Crise climática

A viagem de Greta e como chegou a Portugal (quase) sem poluir o ambiente

A viagem de Greta e como chegou a Portugal (quase) sem poluir o ambiente

Em agosto de 2018, era apenas uma menina de 15 anos com um cartaz a dizer "skolstrejk för klimatet" (greve escolar pelo clima) em frente ao parlamento sueco. Hoje, mais de um ano depois, Greta Thunberg é uma das jovens ativistas mais influentes do Mundo e porta-voz de um movimento global que desafia líderes políticos a tomar ação contra as alterações climáticas. Esta terça-feira, chega a Portugal depois de atravessar o oceano Atlântico de barco. Pela segunda vez.

A aventura começou no dia 20 de agosto de 2018, quando publicou no Instagram uma fotografia em que aparecia sentada em frente ao parlamento da Suécia, com um cartaz a incentivar outros adolescentes como ela a faltar às aulas em protesto contra a falta de medidas políticas para reverter os efeitos nocivos das alterações climáticas.

"Nós, crianças, geralmente não fazemos o que vocês mandam, fazemos o que vocês fazem. E já que vocês adultos estão-se nas tintas para o meu futuro, eu também estou. Faço greve pelo clima até ao dia das eleições [legislativas suecas, a 9 de setembro de 2018]", escreveu Greta na descrição da imagem, num estilo de discurso que viria a repetir várias vezes até hoje. Mas o que parecia apenas um protesto local de alguns dias transformou-se num movimento à escala global durante os últimos meses, com alunos de vários países a juntar-se à iniciativa e a faltar às aulas às sextas-feiras, incluindo em Portugal.

Dos discursos aos convites para conferências

Greta tirou um ano sabático para fazer campanha e o movimento foi crescendo, associando-se a organizações como a Greenpeace, a Extinction Rebellion e a 350.org. No Reino Unido, milhares de alunos pediram mão verde ao então Governo de Theresa May. As manifestações chegaram a escolas secundárias e universidades na Austrália, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Japão e mais de uma dúzia de outros países.

"Isto é apenas o princípio do princípio", garantiu Greta, em março, num discurso durante uma manifestação em Berlim, na Alemanha. "As gerações adultas falharam-nos na maior crise que enfrenta a humanidade", disse a jovem de 16 anos, perante vários milhares de pessoas. Em maio, na cimeira "Austrian World Summit", em Viena, na Áustria, afirmou que a crise climática "é, acima de tudo, uma emergência e não é apenas qualquer emergência". "É a maior crise que a humanidade enfrenta", repetiu perante dirigentes políticos.

Greta foi então convidada para a Cimeira de Ação Climática das Nações Unidas, em Nova Iorque, EUA, em setembro, e para a 25.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, ou COP25, em Madrid, Espanha, em dezembro.

A primeira viagem pelo Atlântico e o príncipe

A jovem sueca queria participar nas conferências das Nações Unidas, mas para isso - e para ser coerente com o seu discurso - teria de evitar meios de transporte muito poluentes, como aviões, cujo impacto ambiental é extremamente negativo, devido às emissões de dióxido de carbono. Então Greta optou por ir de comboio da Suécia até Plymouth, em Inglaterra, e, a 14 de agosto, embarcou num veleiro não poluente para Nova Iorque.

O Malizia II é um dos poucos veleiros no Mundo a usar zero combustíveis fósseis, é impulsionado pelo vento e usa painéis solares e geradores movidos a água para obter eletricidade. Ao leme estava Pierre Casiraghi, terceiro filho da princesa Carolina do Mónaco, que decidiu juntar-se à iniciativa desde que reparou na lixeira em que se transformaram os oceanos que gosta de cruzar desde muito novo. A viagem duraria cerca de duas semanas, bem a tempo de Greta chegar antes da cimeira da ONU em Nova Iorque, em 23 de setembro.

