O Jogo ao Vivo

Imagens

Últimas

Vítor Santos

#tapinhanãodói

Nunca fui de fazer sestas, mas gosto de sentar-me no sofá depois do almoço. Quando consigo, aproveito para ler ou ver anedotas, porque a habilidade parece cada vez mais escassa para alguém as dizer em alta voz, face ao desenvolvimento de novas formas de comunicar, como os memes ou tweets servidos em doses boas de sarcasmo. No meio deste sono que não acontece, também vejo coisas que têm pouca piada. Mas respeito as opiniões, por mais absurdas que nos pareçam. Já vi defenderem líderes mundiais tão gentis como Donald Trump, Nicolás Maduro, Jair Bolsonaro, Kim Jong-un ou Vladimir Putin, tudo gente boa que não hesita em abrir caminho para disparar ou cometer as mais patrióticas atrocidades em seara alheia. Curioso é que, nos últimos dias, vi erguer-se uma onda de indignação, proveniente dos mesmos quadrantes que tão nobres personalidades defendem, por causa de o Papa Francisco ter dado uma sapatada na mão de uma devota. É estranho e, simultaneamente, verdade: incomodam-se com um tapinha que não dói e glorificam a morte dos indefesos. São, no fundo, umas anedotas. Não se desse o caso de serem um bocado para o aparvalhadas, até tinham piada.

Vítor Santos

A Justiça em 2020

Existem para todos os gostos, mais ou menos sérias, mais ou menos sentidas: são as mensagens. No Natal e no Ano Novo, multiplicam-se, banalizam-se, esvaziam-se esculpidas em lugares-comuns. Algumas não esquecemos, guardamos com carinho. Outras, por motivos diferentes, vamos querer recordar, até cobrar, ao longo de 2020. É o caso da comunicação do presidente da República - lá está, numa mensagem de Ano Novo. Marcelo deixou pistas sobre a Justiça do nosso país, que deve ser "respeitada, atempada e eficaz no combate à ilegalidade e à corrupção". Tudo o que não tem acontecido quando os casos tocam no futebol. O campeonato português, que pára mais vezes do que arranca, andou duas semanas a engordar-se em filhoses para voltar com cardápio de exceção, oferecendo dois dos duelos mais aguardados da época: o V. Guimarães-Benfica e o Sporting-F. C. Porto. E, independentemente das tradicionais críticas dos derrotados - se os houver - à arbitragem, a mancha de suspeição que alimenta discussões absurdas nas redes sociais e nas televisões não está, creio, no que se passa em campo, mas naquilo que tardamos em ver acontecer nos tribunais, onde denúncias e processos resultantes de documentação tornada pública na sequência da violação dos servidores de correio eletrónico dos clubes congelam em bolor. Entrámos em 2020 e a única pessoa detida é mesmo o hacker Rui Pinto. No fundo, a Justiça, em Portugal, é o reflexo do pensamento dominante. Quem nunca assistiu ao mais sensato cidadão a desculpabilizar um presidente, não obstante este sujar o emblema e embrulhar tudo na camisola sagrada, seja ela vermelha, azul ou verde? Se o registo estiver a ser escrito com títulos, a tendência é desvalorizar. Parecemos capazes de abdicar de tudo, até da dignidade intelectual, desde que nos ofereçam uma festa. Esperemos, pois, que a Justiça não vá em ofertas e, como exigia Marcelo, seja "atempada e eficaz".

Vítor Santos

#adultos

As etapas do crescimento físico são muito percetíveis. Já no plano intelectual, é diferente. Um tipo pode ter uns bons 30 anos e ser uma criança. Na parte que se cruza comigo, percebi através da evolução do meu pensamento que só consegui atingir a maturidade depois dos 40 anos. Mantive os traços de personalidade, mas passei a ser, entre outras coisas, mais cuidadoso quando confrontado com o perigo ou a possibilidade de colocar os outros em perigo. Traduzido por factos, há dez anos circulava na estrada, sem qualquer problema, a 150 ou 180 km/h, mas hoje cumpro quase religiosamente os limites de velocidade, não obstante saber que essa prática não me coloca a salvo de um acidente. Ontem, cheio de pressa por uma questão familiar, abri uma exceção e acelerei a fundo. E então descobri como pode a evolução encerrar todo um Everest de perversidade. É inadmissível aceitarmos que alguém desenvolva uma aplicação para nos avisar onde estão os radares. Para podermos, como fiz, acelerar sem limites. Se há coisa que ainda não descobrimos como resolver neste admirável mundo novo da tecnologia é a regulação. E acredito que só seremos verdadeiramente adultos enquanto sociedade no dia em que o conseguirmos ou, no mínimo, fizermos alguma coisa por isso .