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Manuel Serrão

Já não há segredos

Agora é que já não há dúvida nenhuma de que a tradição já não é o que era. Acho especialmente curioso ter chegado a esta conclusão no início de uma quadra em que a tradição ainda vai tendo uma grande força. Desde logo na gastronomia associada. Contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que eu conheço que na quadra natalícia não tocam ou nem sequer cheiram um bocadinho de bacalhau. Claro que fazendo jus à nossa convicção de que os portugueses inventaram quase mil maneiras de tratar o bacalhau, a tradição reveste-se de várias formas, normalmente assado, anormalmente cozido com todos ou sem eles, disfarçado em farrapo-velho e servido em camas diversas de couve, batata, azeite e cebola. Mas a verdade é que não conheço ainda ninguém que me diga que na consoada ou no almoço de Natal vai comer bacalhau desconstruído, espuma de bacalhau ou qualquer outra forma mais artística de apresentar este fiel amigo. Apesar da "enxurrada" de estrelas Michelin e restaurantes gourmets que já se encontram instalados um pouco por todo o país. Diria que a unanimidade começa e acaba no bacalhau, mas no que toca ao segundo prato o leque de opções também não é muito variado. Podemos falar do polvo em arroz e em filetes, muito popular nas zonas transmontanas, no cabrito, que é uma iguaria que vive de mãos dadas com este tipo de festas um pouco por todo o país, e ainda arrisco o cozido à portuguesa, que há também quem aproveite o pretexto de Natal para dar uma estalada num belo de um cozido.

Manuel Serrão

O Porto é uma enorme cumplicidade

Estava eu a semana passada numa sessão do Clube dos Pensadores no Holiday Inn de Gaia, a debater o Norte e o Porto com os meus amigos e cúmplices Júlio Magalhães e Pedro Abrunhosa, quando me ocorreu o título desta crónica. O Porto, mais do que uma cidade, é uma enorme cumplicidade. Claro que eu penso no Porto quase todos os dias e a todas as horas porque foi no Porto que nasci, é no Porto que vivo e acima de tudo tenho a suprema felicidade de adorar esta cidade e os seus habitantes. Mas é em momentos como este que acabei de referir que nos preocupamos mais em tentar perceber não só o que é o Porto, mas também o que o Porto tem de melhor e em que é que o Porto é único, no sentido de diferente de todas as outras cidades.

Manuel Serrão

Olá Maria e boa sorte!

De cada vez que consigo resolver um mistério na minha vida ou vejo que esse mistério aparece resolvido, é mais um dia feliz que acrescento à minha existência. Ontem foi mais um dia desses! Um dos mistérios que eu carregava há já alguns anos era o de não saber por que motivo nunca a Maria Cerqueira Gomes tinha sido alvo da cobiça concreta e efetiva de um dos três principais canais generalistas. Não me parece que fosse preciso ser um expert na matéria para perceber em pouco tempo que as qualidades desta apresentadora de televisão pediam meças a muitas outras colegas que se foram perfilando (e muitas delas logo despachadas em pouco tempo) nalguns dos programas de maior audiência dos últimos anos, nos vários canais de televisão.

Manuel Serrão

A arrogância moral e o populismo

Para enquadrar o texto com o título e já agora o título com o texto, começo por enumerar uma série de acontecimentos que têm povoado as manchetes dos jornais, revistas e televisões nos últimos dias, tendo merecido também por isso o comentário generalizado dos principais comentadores políticos da nossa Comunicação Social. Sem preocupações de ordem cronológica, refiro-me às últimas eleições no Brasil com a vitória do candidato Jair Bolsonaro, à polémica em torno de uma acusação feita por uma senhora americana a Cristiano Ronaldo e, ainda, uma acusação do mesmo género contra um juiz nomeado para o Supremo Tribunal Americano. Apesar de termos pelo menos um português envolvido nestes temas, Cristiano Ronaldo, nenhum destes acontecimentos se passa ou passou em Portugal, o que desde logo pressupõe uma certa arrogância de quem se acha habilitado a pronunciar sentença definitiva sobre realidades que não conhece ou conhece muito pouco.

Manuel Serrão

Por um novo parque na Alfândega do Porto

Quem me conhece, mas também quem só me conhece pelo que lê aqui no nosso JN, sabe que sou um adepto ferrenho da regionalização. Também o sou da desconcentração de poderes, da descentralização e de outros nomes que inventem para falar do mesmo desiderato. Na verdade, o nome que lhe chamamos interessa muito menos do que a reforma que anunciam. Trata-se de aproximar o poder de decisão da região onde vivem e trabalham os portugueses interessados ou afetados por essas decisões. Dito isto desta forma simples e cristalina, até parece estarmos perante uma reforma que se pode implementar quase com um estalar de dedos. Infelizmente não chegam os dedos de duas mãos para enumerar os níveis de dificuldades e resistência que uma reforma destas enfrenta em cada novo fôlego que aparenta ter. O Porto, por ser a segunda cidade e por ter frequentemente líderes políticos que batem o pé e erguem a voz, ainda é capaz de ser a região menos prejudicada, mas nem por isso deixa de sofrer com este problema. Hoje quero contar-vos um caso que é um exemplo perfeito desta urgente necessidade supracitada de aproximar o poder de decisão das regiões que são prejudicadas ou beneficiadas por essa decisão ou pela sua falta. O edifício da Alfândega do Porto tem sido nos últimos anos uma das principais salas de visita da cidade, acolhendo eventos e cerimónias de natureza, relevância e dimensão diversa, com um charme e uma qualidade de serviço e instalações que lhe têm granjeado vários e merecidos prémios nacionais e internacionais. Os seus responsáveis têm operado também vários melhoramentos no edifício, muito elogiados por quem o visita ou contrata recorrentemente para eventos, como é aliás o meu caso e por isso aqui escrevo com absoluto conhecimento de causa.

Manuel Serrão

António Costa, cool

Antes de ir ao miniescândalo ridículo causado pelos jeans do primeiro-ministro à chegada a Luanda, vou começar por contar uma estória já antiga, tão antiga que a Manuela Moura Guedes ainda era uma pivot respeitada dos telejornais da RTP. Nesses anos finais da década de 80, inaugurava-se oficialmente (ainda que sem nenhuma parada militar no programa) mais uma edição da PORTEX, a feira da moda e do têxtil que muito fez pelas exportações do setor, a partir do Palácio de Cristal e da Exponor, desde 1987. Nesta época, a Sara Sampaio ainda não era nascida (snif) e imaginem que ainda nem sequer existiam agências de modelos, mas cada PORTEX era um acontecimento mediático que marcava a agenda dos telejornais e também, não raro, as agendas dos ministros e secretários de Estado das áreas da economia, mais, e da cultura, menos.