No entanto, a viagem pelo oceano Atlântico não foi tão ecológica como parecia. Apesar de ter viajado num veleiro não poluente, Greta não conseguiu evitar o impacto negativo no ambiente, uma vez que dois membros da tripulação do Malizia II tiveram de apanhar um voo para Nova Iorque para trazer o barco de volta à Europa. Além disso, os dois marinheiros que viajaram com Greta e o seu pai, Svante, também iriam voltar de avião.

O encontro com Guterres e as lágrimas na ONU

Greta chegou a Nova Iorque no dia 28 de agosto, depois de 15 dias a navegar pelo oceano. Multidões juntaram-se horas antes para receber a jovem sueca numa marina na ponta sul de Manhattan. "Precisamos de nos manter unidos e agir, porque, caso contrário, pode ser tarde demais. Não vamos esperar mais. Vamos fazê-lo agora", disse a ativista numa conferência de imprensa.

Os dias seguintes foram de participações em manifestações, entrevistas, presenças em conferências e, claro, na cimeira da ONU. Em 19 de setembro, Greta pediu ao Congresso dos EUA para se unir aos cientistas que alertam para a urgência na mobilização contra o aquecimento global. "Quero que vocês ajam", disse a jovem sueca. No dia 21, falou na abertura da Cimeira da Ação Climática para a Juventude, acompanhada de quatro outros jovens ativistas e ao lado do secretário-geral da ONU, António Guterres. "Mostrámos que estamos unidos e que nós, os jovens, somos imparáveis", disse Greta a propósito de uma marcha global pelo planeta realizada no dia anterior, que mobilizou centenas de milhares de jovens em vários países.

Em 23 de setembro, na Cimeira de Ação Climática das Nações Unidas, em Nova Iorque, Greta fez um discurso emocionado, criticando os líderes mundiais pela inação face às alterações climáticas e acusando-os de lhe roubarem os sonhos e a infância. "Como é que se atreveram? Vocês roubaram-me os sonhos e a infância com as vossas palavras vazias. Eu não devia estar aqui, eu devia estar na escola, do outro lado do oceano", lamentou a jovem de 16 anos, emocionada.

"Vocês deixaram-nos cair. Mas os jovens começam a compreender a vossa traição. Se vocês decidiram deixar-nos cair, eu digo-vos: nós nunca vos iremos perdoar. E não deixaremos que vocês se vão embora assim. O mundo está a acordar e a mudança a chegar, quer vocês gostem ou não", concluiu, sob fortes aplausos.

A segunda viagem pelo Atlântico e as boas-vindas a Portugal

A ideia original de Greta depois da viagem para os EUA passava por continuar em "tournée" pelo Canadá e depois ir pelos meios mais ecológicos possíveis para Santiago, no Chile, local que iria receber, entre os dias 2 e 13 de dezembro, a cimeira do clima COP25. Porém, devido à instabilidade política e violência naquele país, o local da conferência passou a ser Madrid, em Espanha, obrigando a jovem sueca a repensar os planos e a equacionar uma nova viagem pelo Atlântico.

Em 12 de novembro, Greta anunciou, nas redes sociais, que iria partir, na manhã do dia seguinte, do porto de Salt Ponds, em Hampton, no estado norte-americano da Virgínia, de volta para a Europa "à boleia" do catamarã de 15 metros "Le Vagabonde", de um casal australiano, Riley Whitelum e Elayna Carausu, que navega à volta do Mundo com a filha, Lenny, de um ano, e partilha as suas viagens no YouTube. A tripulação, que conta ainda com a velejadora profissional inglesa Nikki Henderson, prontificou-se a ajudar a jovem a atravessar o oceano após um apelo lançado por ela quando soube que a cimeira teria lugar, afinal, em Madrid.

Depois de se saber que a ativista estava a caminho de Espanha, começou a especular-se sobre uma eventual paragem em Portugal e até se criou uma hashtag para isso acontecer: "#makeportugalgreta". A ideia da passagem de Greta pelo nosso país surgiu através uma proposta aprovada na comissão parlamentar de Ambiente da Assembleia da República no sentido de convidar a jovem sueca a vir a Portugal e ao Parlamento.

