim de semana, com 65 mil milhões a mais e uma taxa sobre os lucros das energéticas para baixar as facturas. E Macron, famosamente, decretou o fim da abundância e do paradigma do infinito que geriu estupidamente o mundo nos últimos anos. Nós por cá, todos bem? Pois há sol, o esférico roda quase diariamente, Bruno de Carvalho casou-se numa das "igrejas" que alimenta a piolheira, a TVI/CNNP, Marcelo não sai da feira do livro e Costa fez de conta que dançou ao martelo em Moçambique. Convinha, porém, aterrar no real e não continuar fora deste mundo. Porque o mundo, para além de não esperar por nós, chegar-nos-á rapidamente a casa, à empresa, às compras. Já chega, aliás. Ocupamos o lugar do morto sem saber ou, pior, sem querer saber disso para nada.

João Gonçalves

Portugal em Marte

A ilusão do calendário faz supor que existe um período que termina e outro que começa. As "férias" finalizam-se na semana que entra agora, com o termo de Agosto pelo meio, e uma nova vida retoma-se, na sua banalidade, a seguir. Não é bem assim. A verdade é que nem a pandemia acabou - pelo menos a OMS ainda não decretou tal -, como, em simultâneo, o planeta não conseguiu adaptar-se a um hipotético cenário "pós-pandemia", com todo o seu cortejo de "planos" económicos disto e daquilo. Porque entretanto emergiu uma guerra. Veja-se o caso português. Um Governo de maioria absoluta, medíocre, entregue durante as "férias" a umas loucas e loucos de serviço que não "vivem" cá. Foram até à serra da Estrela, em bando, anunciar bem-aventuranças futuras depois de aquilo ter ardido tudo. Estilo: "há males que vêm por bem", e a gente agora vai fazer dos escombros um admirável pequeno novo mundo, mesmo sem sabermos ler e escrever. Uma das piores, a Temido, regressou em força afirmando que era preciso andar praticamente até à idade da pedra lascada para encontrar a "culpa" pelos males do SNS. Pelo caminho, a senhora "enterrou" gente digna como Maldonado Gonelha ou Leonor Beleza porque, famosamente, é uma atrevida desbiografada. O do Ambiente, com quem simpatizo pessoalmente, veio falar na "bilha solidária", revelando não ter bem a noção da desgraça que aí vem com os gases e as electricidades. E Marcelo? Bom, Marcelo deu em assinar diplomas do Governo, "com dúvidas", e passeia a sua inutilidade institucional e política, desde o Algarve ao Parque Eduardo VII, desviando por Angola, onde, por sinal, ocorreram umas eleições semivergonhosas, avalizadas por alguns "vultos" nacionais, convidados pelo Governo local, e que têm de continuar a fazer pela vida deles. É como se, no universo da magnífica "lusofonia", connosco à cabeça, não houvesse nada de sério fora dela. Sucede que há, e está para continuar. Ninguém explica aos portugueses que, para além da recessão provocada pela pandemia, e da inflação que já resultava das manipulações financeiras do "lado de cá", juntou-se o efeito "boomerang" da Ucrânia e das sanções, sem tom nem som, à Federação Russa. Desde Fevereiro que o centro do mundo ocidental passou a ser o regime de Kiev. Quando, na verdade, o que está no meio, a começar pela própria Ucrânia - um Estado sem uma nação -, são puras marionetas de uma redefinição geopolítica global em curso entre os EUA, a Rússia e a China, com um novo interlocutor oportunista pelo meio chamado Turquia. Esta União Europeia não tem altura para isto, como reconheceu indirectamente Macron. Portugal, a periferia, prossegue mantido na ignorância, na festança e no adiamento. Costa quer mais tempo para a "bazuca. Ainda lhe rebenta em casa.

João Gonçalves

Guterres bem

Desde o início desta crise internacional, suscitada pela intervenção militar da Federação Russa em território ucraniano, que se esperava mais da ONU. Sabemos que a Organização está manietada pelos membros do Conselho Permanente onde, nomeadamente, se sentam os EUA, a China e a Rússia. Nos primeiros dias, o secretário-geral, o nosso Guterres, praticamente desapareceu. Ou então emergia aqui ou ali para dissertar sobre a subida das águas e o extraordinário aquecimento do planeta. A dada altura, porém, não pôde mais furtar-se às evidências e embrulhou a matéria numa "crise humanitária", acabando, na Primavera, por aparecer na zona em encontros com o regime de Kiev e em visitas a locais específicos, anteriormente massacrados pela intervenção e pelas respostas militares autóctones à intervenção. Guterres deixou-se fotografar nesses locais e produziu declarações não totalmente "brancas". Isto é, falou explicitamente de guerra e da necessidade de se apurar onde e como existiram, e existem, crimes de guerra e violações desbragadas do Direito Internacional, valha este hoje o que valer. Naquela mesa infindável do Kremlin, encontrou-se com Putin a quem exprimiu, no seu inglês macarrónico, e delicadamente, as preocupações da Organização face ao que se estava a passar, na altura, com especial incidência em Mariupol. "Corredores" humanitários foram então abertos e fechados, fechados e abertos, mas o apelo ao cessar-fogo de Guterres não obteve sucesso. Há dias, ele e Erdogan encontraram-se com Zelensky em território ucraniano, e deram uma conferência de imprensa conjunta. Tratava-se, e trata-se, agora, de garantir a segurança das exportações de toneladas e toneladas de bens alimentares para evitar, ou mitigar, as desgraças que não deixaram de ocorrer entretanto, designadamente em África, apesar da concentração "ocidental" na Ucrânia. Guterres esteve no porto de Odessa, gostou do que viu, mas quer naturalmente mais. Mais barcos a sair com produtos ucranianos e russos. Apelou para a exportação, e aceitação subsequente, de fertilizantes de origem russa. Mas, sobretudo, tratava-se da segurança da maior central nuclear da Europa, de Zaporizhia, e zonas adjacentes, ocupada pelos russos e atacada, de fora, pela tropa ucraniana. Guterres pediu paz, pelo menos ali. Erdogan jurou ir falar com Putin a seguir, sempre pedalando a bicicleta turca. E Zelensky, com cara de bebé chorão, deixou logo claro para os dois interlocutores que só haverá paz quando a Rússia sair de todos os espaços ocupados, incluindo a Crimeia. Em contacto telefónico com Macron, Putin "abriu" as portas da central à agência internacional que audita a segurança nuclear, "fechando" momentaneamente o acesso ucraniano à electricidade ali produzida. O que Guterres contestou imediatamente por se tratar de equipamentos em solo da Ucrânia onde a guerra continua. Em suma, e para variar, Guterres bem. *Jurista