Em 21 de novembro, Greta anunciava a chegada a Lisboa "no início de dezembro". "Tivemos que diminuir a velocidade do barco para evitar um tempo muito mau pela frente, mas agora estamos de volta ao rumo certo na velocidade máxima. Espero que cheguemos a Lisboa, Portugal, no início de dezembro", escreveu na página do Twitter, onde vai publicando atualizações sobre a viagem com os seguidores. O veleiro "Le Vagabonde", tal como o "Malizia II", não deixa quase pegada carbónica, produzindo energia através de painéis solares e geradores movidos com a força da água. E, desta vez, a tripulação leva o barco de volta no fim do percurso, sem precisar de viagens de avião.

Na passada quarta-feira, Greta avisou que estava a noroeste do Arquipélago dos Açores e a cerca de 1140 milhas náuticas de Lisboa, no décimo quinto dia da sua viagem até à conferência do COP25, em Madrid, Espanha. No sábado, anunciou que chegaria a Lisboa esta terça-feira de manhã. "Dia 18. Estamos a caminho da Europa. O dia previsto para a chegada é terça-feira de manhã. Vamos chegar à Doca de Alcântara, Lisboa. Esperamos encontrar-vos aí!", escreveu no Twitter.

A presença da jovem sueca no Parlamento português ainda estava por garantir, mas há uma pequena receção na doca de Alcântara, com a população e os jornalistas. O ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, afirmou que Greta é "muito bem-vinda" a Portugal e que a sua luta é da "maior relevância" para consciencializar os mais jovens para uma sociedade livre de carbono. E até lhe escreveu uma carta.

A seguir à breve passagem por Portugal, que poderá ser inferior a 24 horas, Greta irá de comboio para Madrid - apesar de lhe ter sido oferecida uma viagem de carro elétrico -, com urgência para marcar presença na COP25, que começou na segunda-feira.

A "emergência climática" e o que está em causa na cimeira de Madrid

Na passada quinta-feira, o Parlamento Europeu declarou o estado de "emergência climática e ambiental" e defendeu que a União Europeia se comprometa a reduzir emissões de gases com efeito de estufa em 55% até 2030, para atingir a neutralidade climática até 2050. Greta reagiu no Twitter: "No meio do oceano, fico impressionada com a notícia de que o Parlamento da UE declarou uma emergência climática. Não podemos resolver uma crise sem tratá-la como tal. Vamos esperar que agora tomem medidas drásticas o suficiente".

No dia seguinte, dezenas de milhares de pessoas voltaram a sair às ruas em protesto pelo clima, um pouco por todo o Mundo. Os efeitos do movimento iniciado por Greta começam a fazer-se sentir. A Amazon anunciou uma campanha para que o Acordo de Paris seja cumprido 10 anos antes. O Papa Francisco afirmou que os adultos devem seguir o exemplo dos jovens na defesa do ambiente. Em Portugal, milhares de jovens unem-se pela causa e dizem que "ainda não há a noção de que é preciso fazer uma mudança rápida".

Durante os próximos dias, milhares de especialistas e decisores políticos reúnem-se para discutir as alterações climáticas, que são, segundo o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, "o maior problema da humanidade". Leia aqui, ponto por ponto, tudo o que está em causa na cimeira do clima em Madrid.

Quanto à aventura de Greta Thunberg, iniciada o ano passado à frente do parlamento sueco, já vai longa. Numa entrevista, a jovem de 16 anos confessou que, depois da participação na COP25, espera voltar para casa, em Estocolmo, a tempo do Natal, para estar com a família e os seus cães, Moses e Roxy, um golden retriever e um labrador.

"Viajar é muito divertido e tenho o privilégio de ter a oportunidade de fazê-lo, mas seria bom regressar às minhas rotinas", disse Greta. Para voltar a ser apenas uma menina. Com sonhos e esperanças. Mas sem largar nunca aquele cartaz com as palavras que começaram a revolução.